Queen e Slim: mas quem quer uma história perfeita de amor mesmo?

Queen e Slim: mas quem quer uma história perfeita de amor mesmo?

Mas quem quer uma história perfeita de amor mesmo? Quem quer um herói que salve o dia? Clichê. Queen e Slim é um filme poético e político.

Sinopse

Após um primeiro encontro estranho, Queen (Jodie Turner Smith) e Slim (Daniel Kaluuya) são parados por um policial racista. Na truculenta abordagem, Queen acaba sendo baleada na perna e Slim, em legítima defesa, atira contra o policial, que morre. Queen e Slim então viram fugitivos da lei. O filme foi lançado em 2019, dirigido por Melina Matsoukas e Lena Waithe é a responsável pelo roteiro.

Os títulos que dividem a resenha são parte da letra da música Part II (On The Run), de Jay Z com participação de Beyoncé, que cantam sobre dois fugitivos apaixonados, para mim a relação com o filme foi instantânea.

Melina e Lena revelou em entrevista que o significado dos nomes é que toda mulher negra é uma rainha e os homens afro-americanos constantemente chamam uns aos outros por Slim. A ideia é que a comunidade afro americana se enxergue nesses personagens.

Melina Matsoukas

Para os fãs de cantoras negras, principalmente os fãs de Beyoncé, Melina Matsoukas é um nome no mínimo familiar. Melina foi responsável pela direção dos videoclipes Formation, Pretty Hurts e o filme Lemonade de Beyoncé; também dirigiu You Da One, S&M e We Found Love de Rihanna; e muitos outros clipes belíssimos de cantoras incríveis como Alicia Keys, Ciara e diversas outras divas pop. Melina também já dirigiu alguns episódios da série da HBO Insecure.

♪ Boy meets girl, girl perfect woman ♪

Queen e Slim estão no carro olhando pelo retrovisor, apreensivos.
Queen e Slim: mas quem quer uma história perfeita de amor mesmo?

Logo nos primeiros minutos somos ambientados no que chamamos de momentos antes da desgraça acontecer. Slim e Queen jantam num pequeno restaurante. É basicamente o único momento que os vemos ser quem eles são antes de se tornarem fugitivos. Slim é educado, curte música, romântico até, mas daquele jeito debochado. Queen é sagaz, direta e sincera. Inclusive ela diz para o Slim que só topou sair com ele porque teve um dia ruim, haha.

Slim a leva de volta pra casa. A música romântica estabelece um clima entre os dois, contudo nada como uma abordagem policial para transformar toda a noite do casal num inferno. Slim não olha diretamente para o policial, evita qualquer tipo de confronto verbal, no entanto, Queen não se cala, soltando indiretas sempre que possível sobre como a polícia é violenta com pessoas negras.

Abordagem policial

Mesmo assistindo o filme mais de uma vez, nessa parte eu sempre espero que a abordagem acabe logo e tudo dê certo (mesmo sabendo que não vai dar), porque é o que eu sempre sinto quando sou abordado. Eu só desejo que acabe logo porque temo que algum policial implique com o estilo do meu cabelo, com o meu jeito de falar, com qualquer coisa ou até com coisa alguma, só pra ter motivo para me agredir ou até mesmo me colocar no camburão. É como diz a personagem de Kerry Washington, Kendra, no filme American Son, parece que é um cerco se fechando e que a qualquer momento serei eu.

Você pode adiantar? Tá frio.” Foi o que Slim falou para o policial enquanto ele fazia revista na mala do carro. O policial então saca sua arma e em gritos manda Slim deitar no chão. Queen, indignada sai do carro e começa a questionar o policial do motivo da prisão de Slim. Queen avisa ao policial que vai gravar a abordagem e ao buscar pelo celular acaba sendo baleada na perna. O policial e Slim então entram em confronto físico e em legítima defesa Slim dispara contra o policial, que morre. Queen sugere então que fujam dali.

♪ I’m an outlaw, got an outlaw chic ♪

Queen e Slim pensativos
Queen e Slim: mas quem quer uma história perfeita de amor mesmo?

Os dois então fogem. Dois estranhos que conhecem absolutamente nada um do outro. Queen, ferida, mas disposta a qualquer coisa para não ser presa e Slim ainda assustado. Queen é advogada, então na maior parte da noite, quando Slim questiona a ideia de fugir, é ela quem chama ele pra realidade.

Pouco a pouco eles vão percebendo que são tudo o que têm um para o outro. A diferença entre as personalidades começam a se encaixar. O medo de um curado na coragem do outro. Slim é romântico e gentil. Queen mostra que também pode ser doce e sensível. Eles procuram meios de enxergar beleza na dor. Entre a tensão e o desespero de não ser pego pela polícia, eles se encontram dançando, como num segundo encontro. As conversas que antes eram cheias de alfinetadas um ao outro agora são leves e passionais.

Queen e Slim são surpreendidos por um policial negro poderia prendê-los naquele instante e levá-los à justiça, mas escolhe deixá-los ir. Matsoukas acredita que quando um policial negro veste a farda, ele está levando consigo os pecados dos seus colegas brancos, ou seja, o policial sabe que a acusação é injusta e deixá-los ir é uma forma de rebelar-se com o sistema racista e assassino.

Representações

Eu cresci assistindo filmes de violência urbana. Sempre haviam homens negros e não importava se eram mocinhos ou vilões, eram sempre muito másculos, motivados pela raiva, ou sérios e puramente racionais, distantes de qualquer sinal de emoção. E o homem negro é ensinado a ser assim também. Para mim basta olhar pela janela e ver outros homens negros lutando para manter apatia em seus rostos, acreditando ser sinônimo de força. Slim representa o homem negro religioso, amável, sonhador, gentil, que não reprime o que sente, diferente do arquétipo do homem negro.

Como mencionei, Queen é advogada. Imagino que ela teve que enfrentar o mesmo sistema que agora quer vê-la morta. Atravessar todas as barreiras sendo mulher e negra, constantemente tendo que ser excelente em tudo (E ela se incomoda quando Slim questiona a necessidade de ser excelente…) para ter reconhecimento mínimo. Certamente explica sua sinceridade e determinação.

♪ I would hold your heart and your gun ♪

Slim e Queen posam para foto.
Queen e Slim: mas quem quer uma história perfeita de amor mesmo?

Desde o início da fuga Queen e Slim temem a morte e não a desconsideram, por isso durante a fuga sentiram necessidade de realizar desejos e mais pra frente aproveitar a companhia um do outro. Queen e Slim planejavam fugir para Cuba e conseguiram ajuda para isso. Neste momento eles já eram icônicos por todo país, principalmente porque a imprensa descobriu que o policial morto tinha assassinado um jovem negro anos antes. Para o povo negro, o casal em fuga representa combatentes do sistema opressor e racista. A personificação do negro se voltando contra o policial assassino, como um escravizado se revoltando contra seu escravizador.

Simbolismos

Três pessoas (um homem em pé, uma mulher e um cadeirante) protestam. A mulher segura a placa "Black and Proud".
Poético e político

Matsoukas e Waithe fizeram diversas pesquisas no processo de criação do longa. A ideia era criar a história em locais simbólicos para fazer os personagens mais autênticos. 

As primeiras cenas se passam em Cleveland, cidade onde Tamir Rice, jovem de 12 anos foi morto a tiros. O nome verdadeiro de Queen é Angela, em homenagem à filósofa e ativista negra Angela Davis. O policial que deixou o casal fugir se chama Langston, referindo-se à Langston Hughes, poeta negro do século XX responsável pela famosa frase “Eu também sou americano”. 

Existem ainda outros simbolismos que se eu comentar estarei dando spoiler, então só posso dizer que envolvem capitalismo e feminismo interseccional. Depois que você assistir o filme, me chame para conversamos sobre.

O filme deixa seu legado e merece ser reverberado. Por mais que Queen e Slim não sejam nem covardes nem revolucionários, despertam solidariedade preta, empatia e revolta, e inspiram. O filme é poético e político, como nossa arte sempre foi.

Without you I got nothing to lose.

Falando de algum lugar no universo - Marleson Moura

Preto, gay, nordestino. Designer gráfico, ator, amante de cinema e música. Canceriano, ponho paixão em tudo.

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