Edens Zero: o estilo Mashima de fazer mangá

Edens Zero: o estilo Mashima de fazer mangá

Olá maratoneiros, como estão vocês? Depois de uma sequência de três textos falando apenas de jogos eletrônicos, decidi variar o meu leque de temas para lhes trazer um texto sobre Edens Zero e o estilo Mashima de fazer mangá.

Se interessou? Então, vem comigo saber mais.

O que é Edens Zero?

Edens Zero é a mais recente obra em publicação de Hiro Mashima, o mesmo mangaká por trás de sucessos, como Rave Master e Fairy Tail. Publicado semanalmente nas páginas da revista Shonen Magazine, desde junho de 2018, o mangá já conta com 12 volumes encadernados até o momento. 

Além do original em japonês, a obra também foi lançada simultaneamente em outras seis línguas, dentre as quais o português do Brasil. A editora JBC, responsável pela publicação do mangá em território nacional, tem lançado os capítulos semanais de Edens Zero no formato digital, semanalmente. Já os volumes fechados também estão à venda tanto no formato digital quanto físico. 

Seguindo o exemplo de outros trabalhos bem sucedidos da carreira de Mashima, Edens Zero, também irá ganhar uma adaptação animada. A produção é do estúdio J.C.Staff (Shokugeki no Souma, Bakuman) e a estreia está confirmada para abril do ano que vem no Japão. Há ainda, dois jogos baseados na série em desenvolvimento pela Konami, um para consoles e outro para celular, ambos ainda sem previsão de lançamento.

A primeira imagem promocional divulgada do anime de Edens Zero.

Antes da aventura, fica o aviso

Conforme comentei no parágrafo anterior, Edens Zero é publicado na Shonen Magazine, uma das três maiores revistas de mangás para garotos do Japão. No entanto, é importante que o leitor(a) esteja ciente que o modelo editorial da revista diverge em alguns valores se comparada a outras do mesmo gênero, como a Shonen Jump (casa de Dragon Ball e One Piece) da editora Shueisha e a Shonen Sunday da editora Shogakukan (casa de Inu-yasha e Detective Conan) no que diz respeito ao quesito fan-service.

A Magazine possui uma longa tradição de ocupar suas capas semanais com fotos de garotas de biquini e ensaios fotográficos dentro da revista. Muitas de suas obras apelam exageradamente para situações de sexualização do corpo feminino. Edens Zero e outros trabalhos do Mashima são bem conhecidos por parte do público por essa razão. 

Dito isso, eu cresci como leitor de muitos desses mangás e confesso que só muito tardiamente comecei a reparar em questões como essas e como elas podem afetar outras pessoas diretamente. Daí a minha preocupação em deixá-los sobreaviso para que se sintam no direito de decidir sobre continuar ou não lendo sobre Edens Zero.

Viajando pelo espaço em busca de amigos

Ainda hoje me lembro de quando meu amigo, Fabio Sakuda, me ensinou sobre a importância das primeiras páginas de um mangá e como elas podem ser decisivas para fisgar o leitor. Pensando nisso, decidi rever algumas vezes as primeiras páginas do mangá de Edens Zero e notei que os principais elementos da trama estavam contidos nelas.

No começo do mangá, Ziggy (o robô com rosto de caveira) diz para Shiki (o garotinho) que, caso ele realmente queira conhecer mais sobre o mundo e o espaço, terá de viajar, visitar lugares diferentes, conhecer pessoas e fazer amigos, muitos amigos.

O que de fato acontece anos depois, quando Shiki na companhia de Rebecca — a sua primeira companheira de aventuras — parte numa jornada, determinado a encontrar Mother, a chamada Deusa dos Cosmos,  por todos os aventureiros do mundo de Edens Zero e cuja localização é um mistério. 

E como é de se esperar, essa longa estrada até a realização do sonho será pavimentada por muitos desafios para nossa dupla de heróis, mas eles não vão estar desamparados, já que a tripulação de amigos vai aumentando com o decorrer da história.

O estilo mashima: elementos comuns 

Na posição de quem já leu quase toda obra do Mashima anterior à Edens Zero, acredito ter propriedade para identificar alguns dos elementos comuns de seus mangás e que estão presentes no seu mais recente trabalho. 

Vou começar pelo primeiro capítulo de Edens Zero, no qual conhecemos Shiki e Rebecca, o novo par romântico da vez, depois de Haru e Ellie em Rave e Natsu e Lucy em Fairy Tail. A estrutura narrativa e a maneira como o casal de personagens se conhece é praticamente igual em todas as três histórias. O garoto conhece a garota e depois ambos se envolvem em problemas e juntos os solucionam.  Por fim, se tornam amigos e decidem juntos partir numa jornada.

Outro elemento recorrente no estilo Mashima são seus protagonistas muito semelhantes fisicamente e com nomes cujo significado em japonês se referem a estações do ano: Haru (primavera), Natsu (verão) e Shiki (quatro estações). Os personagens principais também costumam ser sempre jovens, determinados e com forte senso de justiça e amor ao próximo.   

Capa do mangá Mashima Heroe’s reunindo os protagonistas: Haru, Shiki e Natsu.

Ainda sobre os protagonistas, quase todos possuem fortes laços com a imagem paterna, mas se tornam órfãos em algum momento da trama. Em entrevista, o autor, explicou que a razão para explorar o tema parte do fato de ele ter perdido seu pai ainda muito jovem.  

Alvo de muitas críticas, Mashima é um dentre muitos autores a utilizar em seus mangás o chamado “Star System” — a prática de reutilizar os seus personagens antigos em novos trabalhos. Em Edens Zero, são vários os personagens reaproveitados de Fairy Tail, como o gatinho azul, Happy; a pirata espacial Elsie Crimson, cujo aspecto físico é o mesmo da Erza Scarlet; a b-cuber rival de Rebecca, Labilia Christy claramente inspirada em Wendy Marvell, dentre outros. O que não significa que não tenhamos novos personagens completamente originais no mangá. 

Nem só de antigos rostos consiste a tripulação da nave Edens Zero.

Além disso, dragões, viagens no tempo, situações cômicas, criaturas estranhas e o famigerado poder da amizade também têm espaço garantido nas páginas de Edens Zero, porém, com uma nova roupagem e adaptados para um ambiente futurista e altamente tecnológico.

O mesmo estilo, não a mesma obra

Desde que Edens Zero havia sido anunciado, lá em 2017, constantemente via os mesmos comentários sendo repetidos à exaustão por todos os cantos da internet: “lá vem aí o Fairy Tail no espaço” e aquilo me deixava um pouco chateado. Veja bem, não me entenda mal, você pode não gostar do Mashima ou dos trabalhos dele e isso vale para outras tantas coisas. O meu problema é que comparar ambos os mangás afirmando que são meras cópias um do outro em nada acrescenta para um debate saudável sobre os méritos de cada obra.    

Acompanhando Edens Zero e até o presente momento tendo lido mais de 70 capítulos do mangá, seria muito injusto dizer que ele é apenas mais um “Fairy Tail”. Em primeiro lugar porque considero FT um ótimo mangá e não só mais um mangá. E em segundo lugar, porque em Edens Zero, o Mashima tem caminhado a trama por caminhos outros, esses muito mais sombrios, cruéis e dramáticos do que ele jamais se arriscou com Fairy Tail.  

Ser um autor de mangá bem-sucedido, o que requer ter a sua obra adaptada para animes, jogos, filmes, peças de teatro e produtos licenciados, não é tarefa fácil! Por esse motivo são poucos os autores que alcançam essa posição. Desse modo, quando estabelecidos dentro do sistema, eles procuram fortalecer o próprio estilo e convenções próprias. O Mashima faz isso de maneira muito consciente, pois com mais de 20 anos de carreira, ele deve saber os pontos fortes e fracos de seus mangás e como agradar o público que o acompanha e ainda assim conquistar novos leitores.   

Tem como olhar para esses personagens e não reconhecer o estilo do Mashima?

Quando você vai à banca de revista próxima da sua casa (lembre-se que estamos em quarentena, isso é só um exemplo) e vê uma revistinha da Turma da Mônica, você leitor, provavelmente sabe o que esperar daquela narrativa e daqueles personagens, inclusive consegue reconhecer facilmente o estilo artístico impresso por Maurício de Sousa. Pois bem, não é muito diferente com os mangás. Eu, por exemplo, como disse antes, li boa parte dos trabalhos do Mashima e isso ocorre por identificar nele um estilo que me agrade e do qual sei o que esperar.

Até onde a vastidão do espaço nos levar

Com mais de 100 capítulos publicados atualmente, além de uma adaptação animada confirmada para estrear em abril do ano que vem, já dá para imaginar que Edens Zero tal qual Fairy Tail — ainda em publicação com a série 100 Years Quest — será um mangá de longa duração. Como fã assumido do estilo Mashima de fazer mangá, não nego que seja esse o meu desejo. Acredito que há ainda muitos planetas, aventuras e novos amigos aguardando por Shiki, Rebecca, Happy, Weisz, Homura, Pino e toda tripulação da nave Edens Zero. 

Então, caro leitor, se você também já for um fã do estilo Mashima, saiba que com esse novo mangá do autor estará em casa, mas caso não seja familiarizado ainda, ele com toda certeza será uma ótima porta de entrada. A decisão, é claro, fica sob a sua vontade. De minha parte, estarei aqui aguardando seus comentários e pronto para discutirmos quaisquer assuntos relacionados ao tema deste texto. 

Um forte abraço e nos vemos por aí num planeta próximo.

Falando de algum lugar no universo - Pedro Corujeira

Salvo mundos fantásticos da iminente destruição desde os anos 90 e sigo nessa vida até hoje. Nos intervalos entre uma batalha e outra, escrevo para o Maratona de Sofá sobre joguinhos, filmes, desenhos, gibis e o que mais der na telha.

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