Embarcando em Aventuras de menino

Embarcando em Aventuras de menino

Leitor voraz de mangás shounen, marcados por narrativas de grandes sagas e muita porradaria, Aventuras de menino, de Mitsuru Adachi, foi uma pausa necessária para respirar fundo, rever alguns fantasmas do passado e apreciar o talento de um dos maiores mestres dos quadrinhos japoneses, infelizmente, tão pouco conhecido do público brasileiro.

Aventuras de menino: a obra

Em Aventuras de menino, o autor Mitsuru Adachi, aborda por meio de oito histórias curtas, o resgate de memórias preciosas da infância, como chave para responder questões inquietantes no presente.

Ao longo das oito histórias da coletânea, o real e o fantástico se cruzam em diversas oportunidades, bem como o passado e presente, a fim de mover os protagonistas em direção a solução dos seus problemas pessoais. 

Capa da edição japonesa de Aventuras de Menino.

Os personagens, todos homens comuns, ocupando distintos papéis dentro da sociedade japonesa, lidam de diferentes formas com traumas e decisões do passado. Do sonho de voltar atrás numa péssima tomada de decisão, até a busca por reatar laços de amizade, feridos pelo tempo e mal-entendidos, cada um deles enfrenta ao seu modo as intempéries da vida.

O cotidiano japonês por Mitsuru Adachi

Quando penso na obra de Mitsuru Adachi, a primeira coisa que me vem à cabeça é a tamanha fidelidade com a qual ele retrata o dia a dia de um cidadão japonês comum, vivendo numa pacata cidade interiorana.  

Para quem nunca teve a oportunidade conhecer o Japão, falando especificamente de cidades pequenas, ler um mangá de Mitsuru Adachi é quase como dar um passeio por esses lugares. 

Os cenários desenhados por Adachi parecem até fotografias.

O mesmo vale para os personagens desenhados pelo autor, que representam com igual fidelidade os aspectos físicos da sociedade japonesa. Seu estilo de desenho e escrita são inconfundíveis e carregam a história de um artista que, como outros medalhões dos quadrinhos japoneses, como Rumiko Takahashi e Naoki Urasawa, conseguiram transpor gerações.

Memórias de menino

Quando era moleque, vivia repetindo para mim mesmo: “eu nunca vou deixar de gostar de desenhos ou de desenhar, porque não quero ser um adulto chato”. Essa ideia era como um escudo mágico, capaz de me proteger de qualquer ameaça ao meu ideal.

O tempo passou e com os anos, o ato de desenhar, até mesmo por hobbie, foi ficando para trás. O que antes fazia por diversão, tentei desesperadamente transformar num ofício. A pressão que exercia sobre mim era sufocante e com isso silenciei o artista que ali vivia. 

O traço único de Mitsuru Adachi fica ainda mais bonito com cores.

No entanto, os quadrinhos, os desenhos animados e os jogos, nunca deixaram de fazer parte da minha vida. E apesar de me culpar ainda hoje, pelo que fiz comigo no passado, algo me diz que esse artista nunca esteve silenciado. 

Do contrário, como ele estaria hoje escrevendo por aqui? Essa foi apenas uma de muitas questões sobre as quais venho pensando, depois de ler Aventuras de menino.

O primeiro e único no Brasil

É triste saber disso, mas Aventuras de menino é o primeiro e único trabalho da extensa obra de Mitsuru Adachi publicado no Brasil, até o momento em que redigia este texto. 

O autor é bastante premiado e reconhecido no Japão, tendo iniciado a sua carreira ainda na década 70, com diversos trabalhos de sucesso, inclusive adaptados para animes, novelas e filmes. Dos quais vale citar, entre os mais populares, Touch, Miyuki, H2, Cross Game e sua obra mais recente em publicação, MIX.  

Imagem promocional do mangá MIX.

Acredito que, pelo fato do autor abordar o beisebol e o cotidiano japonês como um tema central em muitas das suas narrativas, haja algum tipo de desinteresse das editoras brasileiras em se arriscar com esse tipo de material. 

Vale lembrar que são pouquíssimos os mangás de esporte publicados no Brasil e o mais próximo de algo pé no chão nesse sentido, foi o mangá Slam Dunk, de Takehiko Inoue. Ainda assim, algumas editoras têm mostrado repentino interesse em publicar autores clássicos, como Shotaro Ishinomori, Leiji Matsumoto, Go Nagai, dentre outros, então talvez ainda exista alguma esperança para vermos mais obras de Mitsuru Adachi por aqui.

Aguardando novas aventuras

Aventuras de menino é uma obra especial e tem lugar cativo no meu coração de leitor. A sensibilidade com a qual o artista lida com as memórias da infância através dos seus desenhos e histórias, reativa lembranças da criança que todos nós fomos um dia. 

Enquanto aguardamos a publicação de outras obras de Mitsuru Adachi no nosso idioma, podemos apreciar parte de seu enorme talento com esta coletânea, lançada no Brasil pela editora L&PM e seu selo de mangás. Deixo aqui o meu convite para essa aventura!

Falando de algum lugar no universo - Pedro Corujeira

Salvo mundos fantásticos da iminente destruição desde os anos 90 e sigo nessa vida até hoje. Nos intervalos entre uma batalha e outra, escrevo para o Maratona de Sofá sobre joguinhos, filmes, desenhos, gibis e o que mais der na telha.

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