Fishbone pela primeira vez no Brasil há 10 anos

Fishbone pela primeira vez no Brasil há 10 anos

A banda Fishbone pode ser considerada uma das mais influentes da história do rock e ao mesmo tempo uma das mais injustiçadas. O estilo da banda, normalmente definido como funk-metal, influenciou bandas diversas com Red Hot Chili Peppers, No Doubt, Living Colour, Beastie Boys, Sugar Ray e Smash Mouth. Todavia a banda não é tão famosa quanto as que influenciou. Seja como for em 2010, pudemos ver a banda Fishbone pela primeira vez no Brasil.

A banda foi formada em 1979, quando vários de seus membros estavam ainda na escola, em Los Angeles, EUA. Eles cresceram na região de South Central, região com predominância de violência urbana entre gangues. Nesse ínterim foram totalmente inovadores e pioneiros. Afinal foram bandas como Fishbone que pavimentaram o caminho para a fusão do funk com o rock e metal (tal qual a banda Bad Brains) e o movimento e festival Afropunk (Que acabou de ter uma edição online em Salvador neste último fim de semana).

Ouvindo Fishbone pela primeira vez

A princípio conheci a banda pela primeira vez no filme “O Máskara” que trazia na trilha uma versão da banda para “Let the good times roll”, do lendário Louis Jordan. Posteriormente a partir daí comecei a tomar gosto pela banda e suas diversas faces musicais. Isto não era uma tarefa muito fácil, pois não havia internet e a banda tinha sua música executada em rádios e televisão muito raramente. Encontrar discos então era uma tarefa praticamente impossível.

Em contrapartida aos poucos fui conseguindo mais contato com a banda e seu estilo totalmente inclassificável. A princípio uma leitura simplista e superficial pode creditá-los como rock. Todavia é notável que a banda, que começou com um som com forte base no ska, mescla vários gêneros: funk, blues, jazz, punk, soul, reggae e metal.

Acima de tudo o que poderia parecer uma miscelânea para outras bandas, para o Fishbone tudo flui de maneira estruturada e enérgica. Dessa forma pode-se perceber o resultado dessas misturas em músicas tão distintas como “When problems arise“, “Party at ground zero“, “Hide behind my glasses“, “Servitude“, “Fight the youth“, entre outras tantas que puderam ser vistas.

Fishbone pela primeira vez no Brasil

Há 10 anos acontecia shows do Fishbone pela primeira vez no Brasil. Para ser mais preciso há 10 anos e 3 meses. Nesse ínterim a banda se apresentou em 4 shows (2 em São Paulo, 1 em Curitiba e 1 no Rio de Janeiro). Dessa forma na noite do dia 24 de julho de 2010 fui na apresentação da banda no Circo Voador, na cidade do Rio de Janeiro. Como resultado este seria um dos melhores e mais emocionantes shows que já fui em minha vida. Em conclusão isto não é um exagero.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Formação do Fishbone que veio ao Brasil em 2010.

Pode ser contraditório, mas este foi um dos shows mais vazios que já fui e ao mesmo tempo um dos melhores e mais empolgantes. A princípio, talvez o pouco conhecimento sobre a banda aliada a uma baixa publicidade pode ter contribuído para um público pequeno. Eu mesmo apenas soube do show porque um amigo comentou comigo por acaso. Como resultado, o Circo Voador contava, a meu ver, com umas 100 pessoas. Porém, fazendo jus a sua fama, Fishbone mandou ver como nunca, mostrando que música não se trata de quantidade, mas de qualidade.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Ingresso do show no Rio de Janeiro.

Show empolgante

Eu já havia visto diversas vezes vídeos de apresentações ao vivo da banda. Todavia, só indo em um show dos caras para entender o que realmente é a atmosfera real do espetáculo. Para começar os músicos são extremamente genuínos e entregues a sua música. O show mostrou ser muito cativante e intimista, com uma energia de quase uma festa. Vendo a banda assim em um local pequeno e com um público reduzido, porém super empolgado talvez seja a diferença do Fishbone para outras bandas. Eles podem não ser uma banda extremamente famosa, mas em questão espetáculo, dificilmente eles são superados. 

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Fishbone no Circo Voador

Além disso tudo, os caras são super acessíveis. Anteriormente ao show, o vocalista Angelo Moore circulava entre o público no Circo Voador conversando com qualquer um que o abordasse. Por exemplo eu fui uma dessas pessoas. Ao passo que Angelo, muito carismático, me recebeu com muita atenção e disse para falar com ele ao final do show para tirar foto.

Posteriormente o show foi uma viagem incrível por diversos discos da banda. Afinal todos os elementos de um clássico show do Fishbone estavam lá no público: os “mosh pits”, “crowd surfings” e “stage dives”. Em contrapartida ao número de pessoas, público e banda pareciam mais integrados que qualquer show de estádio de uma banda mega famosa. Foi uma experiência incrível ver Fishbone pela primeira vez no Brasil.

Bastidores do Fishbone pela primeira vez no Brasil

Após o show, timidamente, resolvi aceitar o convite que Angelo tinha dito sobre falar com eles após o show. Perguntei para o segurança se podia falar um oi para os caras, e ele disse: “vai lá”. Falei com eles. Dei parabéns pela apresentação, disse que foi muito intenso. Tirei foto com alguns. Fui zoado por alguns. O guitarrista Rocky George, quando pedi para tirar uma foto com ele, disse: “Depende do que você quer que eu faça”. Depois começou a rir e disse: “Tô brincando”.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Eu, um roadie da banda (sentado) e Rocky George (guitarrista do Fishbone na época do show. Ex-guitarista do Suicidal Tendencies e atualmente do Cro-Mags).
FIshbone pela primeira vez no Brasil
Eu e John Norwood Fisher, baixista do Fishbone e um dos fundadores da banda.

No fim tirei uma foto com Angelo, que já estava tão doido que achou que quem queria tirar uma foto com ele era uma funcionária do Circo Voador e começou a xavecar ela. Acabamos tirando uma foto os três juntos. Essas fotos são registros inesquecíveis para mim sobre quando vi Fishbone pela primeira vez no Brasil.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Eu, funcionária do Circo Voador e Angelo Moore.

A banda interage e mostra como se importa com o público o tempo todo. Em determinada parte do show, uma pessoa do público subiu no palco para fazer um stage dive. Como não apareceram muitos voluntários para acolhê-lo, Angelo foi pessoalmente recrutá-los.

Uma banda única

Fishbone é uma banda que nunca teve medo de experimentar e foi além do que qualquer outra banda já ousou ir. Cada membro é um músico de extrema habilidade, sendo que alguns tocam mais de um instrumento e também cantam. Angelo, por exemplo, canta, toca saxofone, theremin, tuba, entre outros instrumentos. Musicalmente, cada disco é diferente do outro, o que pode explicar a dificuldade (ou a má vontade) da indústria em vender sua música para o público mainstream.

Eles desafiam o senso comum de que estilos musicais devem seguir nichos específicos e não devem se misturar. Lançando seus primeiros discos em uma década de 1980 totalmente polarizada e segregada pela mídia e a indústria musical, a banda teve dificuldades para superar estas invisíveis barreiras impostas pela sociedade, embora os críticos sempre elogiassem cada disco lançado. O álbum Truth and soul foi incluído no livro 1001 discos para ouvir antes de morrer.

Porém, se a banda não é tão reconhecida pelo mainstream ou vende milhões e lota estádios, é bastante reconhecida e respeitada por diversos músicos e pelo público que acompanha sua música. Apesar de eles terem curtindo um breve momento de mainstream no início dos anos 1990, em especial pelo álbum “The reality of my surroundings” e participação no iniciante festival Lollapalooza, a banda sempre se sentiu mais acolhida pelas gravadoras independentes.

Segregação na música

Quando Fishbone estava surgindo, já era estabelecido como sucesso o canal televisivo de música da MTV. O canal demorou a exibir música de artistas negros, sob a alegação de que era um “canal de rock”, porém bandas de rock como Fishbone e Bad Brains tinham pouca exposição. As coisas começaram a mudar timidamente dentro do rock, com o estouro do Living Colour, cujo guitarrista Vernon Reid (guitarrista do Living Colour), fundou o movimento Black Rock Coalition, em 1985 e mais evidente dentro do pop.

A banda parecia ter tudo para estourar mundialmente na época, como as bandas grunge de Seattle que estavam tendo bastante destaque na época, porém isso não ocorreu. Na época a banda gravou clipe com o cineasta Spike Lee e fez extensas turnês, porém logo depois, alguns membros originais deixaram a banda, fazendo com que a mesma passasse por diversas reformulações.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
A banda com o cineasta Spike Lee na gravação do clipe da música “Sunless saturday”.

Identidade musical

A indústria da música estimula a homogeneização dos gostos musicais para que os gêneros possam ser vendidos em caixinhas prontas para consumo. Assim ela facilita o processo de venda de artistas de forma mais ágil e imediatista por apresentar fórmulas estabelecidas para públicos que não esperam surpresa.

Os músicos do Fishbone não buscam manter padrões, ou seguir uma linha regular. Qualquer outra banda poderia aproveitar e repetir ou investir na sonoridade ou na fórmula do disco que mais vendeu. Mas eles preferiram e preferem cada vez mais fugir do óbvio e continuar mostrando ao público que os acompanha fielmente o melhor que eles conseguem criar e produzir. A banda nunca tentou comprometer sua identidade ou esgotar vendas de ingressos se vendendo para um modelo padronizado.

A marca registrada da banda esteve passando por apuros e em risco de sua continuidade depois de serem réus em um processo que ameaçava não só o estilo de show do Fishbone, mas de toda cena de hardcore, punk, metal e rock em geral com suas explosões de stage dives e crowd surfing. Já muitas casas de shows proíbem essas práticas por considerarem muito perigosas.

Fishbone In your face
Capa do primeiro disco do Fishbone “In your face”

Processo e indenização

A banda foi processada por uma mulher de 47 anos que foi em um show, onde Fishbone faria o show de abertura. Quando Angelo fez um de seus famosos “stage dives”, ele caiu sobre Kimberly Myers que desmaiou e teve que ser levada ao hospital. Ela disse que não conhecia a banda e que havia ido assistir a banda principal (The English Beat). Ela processou além da banda, a casa de shows, a gerência e o agente do show.

O incidente ocorreu em 2010. Em 2014 um juiz decidiu a favor de Kimberly por uma indenização de US$ 1,4 milhões. Em 2015 a banda chegou a fazer uma vaquinha para contratar um advogado. Aparentemente foi realizado algum acordo, o qual nada foi muito divulgado.

Além das alegações de Kimberly sobre desconhecimento da banda, não havia nenhum histórico de “stage dive” em qualquer show que tenha ocorrido na casa de show em si. Angelo por outro lado alega que nem ele nem a banda avisam sobre a ocorrência de “stage dives” nos shows por já serem uma marca registrada da banda e também por atrapalhar a espontaneidade e vibração. Mas, desde então, ele passou a avisar isto nos shows, apesar de, segundo o mesmo, diminuir a intimidade e a ligação com o público.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Angelo Moore em um crowd surfing (ser elevado pelos braços das pessoas) logo após realizar um stage dive (pular do palco sobre o público). Foto: Georgette Angelos

COVID-19 e proibições de shows

A banda Fishbone é notável por suas apresentações energéticas e de muita interação com o público. Quando a pandemia da COVID-19 causou o cancelamento de shows e grandes eventos ao redor do mundo, artistas musicais tiveram que repensar e reformular suas abordagens de apresentação. Inicialmente foram as lives gratuitas. Depois surgiram os shows em formato de drive-in. Agora surgem os shows via internet, pagos como um show normal.

Nenhuma destas opções parece combinar com a banda. Embora eles tenham realizado um show no formato drive-in em julho, a energia e o apetite pela interação com o público prejudicam bastante a performance da banda. Apesar de por um lado ser um alívio para uma banda como Fishbone poder fazer shows e ganhar um dinheiro, o que mais se deseja é a possibilidade da volta de toda energia e intensidade que apenas um show de Fishbone pode proporcionar. Tal qual eu experimentei quando vi Fishbone pela primeira vez no Brasil.

Fishbone pela primeira vez no Brasil
Fishbone em show drive-in em julho.

A banda chegou a participar de uma live stream como convidada da banda NOFX no mês passado, com venda de ingressos. Mas é realmente difícil imaginar como assistir a um show do Fishbone e não esperar um pulo do Angelo na plateia. Ele inclusive brincou dizendo que em shows drive-in, o público terá que fazer mosh pits com carros.

Importância da banda

A importância da banda pode ser vista no documentário, lançado em 2010 (mesmo ano dos shows do Fishbone pela primeira vez no Brasil): “Everyday sunshine – The story of Fishbone”. Dentre diversos depoimentos no filme, o ator e diretor Tim Robbins define a experiência de um show do Fishbone desta maneira: “Se você nunca viu o Fishbone ao vivo, então eles são a melhor banda que você não viu. Mas, se você teve a oportunidade de vê-los, então você sabe do que eu estou falando”.

Atualmente a banda está contando com sua quase total formação original (apenas o guitarrista Kendall Jones não voltou para a banda). Eles estão gravando um novo disco com produção de Fat Mike (Líder da banda NOFX).

Se você não conhece a banda Fishbone ou nunca ouviu falar, comece agora a reparar este tremendo equívoco em sua vida e vá ouvir as músicas desta magnífica banda agora mesmo e sua vida nunca mais será a mesma. Ou não. Quem sabe? Para o bem ou para o mal, Fishbone é uma banda impossível de ser ignorada e ouvida de forma indiferente.

Confira também esta reportagem sobre o show em São Paulo na turnê do Fishbone pela primeira vez no Brasil:

Por fim, fiquem com a música “Everyday sunshine”, cuja letra fala sobre a esperança de um dia de paz e prosperidade no futuro.

Falando de algum lugar no universo - Luciano Bugarin

Cinéfilo, cineasta e professor de artes visuais. Gosto de música barulhenta, jogos que ninguém gosta, ver cem vezes o mesmo filme, plantas, cágados e pinguins.

3 Comentários
  1. Responder Pedro Henrique Corujeira 1 de novembro de 2020

    Bicho, que relação massa você tem com a banda! Nunca havia ouvido falar da Fish Bone, mas já escutei algumas músicas aqui, graças ao seu texto. Gostei bastante!

    1. Responder Luciano 18 de novembro de 2020

      Olá Pedro! Muito obrigado pelo seu comentário. Fico muito feliz que você tenha se interessado e gostado da banda. Realmente eu curto muito os caras. Sempre que posso tento fazer com que as pessoas conheçam ou se interessem pelo som. Já conheci algumas pessoas que tem ciúmes de suas bandas favoritas e não gostam de indicá-las. Eu penso justamente o contrário rs Quem sabe se futuramente a vida voltar ao normal e eles virem tocar no Brasil de novo não podemos se esbarrar num show deles? rs Abc!

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