Yorgos Lanthimos é um dos cineastas mais autênticos de sua geração. Um diretor que conseguiu imprimir um estilo próprio de fazer cinema, o desconforto e a bizarrice são marcas registradas em sua obra. Confesso que criei uma expectativa muito grande com esse filme. Principal motivador dessa expectativa foi o thriller O Sacrifício do Servo Sagrado, última obra realizada por Lanthimos antes de A Favorita, e que é um dos melhores filmes de 2017. O que implica essa expectativa é que eu esperava um filme perturbador, estranho, desconfortável, que explodisse minha cabeça de me deixasse reflexivo por dias (como seus dois últimos filmes fizeram), A Favorita não chega nem perto disso. É a obra mais distinta da filmografia desse diretor, e essa quebra de expectativa me frustrou bastante. Mas não se preocupe, esse ainda é um ótimo filme.
Sinopse
Inglaterra está em guerra com a França. A frágil rainha Ana da Grã-Bretanha (Olivia Colman), ocupa o trono e sua amiga próxima Sarah Churchill, Duquesa de Marlborough (Rachel Weisz) governa em seu nome enquanto cuida da saúde e do temperamento da rainha. Quando uma nova empregada, Abgail (Emma Stone) chega à corte, seu charme a aproxima de Sarah que a coloca sob sua asa e Abgail vê isso como a chance de retornar ao seu status de aristocrata. Conforme as políticas de guerra tomam cada vez mais tempo de Sarah, Abgail começa a se aproximar cada vez mais da rainha. Essa amizade a deixa mais próxima de alcançar seus objetivos, e ela não deixará nenhuma mulher, homem ou políticas ficarem em seu caminho.
O Jogo
Esse filme é basicamente um jogo de estratégia entre Sara e Abgail, onde o que está em disputa é o poder. Ambas são extremamente inteligentes e sabem exatamente o que precisa ser feito para alcançar seus objetivos. É muito interessante acompanhar o desenvolvimento dessa trama, a forma como Abgail, surge e vai ocupando cada vez mais espaço enquanto Sarah percebe que seu status e importância na corte estão sendo ameaçados. E no centro disso tudo a frágil e melancólica rainha Ana. A dinâmica ardilosa, maquiavélica e apaixonada desse triângulo é o forte desse filme. É um grande estudo de personagem.
Direção
Tecnicamente o trabalho de Lanthimos aqui é perfeito. Ele mostra ter total domínio da composição de cena. Os movimentos de câmera são muito suaves e detalhistas, o diretor ostenta muito bem a suntuosidade dos cenários e figurinos. Existe o constante uso de lentes grande angular, que distorcem um pouco as extremidades da imagem. Geralmente esse recurso é usado para mostrar a totalidade de um comodo ou uma paisagem, mas é usado aqui em varias cenas onde tradicionalmente não se usa, as vezes isso gera um leve estranhamento, que certamente. Outro recurso recorrente é o uso de contra plongée, e isso é usado tantas vezes que chegou a me incomodar. Em sua subjetividade, Lanthimos constrói planos cheios de insinuações, simbolismos e metáforas, que expressam muito do que está acontecendo no jogo. O design de produção aqui é incrível, é bem possível que vença Direção de Arte ou Figurino no Oscar desse ano.
Atuações

Todo o trio de protagonistas está muito bem. O que é de se esperar de um filme onde o forte está nos personagens e suas relações. Mas o destaque é Olivia Colman. Sua personagem é extremante difícil, complexa e cheia de nuances. A rainha, aparentemente, era só uma mulher mimada e fútil, que não tinha capacidade de reger sua própria nação (não que isso fosse fácil , mas ela teoricamente foi criada para isso). Mas a os poucos vamos descobrindo como Ana é melancólica, triste, quebrada física e psicologicamente, extremamente insegura e carente. E Colman entrega tudo isso da forma mais humana e genuína possível. É uma interpretação comovente.
Por Fim
A Favorita é um filme esteticamente muito bonito e elegante. Traz uma ótima reflexão sobre ambição, poder, fragilidade emocional, orgulho e ímpeto. E também mostra que nem sempre vencer vale a pena, principalmente quando a vitória vem com um custo muito alto. É certamente um dos melhores filmes de 2018, embora, até aqui, seja uma obra bem estranha na carreira de Yorgos Lanthimos.