Certo dia, no início deste mês de fevereiro, estava decidido a ir no cinema assistir A Favorita ou Green Book. Eis que navegando pelo youtube me deparo com a capa de um vídeo do Gustavo Cruz, que dizia “O filme que quase ninguém vai ver”. Nesse vídeo ele tá fazendo uma reflexão sobre Guerra Fria. As imagens que ele mostra do filme, e a interpretação que tem dessa obra me instigaram muito. Assim que terminei o vídeo, eu já sabia que iria assisti-lo. Foi o que eu fiz. E tive naquela noite uma das mais belas experiências cinematográficas da minha vida. Guerra Fria era tudo que ele dizia e ainda mais. Sou grato a ele por ter feito aquele vídeo, e espero com esse texto instigar mais pessoas a irem atrás dessa obra prima.
Sinopse
Durante a Guerra Fria entre a Polônia stalinista e a Paris boêmia dos anos 50, um músico amante da liberdade e uma jovem cantora com histórias e temperamentos completamente diferentes vivem um amor impossível.

Produção e Recepção
Zimna Wojna (título original), ou Guerra Fria, é uma produção franco-polonesa escrita e dirigida por Pawel Pawlikowski. Esse é o sétimo longa do diretor que já venceu um prêmio Oscar de filme estrangeiro em 2015 com Ida. O filme foi muito bem recebido pelo público e principalmente pela crítica. Foi indicado em diversas premiações, as mais notáveis são a Palma de Ouro em Cannes (2018), e nesse mesmo festival Pawel recebeu o prêmio de Melhor Diretor. Também venceu o prêmio do National Society of Film Critics Award de Melhor Fotografia, para Łukasz Żal. E três indicações no Oscar desse ano, em Cinematografia, Direção e Filme Estrangeiro, não vencendo nenhuma delas (todas vencidas por Roma).
Uma Peça Política

O título do filme já diz muito por si só. A história de amor entre Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot), tem início em 1949. Ele, um produtor musical e pianista, e ela, uma jovem cantora em busca de uma oportunidade para reconstruir sua vida através da música. Numa Polônia devastada pela guerra, tentado se reconstruir sob o domínio da União Soviética Stalinista, usando sua música folclórica justamente como cartão de visitas e grande símbolo dessa reconstrução. Tudo que acontece no filme é resultado da guerra, e das implicações sociais e políticas que ela gera nas décadas seguintes na Europa, que foi dividida em duas. A abordagem sobre a guerra aqui é extremamente interessante, dificilmente vemos os efeitos dela a longo prazo, e nesse filme isso é retratado de forma humana e sutil. É uma brutalidade que extrapola a violência física, que normalmente vemos em obras com esse tema. São duas pessoas que se amam mas não podem ficar juntas, muito disso por serem tão diferentes, por escolhas erradas, falta de coragem, mas também porque existe um empecilho geográfico, burocrático. E isso, historicamente sabido, foi e é, uma ferida que separou muitas famílias e amores. O muro de Berlin foi o maior símbolo disso, pessoas literalmente morreram sem poder rever seus amigos e familiares, justamente porque as fronteiras políticas não permitiam, porque o Estado não permitia.
Pawel disse em entrevista que esse filme tem muita inspiração na história de vida de seus pais, não fica claro quais elementos são reais e quais foram escritos para o filme, mas é nítido que esse é um trabalho muito pessoal do diretor.
Direção, atuações e aspectos técnicos

Guerra Fria é um filme executado com perfeição, tecnicamente é impecável. Todas as escolhas feitas foram certeiras, o formato 4:3, a fotografia preto e branco, os movimentos de câmera, tudo é incrivelmente lindo, elegante e cheio de lirismo e poesia.
A começar pela trilha sonora, que é diegética, todo música sonorizada no filme é a mesma música que os personagens estão ouvindo ou tocando, nós ouvimos o mesmo que os personagens. Foi a primeira vez que vi um filme assim, e o efeito imersivo é impressionante.

Pawel Pawlikowski e Łukasz Żal em uma das locações do filme
A cinematografia é a mais bela que eu já vi. Cada enquadramento, cada composição de cena foi milimetricamente planejado. É uma beleza estonteante, literalmente cada frame é uma obra de arte a parte. Zal e Pawlikowski não desperdiçaram um segundo sequer. O contraste do PB é uma coisa de encher os olhos, em vários momentos as composições parecem abstratas, até encontrarmos uma forma que nos faça sentido, como troncos de árvores serpenteando a neve branca, uma ruína no meio do nada ou um carro sumindo na imensidão. É uma divisão praticamente binária dos espectros na tela, e é muito simbólico, o contraste de cores remete ao contraste de personalidade do casal protagonista.

Pawel tem um domínio incrível da construção de cena e movimentação de câmera. É uma câmera muitas vezes estática enquadrando um cenário, algo acontece e ela ainda está ali parada, como se estivesse apenas observando. Outro recurso constante usado aqui é iniciar o plano com a câmera parada, e quando o personagem entra na cena ela passa a acompanhá-lo. Também me chama muita atenção os enquadramentos não convencionais usados por Zal e Pawel, principalmente a distribuição de espaço que é feita na composição do quadro. É recorrente a divisão da tela em duas, onde os personagens estão na parte inferior do quadro e a parte superior está vazia, isso gerou em mim um sentimento de grandeza do ambiente, mas também a sensação de que falta algo. E outro elemento que nos gera sensação de estranhamento, é o fato de colocar o personagem voltado para fora do plano, em uma das extremidades inferiores do quadro. Me parece que ele usa isso em momentos em que os protagonistas estão fora de sintonia.

Quero destacar aqui uma cena específica. É a primeira vez que eles vão tocar juntos em Paris. A cena começa com a Zula enquadrada no primeiro plano, e a câmera vai abrindo o quadro em um zoom out bem suave, ao mesmo tempo que começa um giro de 360º em torno da protagonista, mostrando todo o cenário da casa de shows lotada, e quando finalmente completa o giro, a câmera enquadra Wiktor no piano admirando a cantora apaixonado. Essa cena é simplesmente linda.

As atuações do casal de protagonistas são muito boas, não há muito a ser comentado, eles realmente parecem se amar, mesmo sendo tão diferentes e não vivendo em paz quando juntos, eles precisam um do outro pra viver, eu acreditei nisso, eles me fizeram acreditar. Tomasz Kot entrega muito bem o homem misterioso, charmoso e apaixonado, é uma paixão que dói, e essa dor só aumenta com o passar dos anos, e é realmente comovente ver até onde ele vai pra poder estar com sua amada.

Joanna Kulig
Vale destacar o fato de que Joanna Kulig praticamente magnetiza nossa atenção, ela tem uma energia e ímpeto que são cativantes. Sua personagem tem o maior arco de transformação dentro da narrativa, ela começa jovem, cheia de vontade, desejos, medos e inseguranças, e com o passar dos anos vai se tornando mais realista, frustrada, pragmática e melancólica. É uma transformação moral mas também física, o desgaste emocional dela é aterrador e muito triste.
O Final
“Vamos para o outro lado. Lá a visão é mais bonita”

O final desse filme é algo que ainda mexe bastante comigo. É algo que me deixa muito reflexivo. Ele tem um lirismo muito forte, é um círculo, eles retornam pro mesmo lugar onde tudo começou. E tem uma poesia shakespeariana trágica. Ele é muito triste, mas ao mesmo tempo reconfortante, pois os personagens finalmente estão juntos. Depois de tudo que eles passaram, todos os anos, as vidas paralelas que levaram mesmo se amando, tudo isso culmina neste momento. E como é simbólico esse fim.
Guerra Fria é meu filme favorito de 2018. É uma linda história de amor, e uma peça de protesto histórico. É sobre a natureza trágica das relações amorosas e sobre sentimentos que são mais fortes que o tempo. É um filme perfeito em todos os aspectos. Uma das obras mais lindas que já assisti na vida, e merece ser visto pelo maior número de pessoas possível.
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