A Menina e o Leão – quem tem medo do leão branco?

A Menina e o Leão – quem tem medo do leão branco?

Quando mandei a mensagem sobre o filme de hoje no grupo, Iza comentou “só quero ver se ele tirar um pedaço dela”, ao que eu respondi “vai tirar o coração”. E talvez tenha sido isso mesmo. Vamos falar hoje sobre A Menina e o Leão (Mia et le lion blanc, Mia and the white lion, 2018).

SINOPSE

Uma família anglo francesa (ou seria franco inglesa?) Voltou a pouco tempo para a África do Sul, para cuidar de uma fazenda de criação de leões. O filho mais velho, Mike (Ryan Mac Lennan), se adapta fácil, mas Mia (Daniah De Villiers) sente muito saudades de casa. Até que nasce o leão branco, Charlie. E assim como na lenda do povo Shangaans, a amizade entre menina e leão pode salvar algumas vidas.

CONTEXTO

Dessa vez eu vou falar muito na sessão com spoilers, mas vou adiantar um pouco aqui (até porque, esse é meu trabalho).

A Menina e o Leão é uma produção francesa, alemã, e sul-africana, com elenco principal falando majoritariamente inglês, além da mãe Alice (Mélanie Laurent), francesa. O restante do elenco é sul africano. É legal ver um filme fora do centro Hollywoodiano, porque é um filme com lógica diferente também. É um filme claramente publicitário, em nome de uma causa humanitária/ecológica, a proteção dos animais selvagens. Ao final do filme, somos informados de números: de 250000 animais selvagens, houve uma queda de 90% nos últimos anos, restando agora “apenas” 20000. Leões não são considerados ameaçados de extinção, mas devem deixar de aparecer na natureza em 20 anos se as práticas não mudarem. Que práticas?

Caça, em resumo. O filme não é específico, mas existem leis na África do Sul que permitem a criação e venda de leões. E mais: nada impede que o leão comprado seja “caçado” (afinal, ele é seu). Nessa onda, os bichos vão sendo exterminados “legalmente”, com o patrocínio de pessoas ricas de vários países do mundo, que são tão vazias por dentro que precisam explorar e matar animais indefesos (muitos estão drogados antes de serem mortos) para se sentirem relevantes nesse planeta.

Vemos então, no filme, essa família eurocêntrica que tem uma fazenda de criação de leões de forma positiva, (para visita, estudos, turismo – isso tem uma problemática, eu comento depois) mas que está com problemas de grana. Nisso conhecemos Mike, um garotinho que adora os animais e estar na África com eles, e Mia: uma pré-adolescente problemática, que odeia “tudo isso que tá aí” e quer desesperadamente voltar para Londres. Na fazenda nasce um filhote de leão branco, e aí, tudo muda: a amizade entre o bicho e a humana surge, e muda a vida de ambos.

QUEM BOTOU ESSE LEÃO AÍ?

Eu quero falar uma coisa: parabéns aos atores, e a equipe de produção. Sério. Não só por eles serem bons (e são). Mas velho… a maneira como eles interagem COM UM LEÃO ADULTO é absurda! A menina abraça o leão! Ela deita com ele! O leão (jovem) entra na casa! Dormia na cama dela!

Esse foi um impacto generalizado na audiência da cabine, e eu tive que pesquisar. Dito e feito: só seria possível uma criança interagir com um leão adulto se ambos crescessem juntos. Foi o que aconteceu, e é perceptível no filme. Os atores crescem e envelhecem junto com o bebê felino, e acompanhamos seu primeiro e quarto meses, 1º e 3º ano de vida. A interação com o gigante é incrível, e não poucas vezes você pensa “eita porra, agora vai ser sério, ela morre”, e não, tá tudo de boa. Parabéns aos pais, parabéns a equipe de produção, parabéns a atriz.

MAS… NÃO É NA ÁFRICA?

O filme tem um problema de representatividade SÉRIA. Ele se passa na África do Sul, mas toda a família principal é branca. Dados de 2011 mostram que a população branca na ZA é de menos de 10%. E são de origem da metrópole da colonização. Ou seja, uma galera privilegiada. Mas tudo bem, aceitamos, gente com dinheiro que tem uma fazenda? E é branco? Padrão. O problema é a forma como os negros aparecem na trama: sempre, SEMPRE em papel subalterno. Os dois únicos momentos em que negros não são empregados, é com o chefe da polícia, e uma mãe figurante que tem um papel um pouco mais destacado numa das sequências finais. A empregada da casa, e os empregados de baixo escalão da fazenda, todos negros. Inclusive a empregada, em mais de um momento é posta como um alívio comigo muito bobinho, nível trapalhões. Pelo menos, ela tem a redenção quando humilha os patrões, e também quando joga água em todo mundo. Desculpa o spoiler, eu precisava desabafar. A gente tá falando de África, cacete! O continente mãe! Mas o que esperar de uma produção de seus colonizadores, afinal…?

O LEÃO DORME HOJE A NOITE

Por outro lado, e isso é muito bacana, o filme questiona o tempo todo a hipocrisia do país e de como conflitos familiares podem advir justamente dessa dissonância. Ele é explícito: o país é permissivo; os fazendeiros / criadores são coniventes; os financiadores, além de mal-caráter, são estrangeiros RICOS; os leões PODEM, e VÃO, entrar em extinção se nada mudar. Inclusive vou me permitir uma reflexão aqui: é incrível que o Leão, a figura não só animal, como mítica, a besta sagrada. Leão de Judá é uma das referências ao Cristo. Ricardo Coração de Leão recebeu a alcunha pela coragem e talento militares. É um dos signos do zodíaco, que rege pessoas orgulhosas e assertivas. É de se imaginar que, pela simbologia, haja respeito e cuidado com essas feras. Mas não, parece suscitar o sentimento oposto: se ele é tão valoroso, preciso matá-lo. Um argumento comum em diversas culturas, mas que vem de épocas anteriores, onde a natureza era capaz de se restabelecer com o tempo. Hoje, com caça e morte a nível industrial, seu fim é iminente. Eu sou ateu, não preciso esconder isso. Mas a perda de respeito simbólico que a humanidade vem passando é aterradora.

FILME FAMÍLIA

Por fim, acho que só o que falta dizer no texto é: a história funciona. Não é uma história com muitas novidades, isso é posto (quem nunca viu filme de amizade proibida entre humano e animal na Sessão da Tarde). Mas como eu sempre digo: clichês não são necessariamente ruins. E, os desse filme funcionam. Eu acho que o andamento no tempo da criação dessa amizade é um pouco corrido, mas se torna coerente com o que o filme quer mostrar depois.

Fico por aqui agora. A Menina e o Leão é um ótimo filme para a família, crianças e adultos vão se divertir juntos com a película (tomara que os pequenos não queiram um leão em casa. Jesus do céu). E, para os adultos, se torna uma conscientização: Precisamos fazer algo para ajudar nossos colegas de lar. Ou seja: os outros animais deste planeta.

MOMENTO P.S. (Pode Spoiler)

Caralho, quando a menina entra na jaula, vai andando de costas para Charlie, e o bicho PULA NELA!, eu fiquei “Eita que é agora…!”.

Pesquisei por alto sobre a lenda do Leão Branco, e ela existe.

Eu já citei mais cedo, mas de novo: como é libertador quando a empregada joga água em todo mundo naquela porra da cozinha que tava fazendo merda.

E a cena do tiro eu tive que aplaudir. A FILHA DÁ UM TIRO DE TRANQUILIZANTE NA PERNA DO PAI, CHAMANDO ELE DE HIPÓCRITA E MENTIROSO, CARALHO!!! Esse é o Brasil que eu quero!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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