Despertando gigantes: Razões para ler a trilogia ‘Arquivos Têmis’

Despertando gigantes: Razões para ler a trilogia ‘Arquivos Têmis’

Antes de entrarmos no cenário pandêmico, eu costumava dedicar um ou dois dias do mês para entrar numa livraria e me lançar no mar de livros sem um rumo específico. Saudades, né… Graças à uma dessas aventuras eu me deparei com uma bela capa preta na qual flutuava um rosto adormecido, compondo um mar de estrelas (essa da imagem destacada acima). Mas foi o título que acabou me chamando mais a atenção: Gigantes Adormecidos, o primeiro livro da trilogia Arquivos Têmis (Themis Files) de Sylvain Neuvel.

Caindo em boas mãos

“Na palma da minha mão”? Não, isso é outra coisa… (Edição Inglesa)

A ficção científica é um gênero que sempre desperta temas relacionados à condição humana (mais sobre isso adiante), e com os Arquivos Têmis não é diferente. Entretanto, eu admito que fui fisgado pelo tema robôs gigantes mais do que qualquer coisa, pois era a primeira vez que estava vendo uma obra de ficção científica lidar com gigantes humanóides no ocidente – e a primeira que vi ganhar uma versão Brasileira. Entusiástico que sou de séries com mecanóides (mecha) que costumam se proliferar mais no Japão, senti que a trilogia de Neuvel poderia ser uma nova abertura para esse tipo de história.

A narrativa dos Arquivos Têmis se origina em Gigantes Adormecidos, quando a pequena Rose cai na palma (literalmente) de um misterioso artefato gigantesco em formato de mão, dentro de uma fenda na terra localizada na Dakota do Sul. Dezessete anos depois, os criadores, origens e propósitos do objeto ainda são desconhecidos, mas a então Doutora Rose Franklin não parou de buscar respostas, tornando-se uma Física altamente capacitada que é eventualmente convocada a liderar uma equipe de investigação através de um misterioso agente com ligações ao governo norte-americano.

Com uma premissa que não é tão nova (vide Guerra Mundial Z e Perdido em Marte ou The Martian) mas um engajamento narrativo bastante original, Neuvel demonstra um pouco da sua experiência enquanto linguista. A história não é contada simplesmente como capítulos a serem seguidos, cada evento é categorizado como um arquivo que foi armazenado. Na maior parte do tempo, o que os leitores acompanham são gravações de entrevistas entre o misterioso agente do governo e Rose, expandindo para os outros membros da equipe na medida em que são apresentados. Seja por meio de entrevistas, transmissões militares, cartas e até recortes de jornal, acompanhamos a gradual descoberta de um robô que trará uma série de eventos cataclísmicos, com complexas ramificações geopolíticas.

Graças a esse modelo e mais alguns fatores, foi fácil de começar a devorar cada passo da história. A experiência com os dois primeiros livros me lembraram de quando li o Fortaleza Digital de Dan Brown, no qual a trama de segredos te leva a tentar pensar por si quais as resoluções para os mistérios das tecnologias, das instituições e das relações colocadas em cena. Eu vou elencar aqui os 5 fatores principais que resumem o porquê creio valer a pena você investir em ler a trilogia:

5 razões para ler Arquivos Têmis

Versões Blue, Yellow e Red? Não, pera… (Edições Norte-Americanas)

1 – A forte premissa 

Como já mencionei, a premissa não é nova, mas no coração de toda ficção científica está um conceito. E Neuvel faz com que ele seja sentido como algo original. O artefato em formato de mão é encontrado de maneira aleatória numa pequena cidade dos Estados Unidos. A tecnologia é alien e data de milhares de anos. 

O resto dos eventos de Gigantes Adormecidos e dos livros subsequentes gira em torno de como a humanidade lida com tal descoberta. Na medida em que novas partes do robô são encontradas, o que isso significa para a história, ciência e religião humana? Qual será a nossa resposta ao fato de que não estamos sozinhos no universo e que somos tecnologicamente inferiores?

2 – Boa entrega de enredo

Eu não lembrava a última vez que um livro me trouxe aquela sensação de virar de páginas constante. Além das qualidades do formato narrativo que já mencionei, os livros estão recheados com ganchos e revelações que insistem pra você continuar e descobrir o que os novos desenvolvimentos vão significar para a história e seus personagens. Neuvel não tem medo de tomar decisões inesperadas.

3 – Personagens interessantes

Neuvel não é G.R.R. Martin, mas a dureza do destino dos seus personagens é mais difícil de lidar depois de acompanharmos as boas interações e as vulnerabilidades de cada um. A dra. Rose Franklin é compassiva o suficiente para liderar, e lidar com as loucuras que acontecem, ainda que sofra com o peso das decisões e um pouco de síndrome de impostor. 

O restante do elenco não é apenas suporte, nos dando excelentes motivos para gostar deles. Particularmente, o sombrio operador de serviços secretos que trabalha seguindo deus sabe o que. Seu senso de humor seco torna o livro algo especial, especialmente na interação com personagens como a bruta e impetuosa guarda-costas militar, Kara Reznick. Devo até dizer que se for para dar um papel de antagonista para alguém, é uma carapuça que cai num lugar relativamente inesperado (mas mais que isso já é muito spoiler).

4 – A continuação não é fraca

Nas trilogias modernas, frequentemente já esperamos que a continuação do livro, filme ou série seja mais fraca que o primeiro. Dá a sensação que tudo de bom ficou no início e fez uma história fechadinha, até que pedem pros criadores fazer algo na mesma linha. Em um ano. E aí ficamos com obras subpares, que parecem ter sido feitas nas coxas, só pra continuar algo que já estava completo.

Não é bem o caso com os Arquivos Têmis. Mesmo que Gigantes Adormecidos seja um história completa, existem pontas soltas o suficiente para que haja um fluxo que liga bem com Deuses Renascidos (segundo livro). A continuação para Apenas Humanos (terceiro livro) é um pouco mais dura, existe uma mudança de tom demarcada, mas não são feitos grandes danos. Os três volumes se combinam para fazer um todo satisfatório.

5 – Paralelos com a realidade

Bem, toda obra é contextualizada com um momento histórico, e a ficção científica é particularmente influenciada por isso. Como mencionei antes, o manuseio de Neuvel sobre a condição humana é parte do que torna os livros tão interessantes. A previsível estupidez do comportamento humano ao lidar com a existência de uma raça alienígena é bem retratada.

Os livros não são abertamente políticos, mas há uma mudança definitiva de foco entre os dois primeiros livros e o episódio final, que foi escrito depois das eleições norte-americanas de Novembro de 2016. Como é dito na própria sinopse de ‘Apenas Humanos’: 

“A Rússia e os Estados Unidos batalham para ocupar o poder; famílias são destruídas, amigos viram inimigos e países desmoronam sob o conflito de armas superpoderosas. Parece que os alienígenas deixaram para trás suas imensas máquinas de guerra, para que a humanidade se oblitere.”

Então é difícil dizer que não há uma relação ou que é coincidência apenas. 

Uma ponte bem-vinda

Ok, o gigante acordou. Mas dessa vez é algo que preste (Edições Brasileiras)

Eu não esperava realmente encontrar referências às séries de mecha japonesas nessa trilogia. Mas até que me surpreendi ao descobrir que a inspiração inicial de Gigantes Adormecidos veio de uma conversa entre Neuvel e seu filho sobre Grendizer (UFO Robo Grendizer), um dos derivados do universo de Mazinger Z do Go Nagai, que teve certa influência nos Estados Unidos.

Temos também alusões diretas a heróis da Marvel e a Star Wars, mas a influência e preferência por Neon Genesis Evangelion (do Hideaki Anno) em Neuvel é bem clara. Não só aparecem campos de força similares ao A.T. Field, como um casal resolve dar o nome da filha adotiva de Eva, por serem fãs de um certo anime que assistiam quando mais jovens (alô amigo, você é muito otaco hein). …admito que dei uma pausa na leitura depois dessa, foi demais até para mim que sou fã do gênero. Fica aqui uma recomendação de leitura para quem quiser saber mais detalhes sobre as referências de Neuvel numa entrevista feita pelo Gizmodo em 2016.

De todo modo, permanece o fato de que Arquivos Têmis é uma série de livros firme baseada numa ótima premissa. Demanda ser lida em grandes pedaços, é uma dessas experiências de leitura que bloqueia o resto do mundo na medida que você mergulha no universo. A retratação da fragilidade e ingenuidade humana é simples e certeira, consistente com tantos casos que podem ser vistos nas nossas vidas e na história. Quem curte uma ficção científica bacana está servido. Além disso, dá uma esperança e inspiração para pessoas como eu, que esperam ver mais ou até escrever narrativas que girem em torno de robôs gigantes e similares aqui no ocidente.

Falando de algum lugar no universo - Maurício Moura

Psicólogo, pesquisador e apaixonado por boas narrativas. O sangue ferve por sci-fi e robôs gigantes, mas a manteiga derrete até com uma comediazinha romântica.

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