Patriot Act – CAN THIS *** CHANGE LATE NIGHT?

Patriot Act – CAN THIS *** CHANGE LATE NIGHT?

Em que categoria Patriot Act se encontra? Humor não parece suficiente, stand-up? Bom, é, mas também não… seria noticiário, ou documentário? Lembra um programa de entrevistas, ou um Talk Show. Se você já viu o Greg News, ou o John Oliver, você sabe como é. Só que em pé. Sem entrevistas, e… não é um branco apresentando. Seria tipo um Trevor Noah, talvez? Possível, mas ainda não é, porque o Noah é sul africano, o Hasan é… bom, pra todos os efeitos, estadunidense, mas seus pais são indianos, e é como ele se identifica. Talvez seja isso: Patriot Act é mais um dentre muitos, mas muito, MUITO único. Sobe a vinheta!

Poster oficial de Patriot Act. Mostra o Hasanda cintura para cima, com a cara mostrando uma confusão que tende ao riso. Seus braços estão rijos, em posição como quem diz "espere!" (palmas abertas, mostradas para frente e para baixo). Ao fundo, um mapa estilizado montado por pontos, e toda a imagem tende do rosa escuro ao azul.

O QUE É PATRIOT ACT

A Netflix sofreu muito, ao longo dos anos, para emplacar um talk show que funcionasse. O por que? Bom, o formato é muito bem adaptado à televisão, sua mídia de origem. Passar por uma mídia que as pessoas não assistem ao vivo, que não necessariamente pode abordar temas da última semana (até mesmo do último dia), e que oferece tantas outras opções na mesma hora[1]. Então o desafio, não só para Netflix, mas para o programa, seria converter esse formato já pronto – e que funciona muito bem, obrigado – para uma nova mídia, respeitando ambos formatos.

Ao fundo, no telão, Jeff Bezos aparece com um sorriso. No palco, em primeiro plano, Hasan está com as mãos nos bolsos, olhando com estranhamento, para a câmera
Qualquer um fica com essa cara quando vê o Jeff Besos

Parabéns, Patriot Act conseguiu! O programa mescla um apresentador que não só é muito bom em explanar o assunto abordado, como é muito engraçado e tem ótimo timing de piadas; modifica o estilo “sentado” tão comum aos talk shows[2] com um apresentador EM PÉ, e interagindo não só com o cenário, como com a platéia; recursos visuais em tempo real, ou seja, não são simplesmente imagens aparecendo no CG, mas um telão que aparece atrás do apresentador; telão esse extremamente dinâmico, tanto complementando os comentários do apresentador, como trazendo gráficos, dados, frases e notícias (inclusive, a visualização de dados desse programa é fascinante) [3]; e misturando temas atuais (mesmo que atemporais), e um apresentador fora do padrão. Precisamos falar sobre esses dois últimos pontos.

QUEM É HASAN?

No palco, Hassan está com os braços abertos, com as mãos "em garra" (um pouco mais abertas), e com olhar de quem está tentando entender algo. Ao fundo da imagem, à esquerda, refletores projetam um facho de luz para baixo. Acho que essa imagem não é de Patriot Act, mas do stand up Homecoming King
Apresentando…

Hasan Minhaj (1985) é estadunidense, filho de pais indianos (etnia com a qual ele se identifica) e muçulmano. Isso nos dá uma mistura muito interessante, que lembra muito o Trevor Noah: Hasan é uma pessoa que conhece profundamente a cultura e o pensamento americanos, mas por ter raízes mais “distantes”, consegue olhar aquela sociedade de fora, notando – e sofrendo – a “americanidade” de maneira diferenciada. Lembrando o Noah de novo, como não-branco (ele se identifica como “brown”, marrom), possui “lugar de fala” para abordar diversos temas de maneira muito dinâmica. Então, ao mesmo tempo, vemos Minhaj criticando o governo estadunidense, seus políticos e sua cultura maluca, e também criticando políticas malucas promovidas por asiáticos . Sendo não-branco, mas também não afrodescendente, consegue ter uma visão mais abrangente sobre racismo, estendendo esse debate a latinos, asiáticos, muçulmanos e afins, além dos afrodescendentes. 

Entretanto, mesmo com toda essa multiplicidade de olhar, consegue fazer programas que são, ao mesmo tempo, extremamente pessoais, e com debates muito relevantes e críticos. Por exemplo, o T01E05, sobre a Supreme, e a hype culture. Mas acho que comecei a me atropelar. Deixa eu falar logo sobre os temas do programa [4]

Hasan, usando uma maquiagem que lhe deixa com aparência de idoso.
Old Minhaj

COEXIST WITH MY FIST

Como pudemos ver nos blocos anteriores, Patriot Act é, em si, um caldeirão cultural imenso. Mas não seria suficiente, se os temas do programa não fossem interessantes. Então temos algumas categorias que podemos imaginar para categorizar os episódios. 

Primeiro, os que são sobre cultura americana. Dependendo do tema, podemos traçar paralelos claros com a política nacional, mas o espectador tem que estar muito atento: ele é estadunidense, e fala sobre os Estados Unidos. Podemos citar os episódios sobre Ações Afirmativas, e Imigração (ambos da primeira temporada). Episódios onde ele usa hábitos pessoais para questionar a cultura, como os da Amazon, Hip Hop e Streaming, ou da Supreme. Episódios onde ele critica políticas de outros países, como sobre a Censura na China, sobre o príncipe herdeiro da Arábia Saudita. Meio Ambiente também costuma ser um tema recorrente, além de Capitalismo (por mais que a palavra nem sempre seja usada).

Mencionei política externa, e meio ambiente, não foi? Pois é, o primeiro episódio da terceira temporada é sobre… O Brasil!! Lembram dos incêndios na amazônia, correto? Hasan usa esse tópico para falar da política nacional, Bolsonaro (seus filhos e seu twitter também), povos originários, além de entrevistar a maravilhosa Sonia Guajajara. Imperdível! Nada como ter nossas vergonhas expostas para o mundo inteiro. 

Hasan está no centro do palco. Suas mãos estão próximas, com as palmas pouco afastadas, e os dedos em riste apontando para sua latera, como se ele estivesse explicando algo. Atrás dele, no telão, vemos, na esquerda, um homem de população originária brasileiro, e do outro, um empresário.
VAI BRASIIIIL!!

POLÊMICAS

Batendo em tanta gente por já 5 temporadas, é claro que Patriot Act colecionaria muita treta. Por exemplo, o programa foi proibido na Arábia Saudita, depois das críticas diretas ao príncipe herdeiro Mohammed Bin Salman. Noutro episódio, o programa revela como o manual básico de treinamento de militares americanos possuíam afirmações racistas. E… recebeu muito ódio de indianos nacionalistas, após um episódio onde as eleições indianas são abordadas, fazendo críticas diretas ao Narendra Modi. Curiosamente, o episódio sobre o Brasil atraiu pouco ódio das hordes bolsonaristas, mas eu acho que essa galera nem viu o programa, nem conseguiria entender se tivesse visto [5].

Em primeiro plano, Hasan explica um conceito. Está em pé, usando jeans e camiseta de manga comprida. Atrás, no telão, aparece em destaque a palavra "crunch". Abaixo da palavra, várias pessoas sentadas em escrivaninhas, e com telas em suas frentes. Acima da palavra, vários personagens de games famosos, como fifa, red dead redemption, overwatch e afins
Sim, também fala sobre joguinhos

PATRIOT ACT TEM FALHAS

Nada é perfeito e, mesmo sabendo que é talvez meu programa favorito na atualidade, ele tem falhas que precisamos comentar. Primeiro, como já frisado, Hasan é estadounidense. Ou “americano”, como eles preferem. Isso quer dizer que, por mais que veja a cultura dos STATES de dentro e tenha uma capacidade melhor de criticá-la, por outro lado muitas vezes ele considera normais coisas que não necessariamente são, como por exemplo o liberalismo econômico. Em dados momentos também, até pelo tempo do programa, acaba sendo raso em algumas análises. Nem sempre isso é fácil de perceber, mas por exemplo no programa sobre o Brasil (de novo), ele iguala os ex presidentes brasileiros de uma forma injusta. Por fim, a maioria dos programas são geniais na comédia, mas em alguns deles as piadas são fora do tempo, e forçadas. 

Nada disso estraga o programa, que conste.

Hasan, em primeiro plano, como na foto acima, está com os braços flexionados para frente, e as mãos abertas, explicando algo. Ao fundo, lê-se "15 million daily unique visitors", e "TWITCH" em destaque. No telão, abaixo À esquerda, lemos "Business Insider, jun, 27, 2019"
(São duas imagens sobre jogos, mas é um episódio só)

CONCLUINDO

Patriot Act voltou no último domingo, dia 17/05/2020, para a alegria do povo sofrido desse Brasil. Chegou adaptado para a pandemia do novo Coronavírus, e já chegou do jeito que a gente gosta: desgraçando nossas cabeças, falando sobre pagamento de aluguel, durante a pandemia, nos Estados Unidos.

Como já falei, é um dos meus programas preferidos, e não à toa: é informativo, é engraçado, te faz pensar, conhecer partes do mundo que você não imaginaria, e bate em quem tem que bater. Recomendadíssimo!

Hasan e Trudeau estão sentados num escritório com grandes janelas, com folhas de madeira abertas. Hasan está à esquerda da imagem, e podemos vê-lo de frente, em ângulo. Trudeau está mais à direita, e vemos pouco do seu rosto. Ambos estão conversando e gesticulando. Hasan faz um gesto de cruzar os braços em frente ao tronco, como quem faz o cumprimento de Pantera Negra (Wakanda Forever)
SIIIIM, ele entrevistou o Trudeau (que bom que o Hasan é indiano, não indígena)!!

Patriot Act – FICHA TÉCNICA

Patriot Act estreou em 28 de outubro de 2018, na Netflix. Criado por Hasan Minhaj e Prashanth Venkataramanujam, e já ganhou um Emmy, um Peabody Award, e dois Webby Awards. Pode ser assistido tanto na plataforma de streaming, como no Youtube. Seu nome é (imagino) inspirado no USA Patriot Act, lei aprovada pelo presidente W. Bush pós 11 de Setembro, para (em tese) combater o terrorismo de forma mais eficiente. Você pode seguir o programa no Facebook, Twitter e no Instagram.

Hasan está entrando no enquadramento, mãos como se segurasse uma bola de basquete em frente ao corpo. No telão , lemos "I shop therefore I am", e a marca "Supreme"
Que porra de frase é essa…?

P.S.:

Se você curte Queer Eye, confere esse vídeo do Tan dando conselhos de vestimentas pro Hasan!

[1] “Mas a TV também tem vários canais”. De fato, mas no mesmo canal, você só tem, num horário, um programa. No Netflix (e qualquer outro streaming), você tem qualquer opção a qualquer momento.

[2] Jô Soares, Gregório Duvivier, John Oliver, Trevor Noah, Gent… não vou sujar essa lista, mas enfim, uma quantidade imensa de nomes.

[3] Visualização de dados é uma área multidisciplinar fascinante, que vale a pena conhecer. Se você ainda não conhece,

[4] Para conhecer mais sobre o Hasan, eu recomendo o show dele no Netflix, Homecoming King, onde ele conta a sua história de juventude, a história de seus pais, sua relação com amigos, irmãos, paixão de adolescência, e como é ser um indiano nos Estados Unidos.

[5] Ficou com raiva? Ora que melhora.

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

1 Comentário

Deixe um Comentário