Cells at Work! é um mangá com um objetivo muito claro: Ensinar biologia enquanto te diverte. Parece absurdo? Mas funciona!

Biologia é fascinante, mas tem um potencial para o tédio em aulas inacreditável. Eu tava tentando me lembrar das minhas aulas de biologia do ensino médio, e não consegui. Aliás aprendi mais sobre o assunto fora da sala de aula, do que dentro. O que na verdade é uma merda, e poderia me levar a uma série de debates sobre educação…
Mas hoje não, hoje eu vou falar da parte maneira, da parte de “olha que foda o que apareceu”, da parte do “velho, que foda, não sabia de nada disso!”. Vou falar sobre Cells At Work! (Hataraku Saibou).
Sinopse
AE3803 é uma hemácia (glóbulo vermelho) com a missão de fazer entregas por todo o Corpo que ela vive. Ela é muito atrapalhada, e vive se perdendo nos vasos sanguíneos. Pelos olhos dela, somos apresentados ao funcionamento interno do corpo humano, principalmente no que tange o fluxo sanguíneo. Infelizmente nem sempre os dias são tranquilos, e ela acaba sempre se esbarrando com U-1146, um glóbulo branco obcecado com seu trabalho: matar germes invasores.

Ao trabalho!
Cells at Work! é um mangá de 2015, que foi adaptado para anime de 2018. Foi essa animação que eu vi e é sobre ele que eu vou falar. A premissa é um tanto estranha, até meio boba: Em resumo, acompanhar as aventuras de um glóbulo vermelho do sangue. Tipo… quem se importa?
Cells at Work! responde: Você.
Você vai se pegar interessado não só com a Glóbulo Vermelho, mas também com o Glóbulo Branco (até shippando os dois, olha só), curioso com as histórias de vida do T Citotóxico e do T Auxiliar, morrer de fofura pelas Plaquetas, e se apaixonar / temer as Macrófago.
Mas o “se importar com os personagens” é apenas o primeiro efeito que Cells at Work! causa. Fica claro, o tempo todo, que o anime é uma alegoria ao funcionamento normal de um corpo humano: as hemácias carregando caixinhas são os disquinhos vermelhos que estão em nossas veias; os glóbulos brancos, como na vida real, matam invasores (mas sem as facas). Por aí vai. Então, Cells at Work! te dá um segundo efeito: vontade de aprender.
Você se pega tentando decorar os nomes de substâncias e células, tentando descobrir o que cada metáfora visual quer dizer. E então, você vai, por conta própria, no Google, achar o que quer dizer uma substância que passou rápido na animação. Quem poderia imaginar!?

Personagens
Talvez eu esteja falando as coisas meio fora de ordem, então vou tentar voltar um pouco pro começo. A AE3808 (quando eu falar Glóbulo Vermelho, com letras maiúsculas, to falando dela) é uma hemácia bastante atrapalhada, que se perde muito nos caminhos do corpo. Ela acaba tentando entrar em vasos que hemácias não entram, ou voltando nas veias de sentido único. Enquanto trabalha, ela encontra com U-1146, o Glóbulo Branco ou Neutrófilo (mesma regra), que tem a missão de patrulhar o Corpo e matar seus invasores.
De episódio em episódio, somos apresentados a mais células e estruturas. Temos capítulos que mostram de perto o trabalho das plaquetinhas; outros mostrando as Macrófagos e sua relação com os Monócitos; Temos episódios dedicados às células T Virgens e sua evolução para as T Citotóxicas, além do papel das células Dendríticas nisso. Às vezes vemos invasões de vírus e bactérias, tumores sendo combatidos. E vemos problemas externos, como a insolação, arranhões e afins.
Isso tudo já seria interessante por si só (com alto potencial de tédio), mas a genialidade é que Cells at Work! não deixa de ser um anime / mangá. Mantém-se toda a linguagem e estética dessas mídias. Vemos cenas rápidas para demonstrar confusão, gritarias, muitas cenas de ação, lutas com poderzinho. Mas tudo isso coerente com a realidade: Bactérias de fato podem usar barreiras proteicas no mundo real, que lhes protegem da fagocitose dos neutrófilos. No anime a gente só vai ver as coisas um pouco… Diferentes, mais animadas.

Respaldo
Não acredita em mim, quando digo que o anime é coerente? Pois então, quem fala isso não sou eu (que não chego nem perto da área das biológicas / saúde), mas sim especialistas de verdade. Achei pelo menos uns 4 vídeos de estudiosos comentando como Cells at Work! é coerente com os estudos científicos atuais, mesmo sendo uma adaptação audiovisual com o objetivo de entreter. Em mais de um momento vi a frase “queria ter esse anime na minha época de faculdade para me ajudar a estudar”. Eu vou deixar esses vídeos no fim do texto.
Não é fascinante? Ter um desenho que diverte as pessoas e ao mesmo tempo explica sua área de conhecimento? Eu ainda vou procurar obras que sigam essa linha pra ensinar computação.
Diferenças
Claro que, se estamos adaptando, algumas coisas vão ter que ficar de fora, ou então não tem anime que aguente. Algumas diferenças do anime pra vida real, que fui descobrindo durante as pesquisas, foram:
- As células endoteliais, que constituem os vasos sanguíneos, não são representadas. E ainda bem. Já pensou, se as ruas e paredes fossem compostas por pessoinhas grudadas, muito juntas? Ia deixar de ser um anime legal, pra virar uma obra do Junji Ito.
- O plasma não é representado. É nele que as células sanguíneas fluem, então a gente pode considerar que o plasma é o ar ao redor delas, mesmo.
- Glóbulos vermelhos não transportam nutrientes. Eles ficam dispersos no plasma (a kohai fala isso no penúltimo episódio).
- O tamanho proporcional das células é muito diferente da realidade. Em contraste com as outras células, Macrófagos são absurdamente maiores.
- Até onde se sabe, células não tomam chá.

Quem criou isso?
Claro que uma pessoa que escreveu e desenhou uma obra como essa, deve ser alguém ou muito próxima da área de biologia / saúde, ou uma verdadeira aficionada pelo tema. Então comecei a procurar saber mais sobre quem criou Cells at Work!. Foi bem difícil achar alguma coisa (três vivas para o Google Translator!)
Akane Shimizu nasceu em 28 de Janeiro de 1994. Apesar do que se pode pensar não tem formação na área biológica. Na verdade, se formou na “Escola de Mangás do Japão” (eu não tenho certeza se o nome da instituição é exatamente esse, pela forma como traduzi o texto). Então, em 2014, faz um trabalho final de graduação chamado Histórias das Células (ou algo semelhante), onde células antropomorfizadas contam suas histórias. A inspiração veio do fato de que sua irmã estava aprendendo sobre células na época. Shimizu sugere, então, que uma história em quadrinhos seria uma forma fácil de memorizar aquele conhecimento. Em 2015 a história é renomeada para Hataraku Saibou (Cells at Work!), e a partir daí ganha alguns spin-offs, além do anime de 2018 que estou abordando aqui.

Divulgação científica na TV
Se você, como eu, passou uma infância que lhe dava bastante tempo livre e um acesso razoável à televisão, deve ter assistido O Mundo de Beakman, seriado estadunidense que mostrava um cientista “maluco” e seus assistentes, a humana Lisa (ou Rosie, ou Phoebe) e o rato Lester, respondendo perguntas dos espectadores sobre ciências de modo geral. Tinha de tudo, exatas, biológicas, história… Num dos episódios (que eu procurei, mas não achei), Beakman ensinava sobre a coagulação sanguínea usando balões de festa e fita adesiva. Eu não me lembro dos termos usados, mas pra mim estava muito claro: as plaquetas fazem uma rede sobre o ferimento, e isso trava os glóbulos brancos e vermelhos, fazendo um tampão que impede que o resto do sangue saia do corpo.
Programas como Beakman, Castelo Rá-Tim-Bum, dentre tantos outros que permearam a TV aberta nos anos 1990/2000 fizeram mais do que só entreter. Certamente, eles ajudaram toda a parcela de uma geração a se interessar por assuntos difíceis, e por diversos motivos. Acho que um deles é: São assuntos fascinantes!
Criatividade
A ideia de mostrar o corpo por dentro, de forma mais palatável, não é nova. Enquanto pesquisava para falar de Cells at Work!, encontrei algumas coisas, como A Viagem Fantástica,
Rick and Morty, Ozzy e Drix dentre outros. De fato, são todos fantásticos, mas acho que – e aqui tô sendo puramente pessoal – a genialidade de Cells at Work! está na forma humana (e divertida) como as células são representadas mas, ainda assim, extremamente coerente com a realidade. Por exemplo, se em Ozzy e Drix, Drix é um remédio pronto pra ajudar Ozzy, aqui em Cells at Work! vemos um remédio em ação, um esteroide agindo contra a alergia. Que tá mais prum Exterminador do Futuro do que prum parceiro de aventuras. Porque, do ponto de vista das células, é o que um remédio dessa espécie seria, mesmo.

Só um pouquinho sério
Tá, eu falei que não ia militar, mas brotou na mente.
É muito maneira a existência de obras como Cells at Work!, Beakman e afins. São ótimos suportes para o aprendizado de pessoas de qualquer idade, principalmente as mais jovens. Mas é muito triste que não exista, de maneira formal, uma atenção maior para a construção do conhecimento por parte dos jovens. O processo hegemônico parece esperar, de verdade, que pessoas entre 6 e 18 anos acordem cedo, fiquem sentadas por horas, tenham uma tonelada de informações para estudar (dentro e fora de sala de aula), e que, depois disso, ainda sintam desejo real pelo conhecimento. Claro que pode acontecer, aconteceu comigo, acontece com várias pessoas. Mas é um processo massacrante, e me parece pouco efetivo.
Eu não espero que as salas de aula virem grandes arenas de entretenimento, com professores passando desenhos animados ou jogos de videogame com conteúdo informativo. Eu não sei se criar um grande Playland do conhecimento seria bom ou saudável. Não me parece, contudo, que esse sistema fordista de ensino, que só se preocupa em fazer com que as pessoas sejam aprovadas em vestibulares, seja a melhor forma de educar jovens e adultos.
Ainda sobre isso, meu parco conhecimento sobre educação e pedagogia me faz lembrar que um certo pesquisador brasileiro usava, como método, informações dos cotidianos das pessoas, para que elas tivessem um processo de alfabetização mais rápido e mais efetivo. Cells at Work! pega algo que já é conhecido para muitos jovens (desenhos animados japoneses) e, usando a mesma linguagem, informa e ensina. Hoje em dia eu conheço pelo menos umas quatro células do sistema imunológico pelo nome, sendo que eu achava que era uma só. Educação pode ser libertadora, e pode vir de diferentes formas.
![Imagem de um grupo de plaquetas de Cells at Work!, com uma a frente, dando isntruções para as outras. A imagem foi modificada, para que o papel que a lider tem na mão vire o Manifesto Comunista. E no topo da imagem, a legenda "Bolshevik leader rallying supporters for the October Revolution, Russia 1917 (Colorized)" [traduzindo: Líder Bolchevique reunindo apoiadores para a Revolução de Outubro, Russia 1917 (colorizado)]](https://maratonadesofa.com.br/wp-content/uploads/2020/09/397_mini.png)
Pra fechar
O texto já ficou enorme, mas eu queria só citar duas coisas: primeiro que eu ouvi falar desse anime primeiramente com o Atila Iamarino (biólogo, pesquisador), e depois ouvi as MaraMinas falarem sobre ele no episódio de animações. Ouçam lá!
Segundo, vocês já viram as teorias de que a Glóbulo Vermelho seria uma hemácia falciforme? Para quem não sabe, são chamadas de falciformes as hemácias com uma mutação que faz com que ela fique deformada, tendo a forma de uma foice (falci + forme). Desse modo, elas tem mais problemas para transportar os gases, além de que torna mais difícil o seu trânsito nos vasos sanguíneos. Que nem uma certa perdida que a gente conhece. Tem uma pista a mais: a forma das hemácias falciformes é igualzinha à do cabelinho para cima que a Glóbulo Vermelho tem na franja! Isso ajuda a explicar muita coisa.

Concluindo
É muito raro que eu fale de animes por aqui. Tem gente no site muito mais competente do que eu pra isso. Mas Cells at Work! foi um que me arrebatou. Aqui em casa a gente devorou os 13 episódios da temporada (por que tão poucos…?), e estamos ansiosos pela série Cells at Work! Code Black, que vai mostrar um corpo muito menos saudável. A série principal já nos ensinou tanto, imagina o que podemos aprender no corpo de alguém sem as condições ideais de saúde?
Enquanto isso, se cuide VOCÊ, aí! Fique em casa, use máscaras, se alimente direito e faça exercícios. Ajude o trabalho de quem te mantém vivo todos os dias, suas células!

Vídeos
Referências
[Wikipedia] Cells at Work! (Hataraku Saibou): Português, Inglês, Chinês, Japonês
[Wikipedia] Akane Shizimu: Japonês, Chinês
[Unicamp] HEMOGLOBINOPATIAS
[Wikipedia] Vaso Sanguíneo
[Otaku Netizen] Cells at Work: It’s all in the premise.
Amei a postagem, muito bom. Sou fã do anime e dou aulas de biologia com ele, um curso específico o Eu Célula, e é claro que tem referências das suas informações. Posso tirar o print da parte do capitalismo e postar? Kkkkkkk
Oi!!! Nossa, me perdoa pela demora. Claro, pode fazer isso sim, fica a vontade!!