Chorar de Rir – a antiga disputa

Chorar de Rir – a antiga disputa

Esse texto deu um trabalhão de escrever. Chorar de Rir (2019).

SINOPSE

Nilo Perequê (Leandro Hassum) é o maior humorista do Brasil, ganhando prêmios sucessivamente. Mas ele nunca é levado a sério. Decide, então, desistir da carreira na comédia para se arriscar no drama.

COMENTÁRIOS

Quem acompanha o blog sabe da minha saga em defender filmes nacionais. Tem produtos muito bons, e que sofrem estigmas e preconceito. Em geral, nesses textos, surge um tipo de vilão: filmes de comédia sem muita qualidade, feitos por uma certa empresa de comunicação. Já veio muita coisa boa dessa fonte, mas a qualidade caiu, o público aprimorou o próprio gosto, foi gerando rejeição, enfim.

O que acontece quando vem um filme desse? A gente assiste e avalia, é claro.

E já adiantando, a média final é que eu gostei de Chorar de Rir (mais do que eu tô gostando dessa aula inclusive).

COMEÇANDO PELOS ACERTOS

Primeiro lugar: as piadas são boas. De verdade. Nem todas, óbvio, mas a maioria. Eu destaco isso porque uma parte da crítica é justamente esse, as piadas não serem engraçadas. Nesse caso são sim.

Outro ponto positivo são os atores. Que são muito bons. Sim, inclusive o Hassum. Se você é daqueles que fala “Eu achava ele engraçado antes de emagrecer” [a gente fala mais disso depois] já estava afirmando que achava ele bom. E a real é que o cara tem um tempo pra comédia muito bom.

E assim, sobre a trilha sonora: Despacito instrumental talvez seja a melhor forma dessa música.

Mas tem o principal ponto de acerto do filme, que eu vou precisar de uma sessão própria.

Esse casal, vou te falar… Forçadasso.

CRÍTICA

O ponto principal de Chorar de Rir, e esse é tanto o tema quanto a crítica dele, é a relação que crítica e público tem com a (pseudo) dicotomia comédia x tragédia. Dá até pra reconhecer que um comediante é bom … como comediante.

Atores de verdade, filmes de verdade, livros de verdade, sempre vão ser os dramas. Dá pra estender essa conversa até clássicos x populares, mas vamos nos manter aqui.

É muito louco isso, porque se valoriza quase que apenas o drama. Se você olhar a lista de indicados a melhor filme do Oscar deste ano, só Pantera Negra escapa dessa categoria. Mas não é uma comédia, e sim de ação. Isso estende aos prêmios de melhor direção, melhores atores e atrizes, tanto principais como coadjuvantes, como você pode verificar aqui.

Essa disputa acontece também quando o ator tenta ir pra outra área. Se um ator de drama faz uma comédia, gera um choque mas também uma concordância. “Eu já achava que ele era um bom ator, mas não sabia que era tão engraçado”, “Claro que mandou bem, é um ótimo ator! Claro que ia ser bom em comédia”. Quando acontece o contrário… “Por que esse filme não é engraçado?”, “Não gosto dele sério!”, “Não consigo levar a sério porque eu olho pra cara dele/a e começo a rir”. Um exemplo muito forte, pra mim, é o Jim Carrey, fazendo Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, que sofreu muita rejeição por ele ser um “palhaço”. Até começar a ficar conhecido que o filme era, na verdade, muito bom (Meu elogio a ele não se estende ao fato de ele ser anti-vaxxer).

Porque valorizamos mais o drama que a comédia, eu não sei. Talvez a gente precise de ajuda de nossos amigos psicólogos. Mas é muito injusto. Chaplin fez ótimas críticas sempre usando do humor. Críticas incríveis podem ser feitas usando o riso. Rir é uma ótima forma de absorver uma ideia, de fazer uma crítica, muitas vezes de fazer um ataque. As pessoas parecem desprezar isso.

No fim, o debate de Chorar de Rir é esse, por que valorizar um e não outro? Dar uma homenagem menor a um que ao outro? Desistir da comédia para procurar validação no drama é o caminho?

Outro debate, que é menos abordado em Chorar de Rir, mas ainda tem espaço: A forma como a mídia que cobre entretenimento trata de formas diferentes mulheres e homens. A mulher pode ser uma atriz inacreditável, mas ainda vão perguntar sobre seu vestido e se está namorando. Mulheres as vezes também precisam provar que são artistas “de verdade”.

PROBLEMAS

Tem sim, claro. Como já disse, gostei do filme. Mas ele ainda traz muitos dos vícios desse tipo de comédia: edições e cortes bruscos. Piadas, que elogiei tanto, quando são ruins são péssimas, muito óbvias. Principalmente, falta de polimento: mais de uma vez, se uma fala fosse esticada, ou reduzida, ou mais espaçada; se um corte tivesse esperado um pouco mais, se a transição da trilha fosse mais suave, as coisas seriam melhores.

E, por contradição do destino, apesar de Chorar de Rir trazer, a todo tempo, a dicotomia comédia x drama… ele funciona mais como comédia. Isso não deveria ser uma crítica, afinal é a categoria dele. Mas o que quero dizer é, momentos em que se esperava drama não funcionam tão bem quanto os momentos de riso. Essa falta de equilíbrio pesa na percepção final.

CONCLUSÃO

Esse foi um dos textos que mais demorou de ficar pronto, do site. Porque foi um dos que mais me gerou conflito, “eu gostei ou não?”. E sim, eu gostei. Gostei de ver o retorno do Hassum, gosto de ver os atores dessa peça em tela, acho eles ótimos. Ri horrores.

Mas, pra conseguir o respeito que ele tanto luta em seu próprio discurso, ainda precisa melhorar.

Abraços, até a próxima!

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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