Hoje rolaram duas cabines na sequência. Vou começar as resenhas, então, pelo último. E pelo que mais nos impactou. A cabine de hoje foi de Nós (Us, 2019).

SINOPSE
Uma família, de férias na praia, acaba enfrentando perigos assombrosos. Seriam… eles mesmos?

EXPECTATIVA
Existe um problema em fazer críticas de filmes, acho que já abordei ele antes. É muito fácil você pôr seu próprio gosto acima da sua percepção do filme, como se fosse uma folha de plástico colorido em frente a uma câmera. Por um lado, é impossível impedir isso totalmente. Por outro é fácil ser injusto com uma obra só porque não se consegue separar o que você capta do que você interpreta.
Em geral isso acontece de forma negativa, mas pode acontecer de forma “positiva”, sendo igualmente ruim: você já querer, antes, GOSTAR de um filme. Isso faz com que você seja injusto na sua avaliação posterior.
Eu fiquei com medo disso acontecer comigo com relação a Nós. Ora, eu já gosto (apesar de ter visto poucos) dos vídeos do Key & Peele (YouTube, Comedy Central), canal do diretor Jordan Peele. Já vi Corra!, e já conheço a capacidade da Lupita Nyong’o como atriz. Não estar com expectativa lá no alto seria muito difícil. Mas deu pra abaixar. Até porque, quando sua expectativa é atendida, é como receber um prêmio.

CÓPIAS
A ideia de que existem cópias suas, vivendo a despeito da sua vontade (ou até pior, vivendo A FAVOR da sua vontade) não são novidade. Nem na cultura pop nem nas mitologias. O mito do Doppelgänger, dos germânicos, é um exemplo. Os changelings europeus também. O Shadow people, que ganhou força na internet na década passada, também. Até mesmo em obras clássicas: a Sophia, em seus estudos de filosofia, piscava para o espelho e ele piscou de volta. A Alice, em suas aventuras, vai parar atrás do espelho (guarde a metáfora).
Humanos são um dos poucos animais capazes de se reconhecer no espelho, e isso não vem sem conflitos. “E se não for eu? E se meu reflexo for outra pessoa?”.
Essa é a brincadeira de Nós. Tentar imaginar que suas cópias existem, e não são lá muito amistosas.

TÁ, MAS E AÍ?
Como eu já disse antes, o filme atende todas as minhas expectativas, todas foram cumpridas. Esse é um filme de terror MUITO bom. Esse é um gênero que sofre bastante, já falei disso aqui. Ter novos diretores e roteiristas, e o Peele é um ótimo exemplo, ventila esse gênero, e no caso dele em específico, de uma forma genial.
O filme vai te confundir e instigar, e mais até, vai te deixar com medo genuíno, das situações que acontecem. Você ainda fica com a sensação de “não, seu burro, não faz isso!”, mas na mesma medida em que grita “É! Mandou bem!”

ATORES
Inclusive, todos os que tem uma versão duplicada (Que são os 8 personagens mais importantes do filme, as duas famílias principais) estão de parabéns. As mudanças de comportamento e de personalidade, o próprio gesticular, as expressões faciais… você vê dois personagens em tela sendo feitos pela mesma pessoa, e interagindo constantemente, e é sempre incrível. Destaque maior para a Lupita, e para Elisabeth Moss, que são destruidoras.

E A TRILHA…
Velho, tem no Spotify, e assim, ela é feita do material dos pesadelos. Pra dar a ideia: coral com criancinhas.
Vou aproveitar essa sessão para pedir, como sempre: se você ainda não viu o trailer, não veja. Só vai no cinema. Vai valer.

NEGROS
Negros sempre são marginalizados no cinema, debate que a gente sempre levanta. Então, pessoas que tentam valorizar essa demografia costumam ir principalmente em três caminhos: ou mostrar a realidade que o povo negro vive, em geral sofrida; extrapolar suas vantagens, forças e possibilidades, às vezes até de maneira fantasiosa (os blaxploitations são exemplo); ou mostrar eles como não estranhos num lugar. Nós segue a terceira linha. Deixando um pouco de lado a militância explícita de Corra!, dessa vez Peele prefere valorizar a negritude de forma mais sublime (e talvez, de certa forma, mais forte). Que é fazendo com que negros tenham papel de destaque (no caso, protagonismo), sem que isso seja uma coisa estranha ou caricatural. Eles são negros que tem uma grana, negros que tiram férias, negros que tem amigos, negros que tem traumas, negros que passam por perigos, negros que tem que se superar… mais do que lutar pelo lugar de poder, eles ESTÃO no lugar de poder (direção, personagens), e é a história deles sendo contada.
São tipos diferentes de luta, com o mesmo objetivo. E Peele, em suas duas obras, já explorou essas duas frentes. O que eu acho muito positivo. Ansioso pelos próximos filmes.

CONCLUINDO
É muito triste quando filmes muito bons saem no começo do ano. Porque as premiações e grandes festivais só costumam “lembrar” (leia-se: ser alvo de lobby) nas proximidades do evento. Espero que Nós seja lembrado, porque é um dos grandes filmes de terror do ano, e um excelente filme do gênero. Não deixem de conferir!

MOMENTO P.S. (PODE SPOILER)
Se você também ficou curioso com o trecho da bíblia que aparece em recorrência no filme, ele é:
“Portanto assim diz o Senhor: Eis que trarei mal sobre eles, de que não poderão escapar; e clamarão a mim, mas eu não os ouvirei”.
Jeremias 11:11
Segura essa Marimba.
Outra coisa, pra quem assistiu, repararam as metáforas com Alice no País das Maravilhas / Através do Espelho? Uma garotinha que, por descuido dos responsáveis, desce num buraco sob a terra, e encontra um mundo absurdo. E também, uma pessoa que encontra o próprio espelho, ou melhor, o espelho DO MUNDO, e descobre suas particularidades. Sem contar que, logo depois da sequência inicial, o que vemos?
O coelho branco.
E quando a Adelaide (Lupita) desce no subterrâneo mais uma vez, o que ela segue?
Coelhos.
Por fim, última coisa, é muito interessante que a batalha final tenha a metáfora de uma dança (corretíssimo), e é concluída no dormitório, último lugar de contato de ambas no passado.
MINI-CAST
