Clássico desde seu lançamento em 2012, esse ano, Journey finalmente deu suas caras na plataforma PC em 2020. Já citado em meu texto de A Short Hike, sempre terá um lugar especial no meu coração, das mais variadas formas. Com o seu senso de camaradagem que acontece quase que instantaneamente, e sua forma de comunicação única, é certamente um clássico. Journey merece ser melhor explorado, e escrevo esse texto para homenageá-lo.
Onde começa a Jornada e qual seu destino
O jogo foi desenvolvido pela ThatGameCompany, estúdio independente americano. Tiveram investimento da Sony para criação de jogos como Flow, Flower e Journey.
Journey é, de forma geral, um jogo bastante simples, com somente três inputs possíveis: andar, flutuar ou gerar sons (este último, falaremos depois). Dessa forma, é um jogo extremamente acessível, até para quem nunca jogou algo antes (isso é uma dica pra você botar pros seus pais jogarem contigo).
A história é similarmente simples: você é algum tipo de ser, viajando em desertos, mares e montanhas de neve, para alcançar seu objetivo final, uma montanha, que não é uma escalada curta. Dada a sua simplicidade, pôde ser levada tanta da forma literal, ainda mais levando em conta suas raras cutscenes, ou de maneira mais subjetiva: trata-se da jornada da vida, desde o início, até seu fim, e subsequente renascimento.

O lado mais importante da jornada
Entretanto, o seu aspecto mais importante, que gera vários desdobramentos, inclusive mecanicamente, é o seu multiplayer. Após a introdução/tutorial, você se adentra na primeira fase, de fato. A partir dela, jogadores podem entrar na sua instância.
Como o jogo não tem chats de texto ou voz, a única forma de criar qualquer tipo de comunicação com o outro é com um comando de som. Você pode pressionar um botão , que serve pra se comunicar tanto com objetos do jogo, como serve pra se comunicar com outros viajantes. Se você mantiver esse botão pressionado, o personagem concentra esse som, que pode ser também visualizado como uma esfera que se expande.
Admito, é bastante engraçado metralhar o botão para chamar a atenção de alguém, ou fazer uma bolha imensa de som para que não me percam de vista.

Essa, é a maior força de Journey. Por meio de uma não verbalização óbvia e direta, o esforço pela comunicação, atrelado a temática do jogo, torna essas relações ainda mais estreitas e próximas.
Dinâmicas da Jornada, e hierarquias
Além disso, as relações criadas ganham atributos não necessariamente intencionais. Nas mais variadas vezes que joguei, fica claro como vão se formando dinâmicas de aluno e professor por essas jornadas. Quando os jogadores se encontram, é inevitável que um dos dois tente tomar as rédeas, seja por conhecimento prévio ou confiança. Há também aqueles sem nenhum rumo, que se apegam a primeira pessoa que aparecem. Claro, existem exceções. também encontrei jogadores que só estavam querendo fazer o 100% do jogo, e portanto ignoram todo o resto, como jogadores que não compreendiam a forma de interagir.
Por mais curta que seja a jornada (geralmente zero o jogo em 2h), é possível criar um senso de camaradagem entre os jogadores que você encontra, especialmente aqueles que você teve a oportunidade de fazer a jornada inteira juntos.

Como se não bastasse, isso fica ainda melhor exemplificado por jogadores de turbante branco. Um dos itens que você pode desbloquear ao conseguir todos emblemas do jogo (um dos dois tipos de colecionáveis), o jogo lhe fornece este turbante. Não somente dado o fato de as cores serem bastante diferentes da roupa normal, que é vermelha e amarela, e agora, branca e dourada, o cachecol, utilizado para aumentar sua capacidade de flutuar, se regenera.
Lembro muito da primeira vez que joguei, do nível de reverência que senti ao ver um jogador assim, e senti o mesmo quando alcancei esta façanha. A confiança implícita fica quase que explicita. “Naquele cara eu confio”.
Aspectos estéticos
Há também de se falar como o jogo é bonito. Já com 8 aninhos de idade, sinto que mal envelheceu. Um dos poucos jogos 3d, junto com Wind Waker, que demonstram o valor de uma arte menos realista, com o passar dos anos. Devido ao seu uso de músicas e sons, o jogo ganha um aspecto místico; misterioso. Isso fica bem evidente nas cutscenes do jogo, onde o viajante do jogador interage com seus antepassados.
Elogios mais específicos podem ser feitos a trilha sonora, especialmente a música I Was Born for This. Utilizando basicamente de citações famosas da história (o seu título, por exemplo, trata-se de uma fala de Joana d’Arc), em várias linguagens, consegue passar o sentimento da jornada do jogo, além de não deixar específico nenhuma nacionalidade. torna-se, portanto, uma mensagem universal.

Onde começa e termina minha jornada, e espero que comece a sua
Aliás, minha história com Journey não termina somente nele. Conheci e nutri amizades por causa dele. Pedro Corujeira, um dos nossos redatores, e grande amigo, pode atestar das vezes que levei o meu PS3 com o jogo para nosso grupo de pesquisa da faculdade, ou como nos possibilitou a realizar uma palestra em um dos eventos de jogos daqui de Salvador.
Entretanto, infelizmente, nunca levei pra frente uma amizade feito devido a uma jornada dentro do jogo. Apesar dele demonstrar o nome de usuário de quem jogou para você contatá-lo, caso tenha interesse, a única vez que tentei, deu ruim, haha.
Portanto, se eu não me cansei de Journey desde seu lançamento, não vai ser daqui a 10-20 anos que pararei de me ver lembrando e pensando nele.
Ser parte de lembranças tão bonitas e importantes para você, meu amigo, me faz muito feliz! Texto lindo, jogo lindo, tudo lindo. Journey foi devidamente homenageado.
<3