Love is Blind – O amor é mesmo cego?

Love is Blind – O amor é mesmo cego?

No começo de Fevereiro, a Netflix foi tomada por um novo fenômeno. Love is blind, ou Casamento às Cegas, como ficou conhecido no Brasil, é o primeiro Reality Show da empresa a estourar no país.

Afinal o que é Love is Blind?

Os participantes entrando nos pods

Reality Shows são um grande sucesso entre o povo americano, e como muito da  nossa programação é importada dos Estados Unidos, acabamos recebendo muito desse conteúdo aqui em terras brazucas. Ao longo dos anos tivemos No Limite, Big Brother, A Fazenda, Masterchef, The Voice, entre muitos outros, que tiveram bastante impacto na Televisão Brasileira. Entretanto, Love is Blind, funciona de forma completamente diferente do que os outros Reality Shows na TV brasileira.

O formato do programa consiste em selecionar mulheres e homens de diversas cores, credos e idades e introduzi-los em um experimento. Separados, e sem nunca ter contato visual ou físico, todos os participantes poderiam conversar com o sexo oposto, em salas reservadas e intercomunicáveis. Mais ou menos como um confessionário de luxo, onde apesar de não poderem se ver, estariam livres para se mostrar por completo para um possível pretendente.

A visão dos Pods de cima.

Após um período de conversa nos pods, os participantes interessados poderiam então propor à sua cara metade em casamento, com direito a lua de mel prévia num Resort Paradisíaco no México por alguns dias, e um período de adaptação morando juntos, em um complexo de apartamentos cedidos especialmente para os pombinhos conviverem antes do casamento.

E rola o que lá?

Nos primeiros encontros, acontecem rodízios entre os participantes, eles se revezam entrando e saindo de pods, conversando por algum tempo com suas possíveis escolhas. Vários momentos engraçados e inusitados ocorrem, pessoas que se gostam de cara por terem muito em comum, pessoas que se detestam de cara por causa do jeito que as apresentações são feitas. O que é extremamente normal e comum de se acontecer, você irá simpatizar ou não com alguém durante seu primeiro encontro, ainda que vocês não se vejam, aparentemente.

O amor é cego, mas os participantes são lindos

A forma que a produção e edição do programa foi realizada te conduz a experimentar os sentimentos dos participantes. Talvez este seja um grande triunfo da produção, que demorou mais de um ano após filmado para ser lançado. A sua edição funciona de forma fluída e inteligente, ainda que eu pessoalmente queria ter visto mais de outros casais e não pude. Ainda assim, até isso funciona a favor do show, pois você fica ainda mais interessado em assistir pela possibilidade de enxergar um pouquinho das interações que você deseja.

É gostoso acompanhar pessoas abrindo seus corações, mostrando quem elas são na vida real, seus valores, desejos e defeitos, na busca de formar uma conexão verdadeira na vida. Por ser um reality show, eu assisti com um potinho de sal na mão, pensando sempre essas pessoas não vão falar quem elas são, sobre o que elas não gostam, traumas e dificuldades pessoais, ninguém quer se expor assim na TV. Bom meus queridos, eu estava errada. Talvez por causa do relativo anonimato, os envolvidos no programa, não em sua maioria, mas uma boa parcela, acabaram por abrir seus corações e contar suas verdades na frente das câmeras e para virtuais desconhecidos.

Os participantes perguntando se algum deles era virgem…

E são estes momentos que trazem a máxima do que é o Reality Tv, você está compartilhando de um momento pessoal e em algumas confissões extremamente pesado e doloroso sobre a vida de alguém. Temas como morte, aborto, separação, sentimentos de inadequação, problemas mentais, solidão, depressão e sexualidade são abordados nessas conversas. E durante estes momentos mais do que em quaisquer outros você percebe a humanidade do outro lado da tela, e se percebe ainda mais humano por partilhar daquele momento.

Nem tudo são flores.

Quando você junta pessoas diferentes em espaços confinados, rola basicamente de tudo, né? Existem casais que de cara mostram que não tem química alguma e que não vão passar da primeira conversa. Um dos momentos iniciais que mais me marcaram, é quando um participante masculino pergunta para uma participante feminina, após minutos de falar com ela, se ela é Negra. A participante em questão é negra, mas este não é o ponto. O ponto aqui é a estereotipização de que a mulher negra americana fala desse ou daquele jeito, que vem claramente encoberta de racismo.

Um participante específico é bisexual, e abre desde o começo isso para nós telespectadores. Todavia, ele decide, por medo e outras razões pessoais, não revelar para sua parceira, sua escolhida para casar, sobre o assunto, até depois dela aceitar o pedido, e ainda sim, apenas após ela sondar ele. Obviamente a situação não termina bem. Ambos perdem a linha, se insultam, ele é extremamente machista, e ela não esconde seus preconceitos e é claramente lgbtfóbica com ele.

Além disso a esperada “concorrência” entre os participantes é clara. Infelizmente, entre os homens as coisas acontecem de forma muito mais civil e educada; Já entre as mulheres, vários comportamentos deixam a desejar. Mentiras, insultos e  picuinhas ocorrem durante todo o programa, participantes que se menosprezam absurdamente. Por sorte, a máxima “no amor e na guerra vale tudo” não é levada às últimas consequências durante o programa.

A lua de mel acaba com a convivência.

Além disso queria deixar meu desacordo e irritação para participante que dá vinho para o cãozinho dela. Se eu já queria te sacudir pelo seu comportamento, depois daquele momento eu só queria estapear um pouco de noção em você.

Nossa, e rolou algo de bom?

Rolou sim! Além dos momentos engraçados, sejam eles por desencontro, por piadas, ou até um ou outro participante que nos causa vergonha alheia, existem sim, casais, pessoas e momentos que fazem assistir Love is Blind valer a pena. É claro, estamos falando de um programa de Reality Show, que é feito para retratar uma visão da realidade, que não necessariamente é real. Dito isso, não se envolver com as pessoas passando por aquela situação é quase impossível.

Say Yes to the Dress, não ops!

Tudo bem, tudo bem, pode ser só eu, mas eu me apaixonei pela história de amor de um casal, eu chorei quando uma das participantes contou sobre sua experiência de aborto, e quando uma outra falou sobre como o bullying e a separação dos pais dela impactaram na vida dela e em como ela se relaciona com as pessoas. É fácil se relacionar com as pessoas em Love is Blind, porque elas são exatamente isso: pessoas. Cruas, com defeitos e qualidades, com alegrias e tristezas, inseguranças e boletos para pagar no fim do mês.

Perceber que apesar dos traumas passados, ainda tem muita gente por aí disposta a abrir o coração para o amor é refrescante. Em uma época de amores frívolos e efêmeros, é bonito ver que pessoas completamente diferentes e que talvez nunca teriam se permitido viver aquele momento, dividir aquele sentimento, deram uma chance para o desconhecido. A frase um salto de fé é utilizada corretamente várias vezes durante a temporada, porque é isso mesmo o que eles fazem, dão um mergulho no lago imenso que é viver, amarrados e vendados.

Ai ai, a razão da minha bissexualidade

É necessário coragem, desinibimento e muita cara de pau para se pôr a prova e passar por situações quase que humilhantes. Me peguei dizendo mais de uma vez que não passaria por essa ou aquela situação. Que não seria tapete de ninguém para ser pisado daquela forma. E que fique claro, não estou glorificando as situações de abuso ou manipulação que por ventura acontecem, pelo contrário. Todavia, reconheço que exige disposição e até bravura para se doar tão completamente para o amor.

Considerações finais

Eu não acredito que o amor seja cego. Talvez burro, surdo e manco, mas cego? Nah. Quando você parte da escolha de participantes atraentes que atendem o padrão de beleza convencional, você elimina o risco da rejeição, pelos outros participante e também pelos seus telespectadores. Todo mundo é bonito, bem vestido e raramente se comporta fora da curva. E mesmo estes possuem “qualidades redentoras”. O macho mais babaca, é visto como bonitão, e o mesmo funciona para a mulher com o comportamento mais idiota, e assim sucessivamente.

O amor não é cego, mas em tempos efêmeros ele ainda existe, e pode sim ser encontrado em lugares impensados. Valeu a pena assistir e acompanhar pelo menos uma história de amor em que eu acredito, e que me controlei loucamente para não fangrilar sobre, durante esse texto inteirinho. 

Como sempre, espero que vocês gostem, venham me falar o que acharam nos comentários, para gente amar e hatear uns participantes juntos. Um beijo grande e até a próxima! 

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

1 Comentário
  1. Responder Giselle 5 de março de 2020

    Maravilhosa, como sempre!!!

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