Falando com uns parentes esses dias, falei bem rapidinho sobre adoção. E foi muito doido ver que até hoje, mesmo com pessoas conhecidas, falar de “não querer ter filhos” ou “adotar” ainda é um tabu bem forte. Hoje vamos falar sobre um filme japonês chamado Mães de Verdade (Asa ga Kuru, 2020).

Sinopse
O casal Kurihara Satoko (Hiromi Nagasaku) e Kurihara Kiyokazu (Arata Iura) lutam há bastante tempo para engravidar, sem sucesso. Resolveram então adotar uma criança, mas a mãe biológica reaparece anos depois com uma tentativa de chantagem.
Olha, essa sinopse que eu acabei de escrever é ruim. Bem parecida com a sinopse oficial, inclusive. É ruim porque atropela uma série de situações que Mães de Verdade mostra na tela e que é importante que sejam vistas devagar e no seu tempo. Mães de Verdade não tem só uma tese, ele tem vários temas que a diretora / roteirista Naomi Kawase resolve falar. E, uma coisa que ela faz que dá muito certo: ela gasta tempo para “falar de um tema” de cada vez. É um filme lento, tá? Mas vale a pena demais assistir às 2:20 horas de Mães de Verdade

Filho como medida de sucesso
A primeira parte de Mães de Verdade é sobre o casal Kurihara tentando engravidar. Além de ser um desejo do casal, uma alegria pessoal e tal, fica muito claro que existe uma pressão social em que eles tenham filhos. E mais: é uma pressão que não é dita por ninguém mais do filme. É uma questão muito pessoal de ambos, principalmente de Kiyokazu, que se sente inferiorizado.

O tabu da adoção
Tem um episódio do podcast Mamilos, sobre adoção, que é muito bom. Clique aqui para ouvir. Quando você ouve esse episódio fica muito claro que adotar é um ato de amor puro e simples. Pessoas capazes de amar uma outra pessoinha que também pode amar, mas que não tem quem cuide dela. Por que, então, existe um tabu tão forte sobre a adoção?
Existem algumas outras curiosidades sobre o processo relatado em , como a necessidade de que um dos pais pare de trabalhar para dar atenção integral à criança. Por um lado, parece justo, mas por outro, faz com que casais que tenham menos recursos fiquem impedidos de adotar, pois não poderiam parar de trabalhar. Pode parecer estranho pensar, mas existe uma desigualdade social forte no Japão. O Japão também tem uma forte desigualdade de gênero, e vocês já podem imaginar quem vai ter que parar de trabalhar para ficar com os filhos.

Gravidez na adolescência e conservadorismo
Uma coisa legal de ver filmes de outros países é que você começa a perceber que alguns problemas que você pensa “aff, só no Brasil mesmo”, na verdade existem em todo lugar, mais especificamente, que homem é homem em todo lugar.
Para mim, a verdadeira protagonista de Mães de Verdade é Katakura Hikari (Aju Makita). Tá bem difícil fazer essa resenha sem spoilers, mas vou me esforçar. A forma como uma garota cai na onda e acaba engravidando, sendo abandonada pelo pai da criança; renegada pela família, vista como motivo de vergonha; a vida do pai continua a mesma e a da nova mamãe acaba… É muito Brasil, né não?
Mães de Verdade mostram um conservadorismo muito firme da “família tradicional japonesa”, que é muito pesado, e está mais preocupado (como toda boa família conservadora) no que as pessoas vão pensar, do que em acolher a parte mais fraca nessa história toda, que é a mãe.

Precarização e exploração
Já tô acabando
Outra coisa que dá pra gente ver em Mães de Verdade é a precarização do trabalho das pessoas que estão em “condição de fragilidade”, como costumam falar. Hikari encontra várias mulheres que engravidaram sem poder ter a criança, como ela, e as histórias que elas trazem são muito pesadas. Naomi Kawase tem a sensibilidade de misturar histórias muito tristes com as belíssimas paisagens do Japão, e uma iluminação meio forte. Para mim não é do nada: é uma forma de você conseguir ouvir essas histórias sem sofrer tanto.

Tecnicidades
Mães de verdade junta muito bem a forma de filmar “normal”, com os personagens bem enquadrados, iluminação bem equilibrada e tal, com um aspecto meio “sonhador”, fazendo a iluminação ficar muito forte, mostrando paisagens e tudo o mais. Inclusive, a fotografia que torna uma história que tinha tudo para ser sombria, num filme quente e bem iluminado. a trilha sonora é pouco marcante, mas a edição de som é muito boa. e eu conheço poucos live actions japoneses, mas todo o elenco está ótimo, principalmente Aju Makita interpretando Hikari. Mães de Verdade é um filme lento, mas encarem.

Concluindo
Mães de Verdade fala não só das coisas que eu escrevi aí em cima, mas também de: Quem é a verdadeira mãe? A que pariu? A que está criando? E… porque só uma delas é “de verdade”?
Uma última coisa a dizer é que as cultura pop do japão que eu costumo consumir são animes, mangás, às vezes música. Ver um filme como esses, tão diferente de tudo o que eu estou acostumado a ver, mas ao mesmo tempo tão presente, tão contemporâneo, tão próximo da nossa realidade, foi um belo presente. Ele estreia aqui no Brasil dia 13/05/2021. Então, se tiver a chance, assista!
