Sabe aquele filme que só de ver o cartaz e ler a sinopse, você já consegue imaginar a voz do locutor da sessão da tarde, falando “como essa turminha do barulho vai aprontar altas confusões”? O Link perdido é exatamente esse filme. O que significa aquela diversão descomprometida que dispara clichés para todos os lados, mas te leva ao conforto do que você já conhece, ainda que o tema seja uma (ou mais) jornada ao desconhecido! E em meio a essa irônica realização vamos avaliar essa curiosa animação, e claro, os responsáveis por ela.
Uma cachorra espacial

Vocês conhecem a história da cadela Laika? Nos primórdios da tecnologia espacial, os primeiros testes foram feitos com animais treinados, para que se avaliassem os perigos que a exposição ao espaço faria aos seres vivos. A cadela Laika foi um desses animais, e foi o primeiro animal a orbitar a Terra. Esse factóide é pra linkar (hoje eu não me seguro) com o nome do estúdio Laika, responsável pela animação deste e tantos outras já consagradas animações como Noiva Cadáver, Coraline, Os Boxtrolls e, mais recentemente Kubo e as cordas mágicas. Para os que conhecem pelo menos um desses títulos sabe que estamos falando de animações em stop-motion, técnica cada vez mais rara nos grandes circuitos, mas que resiste graças a paixão de produtores como o estúdio Laika, e sua incrível habilidade. Aproveitando a deixa, vamos falar em detalhes sobre o aspecto visual e animação do “Link Perdido”.
É inacreditável que isso seja stop-motion

Todos os filmes que listei do estúdio não fogem a mesma impressão que tive ao assistir “Link Perdido”. Continua sendo absolutamente incrível que através do stop-motion se consiga atingir tamanha fluidez e detalhismo. Tecidos, pelos, correntes de ar, expressões, movimentação e peso. É muito fácil ser absorvido pelos acontecimentos e esquecer por um instante que, diferentemente do mundo mágico criado em computador, em que absolutamente todos os cenários podem ser criados e modelados à vontade do seu mestre, a arte do stop-motion exige soluções mais complexas e uma dose de criatividade para superar suas limitações técnicas. Porém, contudo, todavia, desde o princípio do filme vemos uma explosão de cenas que ainda parecem absolutamente impossíveis de serem reproduzidas. Em sua primeira cena, nosso herói Lionel Frost (Originalmente Hugh Jackman) se encontra no meio de um lago no qual pretende provar a existência de uma criatura (tente adivinhar qual) e, no processo de tentar provar sua existência uma incrível cena de ação que envolve, um assistente, a preparação de uma câmera, uma corda, um mergulho e um salvamento coreografado acontecem. Em menos de 5 minutos, temos uma dimensão das capacidades do personagem (que servirá para melhor relacioná-lo com o mundo ao qual pertence), uma demonstração da qualidade geral da animação (não faltarão cenas de ação!) e a suspensão total da realidade justamente por conta dessa qualidade!


E eu continuo com dificuldade de aceitar que são animações em stop-motion. Mas seja lá que tipo de magia ou pacto fizeram pra alcançar esse resultado, é preciso dizer que são bons. E o tema nos dá oportunidade de ver uma variedade incrível de cenários e situações distintas, que passam pela Inglaterra pré Darwiniana, Velho Oeste estado-unidense, Índia e o Himalaia, cada lugar oferecendo iluminação, colorido e diferentes interações. Excelente para conferir unidade e versatilidade, e no final coesão do estilo.
Linkin Park não foi convidado

Se me detive nos aspectos visuais, é por achar que de fato é um dos pontos mais altos do filme. A trilha sonora é adequada, embora seja pouco memorável. Não me entenda mal, a trilha é bem orquestrada e tem boa qualidade sonora, mas de maneira alguma se destaca e nem mesmo existem canções no filme, sejam elas compostas para o filme ou licenciadas, algo que quando bem explorado em animações, sempre cria cenas memoráveis (‘Vai chegar a sua vez’ de Noiva Cadáver por exemplo). O trabalho de dublagem está bem adequado, e não senti estranheza nas vozes, com destaque para o contraste entre a voz e o rugido do personagem ‘Link’ (originalmente Zach Galifianakis), que cria uma dinâmica interessante.
Um link entre personagens e história

Já mencionei o principal Herói, Lionel Frost, e ‘Link’ que será outra peça protagonista; falta apenas o terceiro elo desse grupo que é Adelina Fortnight (originalmente Zoe Saldana) e é possível associar alguns trejeitos dos personagens aos atores escalados para suas vozes, o que é bastante usado para construção de humor. Especialmente com o Link reproduzindo uma dúzia de cenas que seria possível enxergar o Zach reproduzindo. Dito isso, o filme lida principalmente com questões relacionadas à nossa disposição para alcançar nossos sonhos, a aceitar o que é diferente e também em nossa capacidade de mudar. Lionel é um Sherlock Holmes versão aventureiro, ao invés de detetive investigativo. Link é literalmente um elo do humano ao primitivo, já que apresenta toda uma etiqueta ao mesmo tempo que quase não teve contato humano, o que o faz ficar sempre no limite de ambos os mundos. E Adelina, que entra no filme como potencial interesse amoroso de Lionel, e é a responsável pelas reflexões do personagem sobre sua humanidade e compaixão.

É claro que é uma dinâmica razoavelmente batida, e fica ainda mais se eu disser que o antagonista é explicitamente mal, para que não fique nunca a dúvida de qual é o lado bom e qual é o lado mal. Isso significa que o filme perde oportunidades de discutir coisas bastante relevantes para o nosso tempo, como a apropriação britânica de riquezas históricas de outros países, ainda que flerte com algumas questões modernas, como nome social. Essa cena (do nome social) inclusive cria sentimentos mistos, já que ao mesmo tempo que Lionel aceita rapidamente, ela é criada como piada. Acho que o mais positivo que se pode tirar é como se representou um personagem cheio de estereótipo de masculinidade, tratando esse assunto com naturalidade após um leve choque inicial. Acho que é um ótimo gancho de conversas sobre aceitação, e isso já é algo muito positivo pra se levar de uma animação que busca apenas divertir.
Farei justiça a personagem Adelina, que pouco mencionei aqui, mas reservo a uma seção de spoiler pós encerramento do texto. Me reservo aqui a dizer apenas que fiquei meio insatisfeito com a personagem. Então se ficou na curiosidade, (e não liga pra spoiler) dá uma conferida!
O que se achou do Link Perdido?

Um filme que diverte, mesmo que sem grandes profundidades. É capaz de encher os olhos e certamente irá encantar as crianças com cenas divertidas, e personagens fofinhos (incluindo o Link). Destaco que o trailer basicamente entrega o filme todo, além de reunir algumas das melhores piadas, então recomendo que evite a todo custo. Se você curtir stop-motion eu nem preciso te dizer nada porque tenho certeza que você já tá garantido. Se você não conhece, ou ainda não viu nenhum filme da Laika, não diria que é sua melhor obra, mas pode ser um bom filme pra despertar o interesse. No mais, manda suas expectativas, críticas, sugestões, opiniões, dinheiro, cartão de crédito, VA e VR! Aceitamos!
Seção Spoiler – Sobre Adeline

Sobre Adelina, acredito que é um dos personagens que mais lamentei durante o curso da história. Ela entra no filme tendo algum tipo de relação passada com Lionel, se casado com outro aventureiro, este então já falecido nesse ponto da história. Lionel precisa de algo que era deste aventureiro e por isso a procura. Ela se une a ele, após ser roubada apenas porque… sim? É uma personagem com uma motivação ruim, e que acaba sendo necessária para que Lionel possa crescer durante o curso da história, embora ela já esteja pronta.