A Vida Invisível – Crítica

A Vida Invisível – Crítica

Lembro-me que em agosto, quando Academia Brasileira de Cinema anunciou A Vida Invisível como o filme brasileiro indicado à seleção de Melhor Filme Internacional para o Oscar 2020, fiquei muito surpreso e sem entender. Pois há pouco havia assistido Bacurau, filme brilhante e com uma potência revolucionária muito pertinente e relevante. Me parecia algo tão distante algum outro filme nacional fazer frente a obra de Kleber e Juliano. Obviamente eu estava sendo extremamente presunçoso, pois ainda não havia assistido  A Vida Invisível. Assisti há poucos dias, e foi uma experiência incrível e emocionante. É um filme tão bom quanto Bacurau, muito diferente, mas igualmente relevante e necessário, e com uma carga dramática que vai muito além. Hoje entendo o porque dessa indicação ao Oscar.
2019 já é um dos grandes anos do cinema nacional.

Sinopse

Antigas cartas de sua irmã Guida, há muito desaparecida, surpreendem Eurídice (Fernanda Montenegro), uma senhora de 80 anos. No Rio de Janeiro dos anos 1950, Guida (Julia Stockler) e Eurídice (Carol Duarte) são cruelmente separadas, impedidas de viverem os sonhos que alimentaram juntas ainda adolescentes. Veja a história destas duas mulheres, duas irmãs, tentando lutar contra as forças sociais que insistem em frustrá-las. Invisíveis em uma sociedade paternalista e conservadora, elas se desdobram para seguir em frente.

Produção

Julia Stockler, Carol Duarte,
Karim Aïnouz (diretor) e Rodrigo Teixeira (produtor)

Esse filme é uma adaptação do romance A vida invisível de Eurídice Gusmão, da escritora Martha Batalha. A adaptação do roteiro é assinada pelo brasileiro Murilo Hauser, a uruguaia Inés Bortagaray e pelo brasileiro, também diretor do longa, Karim Aïnouz. A cinematografia fica por conta da francesa Hélène Louvart. Podemos notar que é uma equipe bem diversa, com pessoas de origens e lugares bem distintos. Dando uma breve olhada em seus perfis no IMDB, logo vemos que são profissionais experientes e com uma carreira já consolidada na indústria cinematográfica. Tenho a sensação de que esse filme, muito mais do que ser uma obra de diretor ou roteirista, é um filme de produtor. A produção é de Rodrigo Teixeira, que é, possivelmente, o produtor brasileiro de maior projeção dentro de  Hollywood. Teixeira é fundador e CEO da RT Features, produtora brasileira sediada em SP, mas que faz maior parte de seus trabalhos no exterior. Pela RT Features Rodrigo assina a produção de alguns filmes que tiveram grande destaque no cenário mundial nos últimos anos, os mais notáveis são Frances Ha (2012), The Witch (2015), Call Me by Your Name (2017), Ad Astra (2019) e The Lighthouse (2019).
Lembro-me que na época do Oscar 2018, Me Chame Pelo Seu Nome ganhou muito destaque na mídia nacional, justamente por ter o brasileiro como principal produtor. E teve uma entrevista, não me recordo agora à qual veículo,  onde Rodrigo fala sobre seu trabalho no filme. Ele disse que já conhecia o livro tinha alguns anos, mas que por muito tempo não sabia qual diretor podia fazer um bom trabalho. E que quando o projeto chegou até ele, Luca Guadagnino já estava escalado para a direção. Não lembro dos pormenores, mas lembro que Rodrigo diz que parte de seu trabalho é uma intensa pesquisa e busca por um bom roteiro, ou um bom livro que possa  ser adaptado. E assim que escolhido o texto principal, montar a melhor equipe possível para pôr a obra em produção. A sensação que eu tenho aqui, em A Vida Invisível, é exatamente essa. De que ele, Rodrigo, orquestra as ações desse grupo de profissionais muito qualificados. Tanto que não consigo destacar nenhum aspecto técnico na obra. O filme todo é muito bom e operante, cinematografia, trilha sonora, edição e direção, tudo funciona muito bem, mas sem nenhum aspecto se sobressair a outro. Acredito que a grande força dessa obra, além de toda parte técnica que funciona muito bem, está nas interpretações e na construção das personagens por parte das atrizes. Sobre isso falaremos mais à frente.
Ainda é interessante saber que A Vida Invisível foi premiado nos festivais de Cannes e Munique.  E que o filme já foi adquirido pela Amazon, e posteriormente será disponibilizado no Prime Video.

Mulheres poderosas e atuações brilhantes

O filme conta a história de duas irmãs que se amam muito, confidentes leais e amigas inseparáveis, que acabam se afastando por conflitos familiares e vivem suas vidas paralelamente, sonhando em um dia se reencontrar. Essa trama me remeteu muito à A Cor Púrpura, inclusive alguns elementos narrativos são iguais.

As protagonistas do filme são personagens muito ricas e poderosas. Eurídice  é a irmã mais nova, talentosa pianista, sonha em estudar em Viena. Já Guida, a irmã mais velha, é muito extrovertida e almeja encontrar um grande amor e formar família.
Esse filme se passa no Rio de Janeiro dos anos 50, e mostra como ser mulher naquele tempo era complexo, ainda é, mas, aparentemente naquele momento existiam mais elementos que dificultavam a existência autônoma de alguém do sexo feminino. Basicamente a história que nos é contada é sobre como as estruturas sociais impedem que essas mulheres sejam quem elas realmente são, ou almejam ser. A mulher aqui é a sombra de um homem, e quando não tem esse homem, ela socialmente, é menos que uma sombra.


Julia Stockler nos emociona como Guida

É muito interessante, e triste, ver a evolução das personagens ao decorrer da trama, ambas começam cheias de alegria e sonhos e aos poucos vão perdendo o brilho e o ímpeto. Elas são o tempo inteiro agredidas pela vida, pelos meios que estão inseridas e pessoas que as cercam. Acho que esse filme fala muito sobre como a vida adulta tira coisas dessas mulheres. As responsabilidades e deveres sociais, aquilo que é projeto sobre papel que uma mulher deve desempenhar na sociedade.
Guida é muito linear, é uma personagem mais contida e sutil, Julia Stockler faz de maneira muito natural a passagem da moça sonhadora à mulher só e responsável, que precisa lutar todo dia para sobreviver. Julia também é muito eficiente nos momentos mais dramáticos de sua personagem, destaque para a cenas finais com Filomena (Bárbara Santos), onde a atriz mostra muito amor, compaixão, tristeza e gratidão, tudo de forma contida e muito honesta. Ainda assim, com todas as frustrações, a personagem Guida parece feliz em muitos momentos, ela abraça uma nova família, e mesmo com saudades da irmã, consegue fazer do novo lar o norte de sua vida.

Carol Duarte interpreta Eurídice

Já Eurídice é uma personagem bem mais dramática, sua própria existência dentro do casamento é muito controversa. O tempo todo ela parece odiar a vida que leva, marido e filhos são imposições do mundo, me parece justo seu descontentamento. A sensação que temos de Eurídice é de que toda sua vida com Antenor (Gregório Duvivier) é uma mentira. E que quando percebe que seu tempo está acabando, já é tarde demais, ela não pode mais realizar seus sonhos, porque vida exige outras coisas dela. Além disso, Eurídice aparenta estar perdendo sua sanidade aos poucos, e em momento algum parece aceitar  a ausência da irmã. Essa ausência é o que mais lhe aflige, mais do que a frustração com a carreira de pianista. Parece que ela vai se apagando aos poucos, ao mesmo tempo em que vai só aceitando as coisas e acumulando muita dor dentro de si. Na cena do cemitério a personagem explode e  Carol Duarte é arrasadora, colocando para fora tudo aquilo que a personagem guardou o filme inteiro, é um momento tão rápido no filme, mais um dos mais memoráveis, talvez o mais. Carol enche a tela com sua presença e força dramática, é a cena que possivelmente pode render prêmios ou indicações à  atriz.

Fernanda Montenegro dá vida à Eurídice na parte final do filme, e quanto a isso não há muito a ser dito, todos sabemos da grandiosidade dessa atriz. E ela é perfeita na cena mais emocionante do longa. É sempre um privilégio nosso ver Fernanda atuando.
O restante do elenco está muito bem, mas nenhum destaque além das protagonistas. Talvez Filomena, que é muito carismática e rouba o coração do espectador. 

O problema das masculinidades

Esse filme fala muito sobre como a sociedade, estruturalmente machista, boicota a existência e aspirações de mulheres. Praticamente nenhum homem aqui é bom, ou razoavelmente honesto e respeitoso, talvez só o investigador (Flávio Bauraqui), e isso porque vemos apenas uma face de sua pessoa, justamente a do detetive interagindo com a cliente. O pai (António Fonseca) é extremamente conservador e moralista, um homem cruel e inescrupuloso. Antenor é um personagem muito interessante, porque a primeira vista ele é, aparentemente, um homem legal. Conseguimos perceber que ele amava Eurídice e que dentro do que era possível, vide a socialização masculina daquela época, ele a respeitava. Só que ele é muito abusivo, e controlador. E o problema aqui está no fato de que coisas que hoje são muito claras para nós, não eram nos anos 50. Antenor estuprava regularmente Eurídice, naquele tempo era comum pensar o sexo forçado, dentro do casamento, não era algo ruim, abusivo e errado. Arrisco dizer que ainda hoje, 2019, isso aconteça. Na verdade provavelmente muitos homens são Antenor. Principalmente no que diz respeito ao cerceamento que ele faz dos objetivos pessoais de Eurídice, ele vai minando todas as aspirações de sua esposa. Para Antenor a vida de Eurídice tem como fim, e motivo  principal, ser sua esposa e mãe de seus filhos, e nada além disso.
Uma reflexão que me passa é sobre como nós romanceamos e relativisamos abusos do passado. É bem comum em muitas famílias existir um casal de avós que passaram muitas décadas juntos e só foram separados pela morte. E hoje a gente olha pra isso com muito carinho e idealização, mas muitos desses relacionamentos só perduraram porque as mulheres praticamente não tinham a opção de deixar seus companheiros, ou foram socializadas de forma a aceitar comportamentos e atitudes que hoje não são mais aceitáveis. A emancipação da mulher na história da nossa sociedade é algo muito recente. Então é bem válido fazermos esse questionamento.

Final agridoce

Fernanda Montenegro encerra o filme de forma emocionante

Esse filme termina muito bem, na medida do possível. O final é bem agridoce, talvez não agrade muita gente. Eu fiquei satisfeito, como o filme mostra o tempo todo, as coisas na maioria das vezes não são como a gente quer que elas sejam. É um final muito triste mas igualmente belo, reconfortante e muito emocionante.

A Vida Invisível é um filme realista, duro, triste e melancólico. É sobre a opressão de gênero, conceito de família, sobre ausências e vazios, mas também é muito sobre amor, reinvenção, emancipação e luta. Mas  acima de tudo é lindo, e uma das grandes, e memoráveis obras que nosso cinema já produziu.

A Vida Invisível estreia em 21 de novembro, não deixe de assistir.





Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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