Olá, maratoneiros! Tudo bem com vocês? Eu me chamo Pedro Corujeira e, no meu texto de estreia aqui no Maratona de Sofá, quero compartilhar com vocês como foi a minha jornada até Dragon Quest: Your Story.
Os primeiros passos
Minha relação com a franquia Dragon Quest começou ainda na infância, graças às revistas de videogames daquela época, que, ocasionalmente, publicavam algum artigo ou notinha sobre os jogos da série e o estrondoso sucesso deles no Japão.
Conforme fui crescendo e ficando mais espertinho com as malandragens da internet, consegui, com ajuda do meu irmão mais velho, ter acesso ao mundo dos emuladores de Super Nintendo e foi naquele momento que pude testar um jogo da série pela primeira vez na vida!
Naquele dia, joguei Dragon Quest V, mas a experiência no geral, foi mais traumática do que divertida, principalmente, por conta do idioma japonês. Anos depois, reatei meus laços com a franquia, dessa vez, com Dragon Quest VIII, que estava localizado para o inglês, o que me permitiu melhor aproveitá-lo.
Dali em diante, o carinho pela série havia sido restaurado, porém, o acesso aos jogos ou quaisquer produtos relacionados a Dragon Quest era extremamente limitado e, das raras vezes em que encontrava algo, os preços estavam além do que eu podia pagar.
Sendo assim, o que mais fazia era admirar, de longe, os grandes acontecimentos dentro da franquia, pela internet, revistas especializadas e, de vez em quando, pegando algum jogo emprestado na mão de um amigo. Mas, mal sabia eu que no ano de 2018, essa realidade iria mudar completamente!
Novos rumos
Em 2018, embarquei numa viagem de mudança para o Japão e, ao chegar lá, fui surpreendido com as infinitas possibilidades de acesso a todo tipo de bugiganga relacionada a Dragon Quest: jogos, brinquedos, material escolar e até utilitários do lar! Como prova do meu surto diante dessas maravilhas, deixo aqui este registro fotográfico:

Passado a histeria inicial com a mudança de país e o acesso mais amplo aos produtos da franquia Dragon Quest, comecei a me adaptar à vida no Japão e, claro, procurar trabalho. No começo não foi nada fácil, mas depois de algumas tentativas, as oportunidades foram aparecendo.
Em um dos meus trabalhos em uma grande rede de supermercados japonesa, acabei conhecendo aquele que viria a ser um grande amigo, Toyohiko Hanaki. Nossa história de amizade começou com um papo descompromissado sobre a minha experiência jogando o remake de Dragon Quest IV para Nintendo DS. Ali descobri que ele era um fã e colecionador de longa data de Dragon Quest e, a partir desse dia, nos tornamos companheiros inseparáveis de longas caminhadas por cidades do interior do Japão, onde caçávamos jogos, livros, mangás e outros produtos da série.
Uma surpresa no meio do caminho
Para minha felicidade, os anos em que estive no Japão foram muito prolíferos em novidades relacionadas à franquia Dragon Quest como um todo. Uma delas foi o lançamento do filme de animação em computação gráfica, Dragon Quest: Your Story, nos cinemas japoneses.
Sabendo da estreia com alguns meses de antecedência, combinei com Hanaki-san para que fossemos juntos assistir ao filme no cinema. No entanto, as coisas não saíram como planejávamos. Como eu e minha esposa já estávamos com data marcada para voltar ao Brasil, decidi trocar a ida ao cinema por uma viagem para Nagasaki, para conhecer mais do país.
Por essa razão, não pude assistir ao filme enquanto ele esteve em cartaz no Japão, mas, na tentativa de ter ainda assim alguma experiência próxima do filme, comprei duas cópias (um para mim e outra de presente para Hanaki-san) de sua adaptação literária lançada naquele mesmo ano pela editora japonesa Kadokawa.
Ainda assim, retornei ao Brasil com um gosto amargo por não ter visto o filme, mas a vida não cansa de nos surpreender e foi no começo do ano de 2020, quando já estava em território brasileiro, que a Netflix anunciou Dragon Quest: Your Story, com exclusividade para seu catálogo mundial.
O encontro com o filme
Quando o trailer de revelação de Dragon Quest: Your Story passou a ser veiculado na TV japonesa e pelos canais de imprensa no youtube, me recordo bem da reação negativa a ele, não só minha como também da maioria do público dentro e fora do Japão, por conta do visual diferente do filme.
Numa decisão no mínimo ousada, a equipe de produção do longa-metragem, abandonou os designs originais de personagens e monstros criados por Akira Toriyama, o ilustrador principal de toda franquia Dragon Quest, desde a sua criação em 1986, optando por uma direção de arte mais sóbria e próxima de animações americanas, como as produzidas pela DreamWorks e Pixar.
Precisei de um tempo até digerir completamente a ideia da ausência dos desenhos de Toriyama no filme e, por esse motivo, ainda relutei algum tempo após a sua estreia na Netflix para assisti-lo. Mas, uma vez superado o meu pré-conceito, decidi dar uma chance a ele.
Foram necessários poucos minutos para que eu mudasse de ideia sobre a obra. Todo aquele receio de que Your Story destoaria da fonte original (o jogo Dragon Quest V) foi superado pelo aspecto visual impecável, pela trilha sonora marcante de Koichi Sugiyama (compositor de todos os jogos da franquia) e pelas inúmeras referências ao rico universo de Dragon Quest criado pelo escritor e game designer, Yuji Horii.
A trama do filme, bem como visual dos personagens, é baseada no jogo Dragon Quest V: Tenkuu no Hanayome de 1992, considerado pela crítica especializada e pelos fãs, um dos melhores RPGs japoneses de todos os tempos. Quem já é fã de longa data e, inclusive, já zerou o quinto jogo da série, irá reviver alguns dos melhores momentos dele em Your Story e ainda pode aguardar por surpresas ao longo da aventura.

Muitos dos elementos que fizeram Dragon Quest V um grande sucesso nos jogos estão presentes no filme: a história que acompanha o crescimento do protagonista; lutas épicas contra monstros icônicos; momentos dramáticos, de derramar lágrimas sem parar, e, o mais importante, a difícil decisão do protagonista de escolher entre Bianca ou Nera como sua futura esposa!

No entanto, é preciso ressaltar que algumas partes da história original sofreram adaptações necessárias para se adequarem ao tempo do filme e à construção do seu clímax. É perceptível que não deve ter sido uma tarefa fácil para equipe de roteiristas adaptar as 30 horas de duração do jogo original num longa-metragem com pouco mais de 90 minutos. Nesse sentido, Your Story comete alguns deslizes, dado o ritmo bastante acelerado em que a história se desenrola, há pouco tempo para que os personagens possam ser devidamente desenvolvidos em tela.
Outro aspecto que me causou certo incômodo enquanto assistia ao filme foi a escalação de atores responsáveis por emprestar suas vozes aos personagens. O elenco de atores é de primeira qualidade, com muitos nomes importantes do cinema e do teatro japonês contemporâneo, como Takeru Satoh, Takayuki Yamada, Kasumi Arimura e Kōtarō Yoshida. O problema é que nenhum deles é ator de voz profissional, o que causou algum prejuízo na interpretação dos personagens e na sincronia labial.
Apesar de tudo, assisti ao filme duas vezes, na primeira com áudio original em japonês e na segunda com opção de áudio em nosso idioma. Recomendo ambas as experiências e gostaria de ressaltar que o trabalho de adaptação da versão brasileira ficou bem acima do que eu esperava. A maior diferença da versão original para os demais idiomas são os nomes dos personagens, cidades e feitiços, completamente diferentes.
O final da jornada
(alerta de spoilers!)

A essa altura do meu texto, penso que não é mais nenhum segredo o carinho especial que tenho por Dragon Quest e o quanto queria assistir Your Story e tirar as minhas próprias conclusões. No final da minha jornada, não poderia usar outra palavra que não “nostalgia” para definir a minha experiência com o filme.
A decisão por um final completamente diferente do jogo que lhe deu origem, com certeza, foi uma aposta arriscada da equipe por trás de Dragon Quest: Your Story. No lugar de um poderoso feiticeiro a ser enfrentado pelo herói para salvar o seu mundo, o que vemos é um jogador, como eu e você, que repentinamente se vê frente a um inimigo muito mais cruel e sorrateiro: a sociedade da opressão. Digo “opressão”, pois é isso que representa para mim, Nimzo, o vírus, que aparece ao final do filme, revelando ao protagonista que tudo aquilo que ele havia vivido não passava de um jogo.
Vivendo no Japão, aprendi com meu amigo Hanaki-san que a mesma sociedade responsável por produzir esses maravilhosos animes, jogos, filmes, mangás, bonecos e afins é também aquela que exige que você abandone tudo isso e esqueça sua infância para se comprometer com uma excessiva carga de trabalho.
Dragon Quest: Your Story não é só um filme ou adaptação de um jogo, é uma mensagem vinda de outro tempo para lembrar a nós, aventureiros, que nossas batalhas de espada, viagens nas costas de um dragão alado, conversas e noitadas nas tabernas com nossos companheiros de jornada, não foram apenas virtuais, mas reais e emocionantes e possuem valor inestimável, pois fazem parte de nossa história.
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