Ainda bem que essa cabine foi uma semana antes do lançamento. Deu tempo de digerir o filme, porque foi pesado. Ponto Cego (Blindspotting, 2018).
Ah sim, cabe aviso: esse texto também vai ser muito político. Não político com relação a eleições, mas a dinâmica social. Se o tema te incomoda, abraços e…. tchau.
SINOPSE
Colin (Daveed Diggs) está há 3 dias de terminar o período da condicional. E assim como um dedo mindinho atrai confusão, ele tem que se esforçar para se esquivar de qualquer coisa que possa ferrá-lo. Mesmo que venha do seu melhor amigo Miles (Rafael Casal).

DESVIO
Tem uma classe de filmes que são necessários. Mais do que ser capaz de julgá-los como bons ou ruins tecnicamente, é necessário ir além e entender o que o filme tenta trazer.
Porque Ponto Cego não dá a aparência de ser caro para os padrões do cinema estadunidense. Mas isso não é relevante, a história contada que é.
Ou melhor, as várias histórias. Porque cada sequência não é só a história de Colin, ou de Miles. É de um Colin, e de um Miles, dentre os milhares que existem pelo mundo. São centenas de histórias em menos de duas horas.
E é punk. Eu já reescrevi essa introdução umas 3 vezes. Já demorei dias pra escrever esse texto. Em partes, por meu computador estar quebrado, mas mais do que isso: porque eu não sei como escrever, com justiça, sobre o filme que eu vi.

COMPLEXIDADE
É um padrão humano (talvez animal) tentar resumir situações em blocos menores e mais simples. Mas se tem uma coisa que nossos tempos mostram, é que o mundo é complexo. A forma de pensar, de lidar, e de agir também.
Então sim, você vai se pegar pensando que uma pessoa que cometeu um delito tem que ir pra cadeia. Mas ir pra cadeia para que? E o que acontecerá com aquela pessoa quando estiver lá? E quando sair? E como agiremos com ela quando ela sair? E porque ela foi a única a ser presa?
E esse é só um aspecto, afinal. Porque infelizmente, não conseguimos desassociar classe econômica de hereditariedade e etnia. Mesmo nos dias de hoje. Tanto nos Estados unidos como aqui. Então sim, o viver de um negro de periferia é um constante lidar com os homens de farda, com as impressões dos outros, com se auto afirmar sem se tornar alvo. É saber que tudo que se faz é motivo para desconfiança. Então ou você abraça isso de vez, e se torna uma ameaça constante, ou você faz de tudo para se livrar do estereótipo (se “esbranquiçar”).
Como lidar quando pessoas queridas perdem a confiança em você, e sempre estão prontas pra ver o seu pior? O que fazer quando seu melhor amigo é incapaz de saber o que você sente? Pior, o que fazer quando seu melhor amigo é quem mais tem chance de te ferrar? Qual a melhor forma de ensinar uma criança que certamente vai lidar com os mesmos problemas que você no futuro?
Esse filme é sobre tudo isso.

MANUAL DE INSTRUÇÕES
Ponto Cego é uma colcha de retalhos muito bem costurada. São várias situações que poderiam ser abordadas em separado, em vários curtas ou contos, mas são unidas na mesma história. Esse “avatar” de situações é o protagonista Colin.
Se você não entender, não precisa se preocupar. Em um momento, uma personagem literalmente explica o título, e a razão de ser do filme. Isso é feito de forma sublime. Ele não te chama de burro por não ter entendido. Ele só não quer deixar dúvida sobre o que ele é: um filme sobre preconceito.
Da maneira mais estrutural possível.
Mas eu tô muito solto nesse texto, tenho que ser mais objetivo.

COMENTÁRIOS
O filme tem produção barata (pelo menos aparenta). Mas isso é resolvido com boas escolhas de enquadramento e ambientação. A trilha sonora é repleta de Hip Hop e rap, e muitas vezes a música é feita pelos próprios personagens (uma cena maravilhosa com isso, inclusive).
Ponto Cego é um “slice of life” (fatia de vida, na tradução literal), portanto dificilmente você verá coisas fantasiosas. Apenas retratando imaginação, ou coincidências improváveis. Poucos efeitos especiais são usados. A sonoplastia é ótima. Roteiro e direção estão de parabéns.

FINALIZANDO
Mais do que um filme ótimo, Ponto Cego é um filme NECESSÁRIO. Vão ver no cinema, vão ver quando sair blu-ray. Vão ver num clube de filmes, baixem, vejam no YouTube… não importa. Assistam esse filme. Não sei se ele vai mudar sua vida, mas espero que acrescente muita coisa à ela.
Outra coisa, eu não sei como o público não-alvo vai reagir a esse filme. Seria fácil dizer estereótipos de “não-publico”, mas vou me privar desse clichê. Eu queria que, mesmo essas pessoas assistissem.
E quero pedir que, todos que lerem esse texto, quando assistirem Ponto Cego, venham trocar ideia aqui nos comentários, ou no nosso grupo no Facebook. Espero por suas falas. Abraços!

MINI-CAST
Ah sim, importante. Gravamos mini-cast na saída do cinema. Você pode ouvir clicando aqui.

[…] reconhecer o ator principal pra mim foi incrível. Ele é o Daveed Diggs, protagonista do brilhante Ponto Cego, um dos meus filmes favoritos sobre o debate de raça na sociedade […]