Expresso do Amanhã – A revolução virá do fun… LÁ ELE

Expresso do Amanhã – A revolução virá do fun… LÁ ELE

SnowPiercer é um trem percorre o planeta com os últimos sobreviventes da humanidade em seu interior. O problema é que vários vícios sociais se mantiveram nele – só que num lugar bem mais apertado.

Imagem de divulgação oficial de Snowpiercer (O Expresso do Amanhã). Visão do trem por fora. Vemos pela janela Andre Layton e Melanie Cavill se encarando. Atrás de cada um, grupos de pessoas armadas preparadas para um confronto. Para além do trem, é possível ver o Cristo Redentor
Esse “Luta de Classes” ficou ridículo

Então gente, ferrou. To tentando correr pra vomitar esse texto o quanto antes e entregar pro revisor (já peço desculpas de antemão, amigo!). E acho que esse texto vai virar dois.

Sinopse

Tentando combater o aquecimento global, cientistas tentam… resfriar o planeta, e acabam congelando ele completamente. Nisso, o senhor Wilford tem a ideia de… construir um trem, e transportar o que sobrou da humanidade nele.om animais e criação de vegetais para a alimentação, reservatórios d’água etc. O problema é que ele idealizou uma organização de castas para o trem. Sem contar um grupo de passageiros indesejados, que ficaram habitando o Fundo. Porém, um assassinato na primeira classe força Melanie, a chefe das Secretarias, a convocar Layton, um dos fundistas – e o único detetive criminalista de todo o trem.

Sentado numa poltrona, Layton encara alguém com um sorriso cansado no rosto. Ele tem um hematoma na testa
Que homem.

Acho que já vi isso antes…

Snowpiercer é baseado numa graphic novel francesa de 1982 chamada  Le Transperceneige, dos autores Jacques Lob, Benjamin Legrand, e Jean-Marc Rochette. Em 2013 foi feito um filme Checo / Sul-Coreano, chamado Snowpiercer (traduzido como O Expresso do Amanhã[1]), dirigido pelo maravilhoso Bong Joon-ho. Você deve se lembrar de Bong por Parasita, e do Expresso do Amanhã como “o filme que mostrou que o Chris Evans pode atuar” [2]. 

Isso posto, duas coisas a serem ditas. A primeira: Eu não li o quadrinho, mas vi o filme. Fazer referências entre a série e o filme vai ser inevitável. Segunda: Eu vou evitar ao máximo fazer piadas com os conterrâneos do estado vizinho, Minas Gerais.

Cena do filme Snowpiercer de 2013. Ao centro, Curtis (Chris Evans), rodado por diversas outras pessoas, estão com olhar apreensivo olhando para frente. Estão todos com casacos contra o frio
Pegou a referência?

Esse trem não é bom, não…

Diversos filmes abordam distopias (ouçam o Podcast Elementar sobre distopias), principalmente pós-apocalípticas. Várias, também, tentam fazer uma metáfora à nossa sociedade atual, dividida por classes. A inovação em Snowpiercer foi espremer esses fatores num espaço muito apertado: Por mais que um trem de 1.001 vagões seja imenso, ele ainda é uma fração do que o nosso planeta inteiro era capaz de prover. Mesmo sabendo que “A Locomotiva Proverá”.

Só que veja, o visionário sr. Wilford, idealizador do trem, não era só tremendamente altruísta. Ele poderia ter criado o trem só para si (ele tinha grana para isso). Ele sabia que outras pessoas também mereciam a vida, então fez com que elas pudessem entrar!

Desde que pagassem as passagens.

Que eram uma fortuna.

Mas calma, ele era realmente bondoso e, pensando em mais gente ainda, deixou que outras pessoas subissem no trem.

Desde que pagassem com trabalho.

E ele dividiu o trem em classes também. Alguns vagões de uso exclusivo da primeira classe, caberiam umas 10 famílias da terceira, ou do fundo.

Ah sim, algumas pessoas resolveram atropelar a generosidade do sr. Wilford, tentando invadir o seu milagroso trem. Para essas, só sobrou a parte do fundo, espremidas, recebendo a benevolência da frente ao serem alimentadas com barrinhas de proteínas, e tendo a oportunidade de realizar os trabalhos mais pesados do trem.

Na real?

Sr. Wilford era um bom dum filho da p…

Vista da sala central de operações da Snowpiercer. A bancada está disposta em U por toda a parede, e existem vários monitores por toda a sala. É possível ver Javier e Bennet
Êêê trem b… Eu falei que não ia fazer isso.

Andre Layton

Eu fui ver Snowpiercer do jeito que eu gosto: Sem saber de nada. Na verdade, quase: Primeiro que ele foi indicação de Bells, o que me obrigou a maratonar a série num final de semana (mas foi ótimo, obrigado!). Segundo que, como já dito, já tinha visto o filme. Mas reconhecer o ator principal pra mim foi incrível. Ele é o Daveed Diggs, protagonista do brilhante Ponto Cego, um dos meus filmes favoritos sobre o debate de raça na sociedade americana.

Aqui ele vive Andre Layton, ex-policial que lutou para entrar no trem no momento da sua partida, e acaba se tornando uma liderança entre os fundistas. Ele é muito mais do que um belo conjunto de tranças, somando uma excelente capacidade de observação – forjada nos anos de serviço policial – com uma capacidade de inspirar as massas que te faz querer levantar da cadeira e pegar lanças para enfrentar Guardas e Operadores.

Citei duas coisas legais, castas e representatividade. Vamos falar disso.

Diversas pessoas estão amontoadas, esperando por algo. André está ao centro, ladeado por Bess e Ruth.
HOOOOOLD

Representatividade

Se o Snowpiercer é uma arca que mantém a humanidade (e vários seres) ainda vivos no planeta, é claro que o elenco tinha que ser muito diverso. E é: dentre os fundistas temos negros, brancos, latinos, australianos (risos), falantes de mandarim, asiáticos. Mulheres, homens e transsexuais. Casal lésbico ativo (Till melhor personagem). E a maior representatividade de todas: a primeira classe é majoritariamente branca. Quer precisão maior?

Não é perfeito, claro. Por mais que se entenda o motivo da primeira classe ser bastante branca, de maneira geral a maior parte do elenco também é. Se por um lado temos uma pessoa queer tendo um papel chave durante a série por muitos episódios, ela é basicamente muda, sendo mais uma “executora de funções” do que um agente ativo. E os militantes anti-palmitagem podem se irritar, com a quantidade de casais inter-raciais que a série mostra. Mas aí… bom, enfim, não vou entrar nesse assunto.

Bess está ensanguentada, usando roupas leves. Ela está na Terceira, do Snowpiercer
Ela errou um pouco na hora de passar a maquiagem

Castas no Snowpiercer

O trem tem uma sociedade de castas bem definida. Então temos, principalmente, os moradores da Primeira, Segunda e Terceira. Os “primeiranistas” puderam pagar pelos ingressos, então tem acesso a todo o luxo que a frente do trem pode prover – afinal, A Locomotiva Proverá. Os segundanistas… tão aí, não fedem nem cheiram. Os terceiranistas não puderam pagar pelos ingressos, logo pagam com trabalho. Tem direito a um alojamento, mas são basicamente o proletariado: a maior parte dos habitantes do trem, porém com poucos direitos, e que fazem a maior parte do trabalho duro. Mas ainda não são os Fundistas.

Esses, quase 400 almas, invadiram o trem no dia da sua partida, tentando sobreviver ao fim do mundo. Vivem amontoados em beliches improvisados, comendo… o que dá. A Frente provê barras de proteína, e isso é tudo o que eles têm. Com frequência são chamados para os trabalhos mais pesados e desagradáveis. Tem uma pequena chance de ascensão social, mas é rara. Também, são mal vistos por todo o trem, como se fossem a escória da humanidade. Qualquer semelhança com pessoas periféricas na linha da pobreza não é mera coincidência.

Também existem os cargos dentro do trem. Temos profissionais de higienização, do trato de animais, de agricultura. Seguranças e pessoas da “organização”, como se fosse exército e polícia. Temos os engenheiros, que fazem manutenção do trem, e tem que lidar com o frio. Temos as Secretarias, responsáveis pela organização e comunicação do trem. E por fim, temos os Maquinistas. Talvez os profissionais mais próximos da Locomotiva, por tanto os mais importantes.

Só ficam abaixo de Melanie Cavill.

A familia Folger. Ao centro, Lila. à direita Robert. E à esquerda, LJ. Estão na ala da Primeira do Snowpiercer
Rico nem precisa se esforçar pra ter cara de pau no …

Melanie Cavill

O Snowpiercer não anda sem Melanie Cavill. Pode ser uma hipérbole, mas em certos níveis é uma afirmação literal. Melanie, vivida por Jennifer Connelly, é a líder da Secretaria (Hospitality, no original). Ela é responsável por verificar e atender aos interesses da primeira classe. Também, é ela quem inspeciona as produções da Agricultura e dos setores de animais. Ela coordena os organizadores e os seguranças. Ela gerencia os recursos de todo o trem. Além disso, é engenheira de formação, tendo grande participação em debates sobre a manutenção do trem e da Locomotiva. 

Porém, ainda mais importante que isso, Melanie é a pessoa mais próxima à Wilford. A única que ainda mantém contato direto com ele, depois que este decidiu por se fechar na locomotiva desde a partida.

Pois é. Nesse microcosmo, Melanie é a voz de deus.

Então é claro, não só ela é uma Rainha nesse estreito tabuleiro de xadrez, como desde bispos a peões tem interesse em derrubá-la.

Melanie está usando um longo preto, sem decote, mangas longas, brilhante. Ela está na beira da varanda de uma pista de dança, com cabelos soltos
Poderosíssima

Snowpiercer e a Religião

A Locomotiva Eterna é um motor de moto-perpétuo (só aceita) capaz de correr o mundo inteiro, gerando eletricidade no seu caminhar, perfurando geleiras (como o nome Snowpiercer propõe) e coletando água no processo. A combinação dos dois permite a criação de vegetais e animais, que alimentam os humanos. Essa Locomotiva foi idealizada por Wilford. Portanto, ambos têm aspecto divino dentro do trem. A Locomotiva Proverá é um dos motes usados. Quem está próximo de Wilford, como Melanie, não fala só por si, mas também por Ele. É muito interessante essa dinâmica, porque… 

É meio engraçado, quando se olha de fora. Tipo, louvar um motor de trem? Como assim? Idolatrar um cara? Que porra é essa? É meio bobo. Mas… não é o que nossa sociedade faz com personagens históricos, como os fundadores de um país? É o tipo de respeito que se dá aos sacerdotes religiosos, por exemplo. Não é aspecto divino que se dá à instituições ou métodos socioeconômicos, como a república, a democracia, ou o capitalismo? Posicionar a locomotiva, o trem, as estruturas internas, o próprio Wilford como divinos faz com que a situação não precise ser questionada. Mas se se lembrar que Wilford é só um cara, cara esse que estabeleceu uma estrutura de castas muito escrota; que é só um trem; e que tem PESSOAS vivendo ali dentro de maneira sub humana; aí sim as coisas podem começar a ser mudadas.

Na sala das Gavetas, Melanie (em seu uniforme de secretária) e Andre (numa roupa que lembra de um presidiário). Estão ambos com as mãos próximas, à frente do corpo (André está algemado). Atrás deles, Roche (Mike O'Malley) está esperando por algo.
Muito poder num ambiente só

Política no Snowpiercer

Com tudo isso que foi dito, podemos chegar naquela que é a parte mais interessante de Snowpiercer: as questões políticas. O filme era muito interessante, e tinha uma questão de articulação social nele. Mas era muito mais direto e reto, muito mais avançar e guerrear. Claro que, a cada vagão novo, uma nova reflexão era feita, uma nova metáfora surgia (quer cena mais poderosa do que uma professora da elite atirando contra os fundistas?), ou uma nova sequência de ação de tirar o fôlego acontecia.

Porém, acabava faltando essa dimensão político-social da situação. Como as classes interagem entre si? Quais as dinâmicas de poder novas? Como lidar com a escassez de recursos? Recursos escassos para quem? Até onde vai a influência de alguém da primeira classe? Qual o potencial de uma greve? Como danos ao trem podem afetar essas dinâmicas (afinal, o mundo material prevalece sobre dinâmicas sociais)? Podem haver drogas? E tráfico? 

No final das contas, é isso que vai te deixar preso à Snowpiercer. Eu sou muito ruim para ver furos de roteiro em seriados, porque são uma narrativa muito longa. Mas a maneira como as situações são orquestradas e encaixadas são fantásticas. Te faz acreditar na “premissa idiota” que eu citei parágrafos atrás. 

No vagão escolar do Snowpiercer, várias crianças (incluindo Miles) estão olhando para trás, como se ouvindo alguém. Na frente da sala, a Sr. Gillies (Fiona Vroom) observa com orgulho
SALVEM A PROFESSORINHA

Tecnicidades

A parte mais fraca visualmente de Snowpiercer são os efeitos computadorizados. Ainda são bem bonitos, mas parece uma geração defasados. Para nossa sorte, não aparecem muito. Os cenários, por outro lado, são excelentes. Te fazem acreditar num ambiente claustrofóbico de um trem, mas ao mesmo tempo fica muito claro que é um trem gigantesco. Os vagões da primeira são ricamente luxuosos, e os do fundo são precisamente caóticos.

A sonoplastia nos permite esquecer que estamos num trem, mas de vez em quando ouvimos os seus gritos, que nos fazem lembrar que a série se passa num tubo de metal articulado. E o cuidado de fazer com que a câmera tenha pequenos tremores, emulando o balanço do veículo tem um quê de fenomenal. O seriado não é dirigido nem escrito por Bong, mas ele é creditado como produtor executivo. E, se por um lado, a história geral da série de Snowpiercer é diferente da que vemos no filme, por outro o visual, os debates, e a “pegada” estão todos aqui.

Só espero que ninguém termine dizendo que faltou empatia com os ricos de novo.

Em primeiro plano, Andre e Melanie estão de frente um para o outro, olhando para o lado (na direção do leitor). Ao fundo vemos Ruth de braços cruzados.. Atrás de Layton, Osweiller olha para cima.
Unindo o clássico ao contemporâneo

Vamos falar da premissa de Snowpiercer

Gente, vamo combinar? Porque assim… Vocês sabem. Vocês também sentem isso. 

Que a premissa de O Expresso do Amanhã é COMPLETAMENTE IDIOTA! Como assim, os cientistas estavam tentando esfriar o planeta, e CONGELAM ELE? Que cientistas eram esses? O Osmar Terra e o Weintraub? Estudaram o curso do Olavo de Carvalho? Sem nem parar pra pensar na quantidade de energia necessária para ESFRIAR (ou seja, retirar calor) de um PLANETA SUPERAQUECIDO. Deve ter sido joia.

Mas mesmo que a gente aceite tudo isso, a melhor forma de fazer a humanidade sobreviver… ERA UM TREM? Como assim? Não era uma base subterrânea, ou até aérea que fosse. Até mesmo outro planeta. Um trem era a melhor ideia? Claro, fica claro na série que a movimentação do trem faz com que ele gere energia interna. No filme, também, fica claro que a cada choque contra uma geleira, o Snowpiercer coleta o gelo e armazena água. Dá para aceitar? Só porque a gente tá com boa vontade.

Osweiller (Sam Otto) próximo à grades, numa iluminação azul, com olhar muito sério
Arrombado.

Encerrando

O plot central do seriado não é a investigação policial, mas sim a revolução planejada pelos fundistas. Eu tenho UMA PORRADA de coisas pra falar sobre isso, mas esse texto já está enorme. Eu to com pena não só de você, leitor, como do meu revisor. Então vamos parar por aqui, e em breve escreverei um novo texto sobre isso. NESSE TEMPO, se você ainda não assistiu Snowpiercer, corre. Ou não, não precisa. Todos os episódios já foram lançados na Netflix, sendo que o último (o décimo) foi publicado dia 12/07. Os episódios tem em média 45 minutos, e dá pra fazer uma Maratona de Sofá™ num final de semana. Terminem a série, e POR FAVOR, venham me cobrar um novo texto, falando sobre revolução, pós revolução, e suas representações na mídia. Abração, e não se esqueçam:

UM FUNDO!

(Lá ele)

[1] Vamo combinar, é uma tradução bem ruim. Na verdade, ela nem seria tão ruim, se a tradução direta não fosse “Perfuraneve”, que é um nome muito melhor.

[2] Eu entendo se você não gosta do Capitão America. Mas ele manda muito bem nesse filme.

Em primeiro plano (Desfocada) Audrey olha para trás, sendo acompanhada por Till e Andre. Estão num dos corredores do Snowpiercer
Que trio!

Momento P.S. (Pode Spoiler):

Gente, dois negócios sérios aqui.

Primeiro: Eu achei o gancho pra próxima temporada UMA BOSTA. Eu tava achando que a transmissão de rádio que o Snowpiercer tava captando era de sei lá, um povoado, uma cabana, um bunker… OUTRO TREM? QUE PORRA É ESSA? Não basta uma ideia idiota, tem duas? Fora que… caralho brother, a filha da Melanie? ‘Cê me jura? Pqp…

A segunda é que eu tomei um spoilão da próxima temporada. Só vou dizer que o Sean Bean vai participar da série, e que o papel dele… Procurem saber. E eu já posso adiantar: Preferia que não aparecesse.

Deitado numa maca, Miles olha , com aspecto cansado, para uma enfermeira (vemos apenas o seu braço)
Davies

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

4 Comentários
  1. Responder Breno Modesto 17 de abril de 2021

    "Não é aspecto divino que se dá à instituições ou métodos socioeconômicos, como a república, a democracia, ou o capitalismo? " Faltou citar socialismo, comunismo. E quando fala da idolatria de pessoas, faltou falar de líderes políticos com Mao, Fidel, Kim Il Sung. Então, novamente... Enfim, a hipocrisia.

    1. Responder Fernando Medeiros 27 de abril de 2021

      Faltou, sim. Porque eles não cabem nesse texto, simples assim. Mas tem razão, o endeusamento de lideres foi usado em diversos sistemas políticos na história, por todo o mundo.

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