BL – Um texto informativo!

BL – Um texto informativo!

 Você sabe o que é BL? GL? Fujoshi? Shipper? Já ouviu o termo Shonen-Ai? E Yaoi? Não? Calma, calma não criemos pânico! Porque hoje eu tô aqui para te contar sobre todos esses termos e muito mais! 

BL ou Boys Love, em tradução literal “amor entre garotos”, é o termo mais abrangente para explicar uma cultura gigante que atravessa oceanos e une mulheres de idades, cores, credos e línguas diferentes. Por ser uma cultura de nicho, existem algumas particularidades sobre o termo e seus consumidores que confunde quem está de fora.

Com esse texto eu pretendo te informar um pouquinho sobre o que é BL, e o que ele envolve, para isso tomaremos os Estados Unidos e o Japão como base.

Contexto histórico: Estadunidense – Shippers.

Shippar: Abrasileiramento do termo Shipping: Retirado do termo relationship, ou seja relacionamento. Shipping é um ato traduzido no desejo de que dois ou mais personagens sejam um casal (trisal, poliamor, etc). O ato de shippar um casal te torna uma shipper, e ele é primeiramente datado nos anos 70, quando fãs do seriado Star Trek começaram a trocar cartas sobre Spock e Kirk, personagens de mesmo gênero que não eram um casal, mas que elas desejavam que fosse. 

Imagem de Spock e Kirk, no Star Trek original dos anos 60.
Spirk ou melhor Spock e Kirk

Essas fãs passaram então a trocar cartas sobre a série, personagens e casal predileto delas, e depois encontrando-se para conversar sobre o assunto, e produzir conteúdos juntas.  No entanto a palavra shippar só torna-se relevante nos anos 90, com Mulder e Scully, protagonistas do seriado Arquivo X, o casal tornou-se Canon, e com eles a cultura de shippar casais se solidificou.

Shippar não é um ato restrito apenas a casais do mesmo gênero, ele também ocorre entre casais de gêneros diferentes, e em alguns casos também pode ser relacionado apenas a amizade.

É aí que entram alguns termos importantes:

OTP: One True Pair – O seu casal predileto, ou em tradução literal: O único casal verdadeiro. Você sempre pode torcer para que inúmeros casais em uma obra, no entanto o seu OTP é o seu casal principal, aquele que você deseja que fique um com o outro e com mais ninguém. 

Brotp: Personagens ou pessoas que possuem um grande laço de amizade, e você torce por ela. O seu OTP da brotheragem, usualmente um relacionamento forte de amizade é chamado de Bromance.

Canon: Aquilo que está posto. O que ocorre de fato na obra original. Dentro desse termo nós temos o Canon Ship, ou seja, o casal que fica junto na obra. Uma pessoa também pode torcer para que um casal cânon, ou acontecer do seu ship se tornar um casal canônico. 

Derek e Stiles do seriado Teen Wolf deitados no chão da delegacia.
Quem me iniciou nesse mundo: Stiles e Derek – Sterek é nome do ship.

Fanon: Aquilo que é idealizado, produzido e consumido pelos fãs. Casais não canônicos são a estrela do Fanon, e é onde os fãs brilham mais, produzindo conteúdo para estes Ships. Alguns ships fanon podem tornar-se canon, entretanto, usualmente isso não ocorre.

Fanservice: De forma solta, o fanservice é quando o autor da obra, inclui elementos “não necessários”  apenas para agradar uma parcela da audiência. Por exemplo, quando um ship possui uma Fanbase muito grande, o autor pode incluir mais cenas deles, ainda que não os torne canon para agradar os fãs. Nem sempre é algo positivo, podendo significar inclusão de cenas eróticas em demasia, ou queer baiting.

Queer Baiting: É quando para atrair o público LGBTQ+, os produtores de determinada obra investem em na química, tensão romântica e ou sexual de um casal do mesmo gênero que eles não possuem a mínima intenção de desenvolver. O objetivo do queer baiting é o lucro e a promoção da obra, por saber que o público LGBTQ+ vão consumir obras na esperança de obter representatividade.

Slash/Femslash: São ships devotados a torcer por casais do mesmo gênero. Provavelmente o maior quinhão do universo shipper, justamente por maior parte das obras românticas produzidas serem voltadas para o conteúdo heterosexual. É aqui que a mágica acontece.

Rubi e Safira do desenho Steven Universo se abraçam.
Casal canon também pode ser ship: Rubi e Safira!

Crackship e Ghostship: Coloquei estes dois em conjunto, pois eles são impossíveis de serem realizados. Ghostship é shippar personagens que morreram no decorrer da obra; Já Crackship ocorre quando são personagens de obras diferentes; Não se conhecem/nem vão se conhecer; Ou existe uma impossibilidade gigante do casal acontecer, ao exemplo de Faustão e Selena Gomez, ou Péricles e Billie Elish. 

Dito tudo isso você deve estar se perguntando, o que as pessoas que shippam fazem?

Fanfic: Em tradução literal, a ficção criada por fãs, variada e existe a milhares de anos. Duvida de mim? Pense aí num livro qualquer inspirado na Bíblia. Pensou? Fanfic. Toda e qualquer obra feita por um fã, baseada em outra obra é fanfic. Ah, isso também vale para pessoas que odeiam a obra original tá? Seja Sátira, crítica, obra de escárnio, ou qualquer outra, desde que seja uma ficção, baseada em outra obra, é fanfic. 

FanArt: Mesmo molde, artes produzidas por fãs inspiradas em uma obra original. Todas as obras inspiradas na Monalisa de Da Vinci são fã arts. Ainda nesta seara temos: Fanvideos, fanzines, fan casts…

Stiles e Derek conversam no vestiário da escola, no sonho do Derek. Gif em preto e branco com letras azuis.
Esse gif faz parte de um gifset Sterek que eu fiz anos atrás.

AU: Cenários em que personagens de uma determinada obra se encontram em um Universo Alternativo. Por exemplo, trazer os personagens do Universo de Brooklyn Nine Nine para o universo Harry Potter. As possibilidades são ilimitadas!

Canon Divergence: Divergência canônica é quando uma obra escolhe ignorar o que está posto pela obra original. Ah, Bells, mas toda fanfic não é isso? Não necessariamente. Existem inúmeras fanfics que explicitam partes inexploradas da história, background de personagens, ou são apenas extrapolações possíveis de um determinado universo, ainda sim acompanhando os acontecimentos da obra.

Existem ainda uma gama de outros termos importantes para navegar no mundo das shippers, mas estes são os mais importantes para os iniciantes. Caso vocês tenham interesse, comentem aí embaixo que eu faço uma segunda versão mais detalhada 😉

Contexto histórico: Japonês – Fujoshis

Para iniciar essa parte do manual  tomarei o Japão como base, ainda que não seja o único produtor de conteúdo BL, é um país pioneiro e de grande destaque na Ásia. No Japão, o conteúdo produzido em mangás é subdividido por demografias; E o primeiro ponto a destacar é que esse tipo de conteúdo faz parte da demografia Shoujo. Ou seja, são conteúdos produzidos para mulheres, majoritariamente por mulheres, mas não apenas por/para elas. 

Ash e Eiji se beijam na prisão, quando Eiji visita Ash.
Ash e Eiji de Banana Fish, Mangá japonês de 1985.

Um ponto fascinante é que tal qual nos Estados Unidos, no Japão, o conteúdo BL surge no final da década de 70. Durante a revolução do Shoujo mangá, a geração de 24, composta por Mangakás mulheres na casa dos 20 anos tomou de assalto os mangás Shoujos, e foi ali que as sementes do BL foram plantadas. Feito por um grupo de mulheres que produziam mangás independentes sobre romances entre homens e os compartilhavam na Comic Market (Comiket). Muitas dessas mangakás já escreviam outras histórias, e algumas de suas obras eram baseadas em mangás shounens existentes. Nos anos 80 o conteúdo passou a ser comercializado, tornando-se parte do seguimento Shoujo.

De lá para cá, algumas coisas mudaram:

Yaoi – É nome antigo e em desuso dado ao gênero de publicações sobre casais masculinos do mesmo gênero. Hoje em dia o termo foi substituído por BL, o nosso amado Boys Love. Shonen-Ai, Tanbi e June foram outros nomes utilizados.

Yuri – Contraparte feminina de Yaoi, também caiu em desuso e foi substituído por GL, ou Girls Love. Também surge nos anos 70, e foi conhecido com Shoujo-Ai.

Bromance: Diferindo do uso ocidental, o bromance aqui é quando dois personagens que são originalmente um casal, deixam de ser por questões de censura. Isso acontece com alguma frequência, pois existem muitas obras de casais do mesmo gênero de sucesso, tornando-as produções lucrativas. Por essa razão, principalmente na China inúmeras obras são adaptadas sem que o romance original seja retratado.

Nadeshiko e Rin dividem um prato de comida enquanto acampam.
Nadeshiko e Rin de Yuru Camp.

Bara – São os mangás voltados para o público gay masculino. Apesar de famosa, essa nomenclatura é ocidental, no oriente o nome é Gay Mangá mesmo.

Lemon – Terminologia criada por fãs para definir o conteúdo sexual de uma fanfic. Não é um termo oficial, no entanto se popularizou dentro e fora da Ásia. 

Fujoshi: Em tradução literal garota podre, Fujoshi é um termo pejorativo que foi reclamado pelas consumidoras de conteúdo de casais do mesmo gênero. O termo que ainda é visto com conotações obscuras, é atualmente utilizado por inúmeras garotas interessadas em conteúdo BL com muito orgulho. Incluindo esta padawan que vos fala.

Fudanshi: É a contraparte masculina da fujoshi. Sim, meu caros, existem caras que não necessariamente gostam de outros caras e ainda sim torcem para ver dois machos se pegarem! Ser Fujoshi e Fudanshi não indispensavelmente significa dizer que você faça parte do espectro LGBT, mas não exclui esta possibilidade.

Fujin – Pessoa podre, a versão mais inclusiva do termo.

O que são essas produções?

Mangá – Mangás são os quadrinhos Japoneses, além de não serem coloridos, via de regra, serem lidos da direita para a esquerda; 

Minare e Mizuho de Namii Yo Kitekure

Manhua – Já os Manhuas são os correspondente chineses, e a sua ordem de leitura muda de acordo com onde ele foi produzido. Manhuas da China Continental, são lidos da esquerda para direita; Os produzidos em Taiwan ou Hong Kong são lidos como mangás.

Manhwa/WebComics –  São quadrinhos online. Feitos para um formato diferente de consumo, são lidos da esquerda para a direita; Coloridos, conquistaram um grande público jovem. A Coréia se destaca fortemente no gênero, possuindo inclusive empresas que licenciam o conteúdo BL em webcomics por aplicativos, como a Lezhin. 

CD Drama – Uma coleção de arquivos de áudio gravados por atores. Podem fazer parte de um compilado da obra original, que usualmente é um livro. CD Dramas são como um rádio de interpretação que conta a história sem o elemento visual.

Fansub/Scan – Além de fanfics, doujinshi, fãs também ajudam na democratização do conteúdo, permitindo que pessoas que não falam a língua original tenham acesso a obra. É onde entra o trabalho dos Fansubs, que fazem legendas; dos Scanlators, que traduzem os mangás/manhuas/manhwas/livros e light novels.

Doujinshi: São as publicações independentes, ou em paralelo “as fanfics” dos mangás e manhuas. Usualmente feitos com personagens de animes, novels, mangás e games.

Fetichização: Ação ou efeito de fetichizar, de tratar como fetiche ou de transformar em fetiche (objeto a ser cultuado). [Psicologia Patologia] Ação de reduzir a fetiche, de transformar algo ou alguém num objeto erotizado ou usado para saciar os desejos de alguém.

Fetichização. 

Obviamente que como atividade produzida por pessoas, problemas vão ocorrer. E é claro que dentro desse pequeno universo existem inúmeros problemas também.

Uma das grandes questões negativas relacionadas ao BL é a fetichização. Por ser um conteúdo produzido de mulheres para o consumo de outras mulheres, sobre relacionamentos masculinos, durante muito tempo não existiu uma preocupação para com a forma que gays são representados nas obras. Obras estereotipadas, em que existem papéis de gênero atribuídos para os personagens; Ignorância sobre o corpo e a realidade masculina; romantização de abuso e estupro; entre outros permeiam obras do gênero.

É importante que se diga que quando criado, o BL, foi uma forma de mulheres pressionadas em uma cultura patriarcal pudessem não só dar vazão a sua criatividade, mas também criticar e ironizar a hegemonia masculina opressora. Com o tempo, a caricatura deu lugar ao homoerotismo como forma de expressão dessas mulheres, vozes que podiam falar o que elas não poderiam. O BL se torna um espaço livre de manchas causadas pelo patriarcado, um romance que não seria marcado pelo desequilíbrio de poder que cerca as relações entre diferentes gêneros.

Ao longo dos anos, é possível perceber um esforço para criar obras que fujam dos estereótipos e abandonem a ignorância e obscurantismo que acompanharam a criação do gênero para trás. No entanto, ainda hoje várias obras pecam e reproduzem esses estereótipos, e elas existem por que ainda existe um público consumidor.  O problema aqui está em transformar algo que representaria um relacionamento real, em algo erotizado apenas para realizar seus desejos.

Reduzir pessoas a um fetiche é problemático, retira as multitudes e subjetividades, subjugando-as a apenas um objeto, o que é extremamente perigoso. Quando se despersonaliza uma pessoa, se perde também a noção do que é certo ou errado. Coisas como consentimento deixam de possuir importância, e qualquer coisa é permitido.

Cultura do Estupro: comportamentos sutis ou explícitos que silenciam ou relativizam a violência sexual contra a mulher. A palavra “cultura” no termo “cultura do estupro” reforça a ideia de que esses comportamentos não podem ser interpretados como normais ou naturais. Se é cultural, nós criamos. Se nós criamos, nós podemos mudá-los.

Cultura do Estupro

O que nos leva a um segundo e grande ponto negativo dentro dessas obras: Cultura do Estupro. O termo que existe desde os anos 70, foi criado para indicar ações explícitas ou sutis que relativizam ou silenciam a violência sexual contra a mulher. A cultura do estupro é responsável pelas pessoas transferirem a culpa da violência para a vítima, e não o agressor. Estupro é sobre o poder, não sobre sexo, não é algo prazeroso para quem é submetido, é sobre a satisfação de alguém sobre outrem. 

Perpetuar abuso, violência sexual, manipulação psicológica, na mídia contribui com o ciclo vicioso por normalizar esses atos. Ao normalizar esse conteúdo nas mídias, você dessensibiliza o consumidor, tornando-o indiferente para essas mazelas sociais.  É necessário que exista um respeito e cuidado ao tratar de temas tão sensíveis, que muitas dessas obras não possuem. 

Todos esses pontos levam a constatações assustadoras. No ano de 2018 quase 7 mil casos de crimes sexuais foram registrados no Japão. O desesperador é que este não é um número absoluto, já que devido a legislação vigente, maioria das vítimas não denuncia as violências sofridas.

Pedofilia: Trata-se de uma doença, um desvio de sexualidade, que leva um indivíduo adulto a se sentir sexualmente atraído por crianças e adolescentes de forma compulsiva e obsessiva, podendo levar ao abuso sexual. O pedófilo é, na maioria das vezes, uma pessoa que aparenta normalidade no meio profissional e na sociedade. Ele se torna criminoso quando utiliza o corpo de uma criança ou adolescente para sua satisfação sexual, com ou sem o uso da violência física.

Pedofilia

Um terceiro grande ponto negativo dentro dos BL’s  é a pedofilia, e tal qual a romantização do abuso e estupro, esse ponto é desconcertante. É assustador que existam nichos específicos de consumo de conteúdo criminoso. Em 2015 a ONU solicitou que mangás com conteúdo pedófilo sejam retirados de circulação no Japão, no entanto, se utilizando do argumento de liberdade de expressão o conteúdo continua sendo vinculado e produzido até os dias atuais. 

No ano de 2018, 1423 casos de pedofilia foram registrados em seis meses. É impossível olhar um número ultrajante deste e imaginar que o consumo de pedofilia não tenha relação a ele. No momento, o Japão e outro países, inclusive o Brasil, foram avaliados em conjunto com outros 58 países no Out Of The Shadows, índice que analisa como os países combatem o abuso e exploração sexual infantil e aparecem respectivamente em décimo e décimo primeiro lugares. 

Existe um grande estigma que impede a denúncia e contribui para o descaso da violência sexual masculina. A cultura heteronormativa e machista fere inclusive aos homens, por desencorajar as denúncias, minimizar as situações por medo da demonstração de vulnerabilidade, algo que é relegado apenas a mulher. Por essa razão meninos também estão suscetíveis a sofrer abusos, e será menos provável que eles denunciem.3

Misoginia: A misoginia é um sentimento de aversão patológico pelo feminino, que se traduz em uma prática comportamental machista, cujas opiniões e atitudes visam o estabelecimento e a manutenção das desigualdades e da hierarquia entre os gêneros, corroborando a crença de superioridade do poder e da figura masculina pregada pelo machismo.

Misoginia

O último cavaleiro do apocalipse dos pontos negativos é a misoginia. Parece estranho até pensar que um conteúdo produzido em sua maioria por mulheres, para mulheres, possa perpetuar misoginia, mas infelizmente não só é possível mas é comum.

A misoginia é outro sintoma recorrente em obras BL, usualmente as personagens femininas são chapadas, e sem complexidade. A mulher só pode desempenhar três papéis: A megera, presente na obra apenas para servir de empecilho para que o relacionamento amoroso se concretize;  A amiga, que shippa os personagens e faz de tudo para que eles possam estar juntos; E o alívio cômico, que usualmente é uma fujoshi estereotipada e sem noção.

Compreendendo que ainda que criado inicialmente para mulheres o conteúdo BL se popularizou, há de se perceber que existem homens que consomem este conteúdo. Sejam eles parte do espectro LGBTQ+ ou não, estes homens terão contato com uma visão nociva das mulheres presentes nesta obra. O que muito provavelmente irá reforçar as noções machistas preconcebidas da sociedade que ele faz parte.

Não só isso, reforça também a antipatia e ódio entre as mulheres. O ato de estereotipar alguém retira desta pessoa a possibilidade ser nada além do que sua visão sobre ela permite. Retira a sua subjetividade, seus motivadores, e influências e a reduz a um simulacro da realidade. Imagine sempre ser visto pela visão de quem não gosta de você?

Mulher negra, de camiseta branca, sob um fundo amarelo, refletindo.

Reflexão sobre o consumo

A produção de conteúdo que contenha esses temas pode sim ser feita, desde que seja de forma crítica. Na intenção de elucubrar o assunto, expandir a discussão e combater estes problemas reais, utilizando as mídias como método de discussão e disseminação de informações pertinentes sobre o assunto.

Um outro ponto a ser levado em consideração é: Não discutir as vicissitudes dentro de cada nicho contribui apenas para o preconceito e a desinformação sobre o assunto. Tornando-o ainda menos palatável para possíveis novos consumidores, e mais esdrúxulos para pessoas preconceituosas. 

Meu ponto aqui é simples, ao consumir conteúdo de forma acrítica, você perpétua todas estas mazelas sociais, e reitera que isso é normal. Utilizando frases como “Isso é a cultura deles” você também diminui e invisibiliza o trabalho de ativistas que lutam contra todos esses problemas diariamente. O correto é se informar, ouvir e aprender com as críticas feitas sobre essas obras. Por essa razão não desejo, nem irei apontar meu dedo para obras específicas, pois este não é o ponto do texto. 

Personagens do anime The Highschool Life of a Fudanshi Sakaguchi e Nishihara
Personagens do anime The Highschool Life of a Fudanshi Sakaguchi e Nishihara

O positivo sobressai.

Dito isso, como fã e participante ativa deste mundo, acredito que existem muito mais acertos do que erros. Os espaços para fãs em que se compartilham histórias, arte, vídeos e tantos outros conteúdos, funcionam como um porto seguro para a troca e a exploração pessoal. Por ser um conteúdo em sua massiva maioria produzido para mulheres e por mulheres, o BL é muito discriminado ainda hoje. 

Sabemos que dentro de uma cultura e sociedade patriarcalista, o homem quer ser centro de tudo, é o primeiro na hierarquia. Por essa razão, tudo que fuja do escopo de desejo masculino é rejeitado, inferiorizado e deslegitimado. E é exatamente nessa seara que BL e conteúdo produzido por fãs se encontra. Aqui o consumidor é mulher, o produtor é mulher, a forma com a qual os personagens são descritos é a desejada pela mulher, e isso muda o jogo completamente.

Para muitas mulheres, esses espaços são retratados e descritos como o primeiro momento de libertação da imaginação e exploração da sexualidade delas. Locais onde a troca de saberes, o compartilhamento de gostos e a afinidade por temas indesejados pela sociedade em que estas mulheres estão inseridas, é permitida e festejada. É o espaço do afeto, da performance, da criatividade. Para muitas acaba se tornando até trabalho.

Uma fujoshi feliz lendo seu mangá BL em baixo das cobertas.
Uma fujoshi feliz lendo seu mangá BL em baixo das cobertas.

Considerações Finais.

Por estas razões, o positivo prevalece sob o negativo aqui. Afinal, todo amontoado de pessoas em torno de algo há de gerar reflexos positivos e negativos;  Desde que a comunidade esteja ciente e disposta a trabalhar em suas mazelas, não há razão para a demonização da mesma.  Ademais, acredito que informação é o meio mais efetivo no combate aos conceitos pré concebidos sobre o assunto, e por essa razão espero ter feito minha parte aqui. 

Como sempre, espero que vocês tenham gostado, estejam seguros e hidratados. Um beijão e até a próxima.

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

2 Comentários
  1. Responder Jade Ohara 12 de março de 2021

    Que artigo excelente! Muito esclarecedor e importante! Obrigada

    1. Responder Isabel Barbosa 13 de março de 2021

      Eu que agradeço!

Deixe um Comentário