Angola Janga – Fuga para o retorno

Angola Janga – Fuga para o retorno

Na primeira versão do editorial que escrevi pra esse mês, eu fiz um contexto histórico bastante longo, o que deixou meu texto meio… confuso. Porém, fiz um resumo histórico bem legal sobre Zumbi, e Palmares. Meu amigo Totoro recomendou a leitura de Angola Janga (2017) após revisar o texto supracitado. Não só isso, como também me emprestou o quadrinho, e me sugeriu que fizesse uma resenha. Atendendo a pedidos, aqui vamos nós.

Capa de Angola Janga. Vemos a ilustração de uma paliçada feita de toras com pontas afuniladas, e uma densa vegetação. Em primeiro plano, lê-se "ANGOLA JANGA". "Marcelo D'Salete". "Uma história de Palmares"
Capa da edição brasileira

Sinopse

No século XVII, em pleno período de colonização do Brasil, diversos pretos escravizados fugiam dos seus cativeiros e se reuniam em quilombos. Assim, em Angola Janga, vemos a história dos últimos anos do maior e mais famoso quilombo, Palmares. Essa narrativa se desenrola pelos olhos de Soares, um dos homens fortes de Zumbi.

desenho feito por linhas. São 9 pontos dispostos num quadrado (1 2 3, 4 5 6, 7 8 9). A forma final é uma espécie de flor, com pétalas pontudas
Um símbolo Sona, que representa Local da floresta onde abundam frutas e animais.

Angola Janga e Marcelo D’Salete

Angola Janga é um quadrinho, de autoria de Marcelo D’Salete (1979). A saber, ele é autor de histórias em quadrinhos, ilustrador e professor. Estudou design gráfico, é graduado e mestre em artes plásticas [1].

Curiosamente, meu primeiro contato com ele não foi através dos quadrinhos, mas sim da sua participação no documentário Guerras do Brasil.doc. Lá ele é identificado como “Historiador e Ilustrador”, o que acaba diferindo um pouco da sua bio em seu site. Mas esta é uma denominação muito justa, uma vez que ele realizou uma pesquisa histórica formidável para que Angola Janga se concretizasse. Como dito pelo próprio, na página 422, esse livro foi realizado ao longo de onze anos de pesquisas. E sim, faz sentido chamá-lo de livro [2], ainda que quadrinho. Tanto pelo número de páginas (430), bem como pela quantidade e riqueza dos conteúdos que nele estão.

Em 2018, D’Salete ganhou o Troféu HQ Mix nas categorias Desenhista Nacional, Roteirista Nacional e Destaque Internacional, e Angola Janga foi premiado na categoria Edição Especial Nacional. Assim também, no mesmo ano o quadrinho recebeu o 60º Prêmio Jabuti na categoria Quadrinhos. Sua outra obra, Cumbe (2014), foi traduzida nos estados unidos como Run For It, e recebeu o Prêmio Eisner de melhor edição americana de material estrangeiro [1][3].

Marcelo D'Salete está numa biblioteca ou livraria. Usando camisa social de manga longa e cinza. Ele usa óculos também. Está falando algo. Está com a mão direita levantada na altura do rosto.
Marcelo, no documentário Guerras do Brasil.doc

O Caminho de Angola Janga

Como já foi dito, Angola Janga é uma história em quadrinhos que retrata os últimos anos do quilombo de Palmares. O nome da obra é uma forma quase carinhosa que seus moradores se referiam ao local, “Pequena Angola”. Palmares, assim como diversas experiências quilombolas, tem uma história e relevância imensas, mas é mais uma parte do nosso passado que esquecemos ou comentamos pouco. Uma história alegórica talvez, daquele tipo que muita gente já ouviu falar, mas sabe pouco ou quase nada.

Angola Janga é importantíssima no resgate dessa história. Sobretudo, tem no seu formato um dos seus trunfos: podemos esperar que as pessoas tenham mais disposição de ler um quadrinho, do que artigos ou pesquisas científicas. A vantagem de se contar com um embasamento teórico muito rico e detalhista resulta em uma obra de grande valor didático e ao mesmo tempo um belo artigo de entretenimento (já abordamos esse tipo de “entretenimento educativo” no nosso artigo sobre o anime Cells At Work!).

página do quadrinho Angola Janga. No primeiro quadro, um personagem está numa vegetação. Ele fala "A picada pra casa da Cuca é essa mesmo, Soares?". No segundo, Soares aparece em pé e o primeiro homem sentado. Esse fala: "Depois de tudo, não podemos...". No terceiro, Soares olha para cima. Uma fala numa caixa de texto diz "Correr o risco de sermos pego...". No quarto quadrinho, aparece a lua sobre uma vegetação densa. No quinto, a lua aparece atrás de uma folha de palmeira. No 6º, Soares em close. Uma fala num quadro onde se lê "De voltar pra vila...". O ultimo quadro ocupa o tamanho de dois. Vemos uma grande roda de moinho.
Página 16 do quadrinho

Dificuldades

Existe um problema, porém. Pouco se sabe sobre Palmares, ou até mesmo sobre seu líder mais famoso, Zumbi. Me permitam uma correção, sabe-se bastante. Estuda-se muito Palmares, há bastante tempo. Mas existem nestes estudos muitas lacunas, também. Não se conhece a origem de Zumbi, por exemplo. Quem era ele de fato? Zumbi era seu nome, ou seu cargo? Pode-se citar, inclusive, a clássica pergunta os reacionários gostam de repetir: “Zumbi era dono de escravos?”. D’Salete preencheu essas lacunoas com seu talento e suas decisões artísticas. Foram criadas histórias complementares, mas ainda assim precisa historicamente (isso é importante), de modo que conseguimos ler uma narrativa completa. Por exemplo, D’Salete define em Angola Janga a história pregressa de Zumbi. Mas baseado no trabalho do pesquisador Décio Freitas. Esse trabalho não foi corroborado pela comunidade acadêmica, e o próprio autor deixa isso claro na última sessão do quadrinho.

No final da obra, inclusive, nos é apresentada uma linha do tempo da história conhecida de Palmares, bem como de um glossário dos termos e nomes que aparecem no quadrinho. Marcelo faz uma espécie de FAQ, descrevendo sua metodologia e também questões que poderiam ter passado em aberto, bem como alguns mapas e diagramas demonstrando o tráfico de pessoas escravizadas de África para as Américas. Entre cada capítulo, também, são trazidos citações e pequenos textos históricos, com referências, para nos contextualizar à cada situação. Ou seja, você não perde de foco a perspectiva histórica enquanto lê Angola Janga.

Ilustração de Angola Janga. Visto do torso para cima, Zumbi está à frente de homens e mulheres. Esses estão armados com lanças e parecem corajosos
Eis Zumbi!

A história

Eu to falando tanto da História por trás de Angola Janga que acabei falando pouco sobre a narrativa do quadrinho em si. Aqui nós acompanhamos Soares, preto escravizado que desiste da alforria e decide simplesmente fugir com um amigo para encontrar o mocambo da Serra da Barriga. Ele se torna, então, braço forte de Zumbi, mas seu destino “será grande e maldito”, como lhe diz a velha Cuca. 

Pelos olhos de Soares vemos o contexto da escravidão naquele final do século XVII, como os luso-brasileiros lidavam com os africanos e e afrodescendentes; qual era a dinâmica de um mocambo/quilombo; quem eram os bandeirantes; como a política e a igreja lidavam com os pretos fugidos, e por aí vai. Para além das contextualizações, vemos também fatos históricos reimaginados. Só para ilustrar: o acordo selado entre Ganga Zumba e a Coroa; a morte do mesmo; a entrada de Domingos Jorge Velho; e até a morte do próprio Zumbi.

Sobre os personagens, é difícil para o leitor ter certeza de quais são reais e quais não são. Boa parte deles são historiograficamente precisos, mas por exemplo, o velho Tata foi um indivíduo específico, ou um arquétipo de diversos Tatas ao longo da história?

Ilustração de Angola Janga, representando um dos bandeirantes
Vade retro

Encerrando

Ler Angola Janga foi como viajar para um passado que é, ao mesmo tempo, muito próximo, e muito distante. Uma das maravilhas do nosso tempo é podermos re-imaginar o passado de forma próxima à como foi o próprio passado, e D’Salete foi brilhante em sua produção.

Palmares era um reduto e uma esperança para homens e mulheres pretos da região, e não à toa tanta energia se empregou em sua destruição e esquecimento. Sob o mesmo ponto de vista, Angola Janga é também uma peça de resistência. Uma forma de resgatar esse passado tão potente, e que não deve ser perdido. Não deixem de ler!

página do quadrinho. No primeiro, vemos uma pessoa usando uma máscara ritual. No segundo, as chamas de uma fogueira. No terceiro, pessoas tocam vários atabaques. Na última, vemos várias pessoas a redor de uma fogueira. No centro, uma pessoa com máscara está dançando. Vemos alguns mocambos (casas). Em primeiro plano, uma torre de vigília.

Notas

[1] https://www.dsalete.art.br/bio.html

[2] O debate “quadrinho é literatura?” vai ficar pra outro dia.

[3] https://pt.wikipedia.org/wiki/Marcelo_D%27Salete 

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

4 Comentários
  1. Responder Felipe Barros de Sousa 20 de novembro de 2020

    Fiquei encantado com o texto, bonitão! Sabia que você gostaria de ver, e que a leitura traduziria num bom texto de avaliação. Espero que possamos ver mais materiais brilhantes como esse, e que possamos falar deles com prazer. :D

    1. Responder Fernando Medeiros 3 de janeiro de 2021

      Poxa, brigado man! Gostei demais do quadrinho, brigado por ter me emprestado. E sim, tomara que a gente descubra cada vez mais obras com essa qualidade

  2. Responder Pedro Henrique Corujeira Pereira 20 de novembro de 2020

    Texto muito bom, Ferna. Esse já é o segundo quadrinho que você indica que vai para minha lista de leituras obrigatórias.

    1. Responder Fernando Medeiros 3 de janeiro de 2021

      Pô, valeu Pedrão! qualquer coisa fala com tots q eu peguei o dele (Mas Bells vai querer antes)

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