Uma das grandes vantagens da ficção é nos permitir fugir um pouco da nossa realidade. O problema é que, algumas vezes, a ficção é tão próxima de nós, que percebemos que estamos vivendo uma realidade distópica. Medida Provisória (2022).

Sinopse
Ao passo que Antônio (Alfred Enoch) tenta defender a medida de ressarcimento aos descendentes de pessoas escravizadas pelos crimes coloniais, é promulgada a Medida Provisória 1888, que tem como objetivo deportar todo indivíduo de “melanina ativada” de volta para a África.
Antes, uns avisos
Gente, vocês bem sabem, o blog parou. Além disso, eu realmente não estou conseguindo escrever muito ultimamente. Tanto por falta de tempo mas, principalmente, por bloqueio. Acho que o processo final do Maratona foi um pouco traumático pra mim.
De qualquer forma, agradeçam a Marleson! Ele fez tanta questão de querer saber a minha opinião sobre o filme, que o “olhar de crítico” voltou com tudo, e deu vontade de não deixar essas ideias só na cabeça, e deixar elas saírem em algum lugar.
Falando nisso, ele não foi a única pessoa a me pedir o texto de uma crítica. Eu peço desculpas a vocês, e eu ainda vou fazê-las. Só que não tô conseguindo.
Comentários
Medida Provisória foi uma boa surpresa. Eu acompanho a Tais Araújo e o Lázaro Ramos no Instagram, e há algumas semanas venho visto alguma movimentação a respeito do lançamento desse filme. Também, a participação do Alfred Enoch, e tudo o mais. Só conseguia pensar “opa, bacana, quero ver”. Nem sabia sobre o que era o filme. Não vi trailer, não vi entrevista (completa), não vi nem pôster direito. E quando os amigos animaram de ver, eu animei de ver junto, na primeira semana. Foi ótimo não saber o que me esperava.

Medida Provisória não é a primeira vez que Lázaro dirige uma obra, mas é a primeira vez em que ele dirige um longa-metragem para o cinema. O filme é a adaptação de uma peça, Namíbia, Não!, escrita por Aldri Anunciação e dirigida por “Lazinho”. Tanto na peça como no filme, é aprovada uma medida provisória que fará com que todo cidadão de “melanina acentuada” seja deportado “de volta” para a África. Parece uma boa ideia? Bom, tanto a peça quanto o filme vem para mostrar os possíveis desdobramentos de uma política de “reparação histórica” como essa, e posso te dar um spoiler: seria terrível.
Na verdade, historicamente, isso já aconteceu uma vez, tá? É basicamente a história da Libéria.

Direção
Aspectos gerais
Assisti ao filme com vários amigos, dentre eles nossa queridíssima Ana, já conhecida aqui do site. Ela deixou claro que parte do filme é uma adaptação ipsis litteris da peça. Como alguém que não viu a versão para os palcos, posso garantir que isso não atrapalha a experiência cinematográfica. Não vou entrar no mérito da quantidade de orçamento do filme aqui (porque eu não sei quanto foi), mas fica claro que é uma expansão muito bem feita. Toda a dinâmica de uma dupla “presa” em seu apartamento se mantém, enquanto que o universo ao redor é expandido. Conseguimos acompanhar mais personagens, mais da política partidária, das dinâmicas cotidianas.

A escrita dos personagens é ótima, e a entrega deles é magnífica. Não seria difícil, claro, com o panteão de estrelas que esse filme possui, mas não podemos deixar de ressaltar isso, porque um mau roteiro pode pôr tudo a perder, e vocês bem sabem disso. Demos sorte de o filme ter ótimos roteiristas.
Fica, então, uma crítica leve: em alguns momentos, na tentativa de trazer uma fala de impacto ao filme, eu senti que algumas frases eram meio “jogadas”, como se faltasse fluidez para a inserção delas. Se vocês quiserem saber QUAIS falas, especificamente, eu vou ter que pedir que vocês me paguem outro ingresso pra que eu possa ir anotando [risos]. Mas podem ficar tranquilos, isso não atrapalha a experiência final do filme.

Lázaro diretor
Falar tudo isso é, na verdade, falar de Lázaro. Essa não é a primeira direção dele para audiovisual, mas é o seu primeiro longa. E mostra o que todo mundo já sabia, que ele é um artista muito talentoso. Lázaro não aparece na frente das câmeras nesse filme, mas se faz presente tanto nos diálogos pesados (em diversos momentos), como nas tiradas de humor que de vez em quando surgem na tela.
Sobre o humor, sem querer fazer um exemplo pejorativo (mas já fazendo, perdão), as piadas aqui não são como em filmes da Marvel, em que tem tanta piada inserida que você deixa de sentir o peso das situações, deixa de absorver os problemas como são. Não: o humor, aqui, é uma quebra necessária numa série de situações muito pesadas e dramáticas e que, sem um pouco de respiro, você pode não aguentar até o final.

Não dá pra falar de roteiro/direção sem deixar claro e explícito que ele não escreveu o filme sozinho. Lázaro teve como companheiros Aldri Anunciação (autor da peça original, também participante do filme), Elísio Lopes Jr. e Lusa Silvestre.
Atuações
Mocinhos
Já pincelei rapidinho a questão das atuações, mas preciso dar mais destaque a isso. Impossível não falar do Alfred Enoch, que não é exatamente um ator novo. Pelo contrário, ele tá aí nas telas desde criança. Mas é a primeira vez dele numa produção brasileira! Inclusive, gerou vídeos ótimos dele dizendo como foi um desafio falar na língua materna. Torcendo pra que ele consiga vir aqui mais vezes, porque ele mandou super bem no papel de Antonio, o advogado idealista que acredita numa forma positiva de conseguir superar as adversidades da MP 1888.
Inclusive, Alfred tem uma química perfeita com Taís Araújo. Se ela já não tivesse um marido incrível na vida real, eu shippava esse casal (inclusive isso gerou muito ciúme no Lázaro). Taís é Capitu, uma jovem médica que tá ali pra mostrar que a) Mulheres são linha de frente b) Muitas vezes uma ascensão social não é suficiente para lhe livrar de opressões. Cabe a ela várias das cenas mais emocionantes em Medida Provisória.

E se o assunto é emoção, a gente não pode deixar de falar do multi talentoso Seu Jorge, que aqui faz o jornalista (e blogueiro) André, que se esforça para estar nos lugares certos e fazer as perguntas incômodas.
Fechando o time dos “Aliados”, temos Mariana Xavier fazendo Sarah, que não pode ser ignorada.
Vilões
Agora, passando para os “vilões” (e se você não considera eles vilões, amigo, vamos conversar), temos as BRILHANTES Renata Sorrah como Dona Izildinha, e Adriana Esteves como Isabel (sacaram?). Quem melhor para estes papéis do que duas das maiores intérpretes de vilãs que a teledramaturgia brasileira foi capaz de nos dar? As duas dão show, a primeira como a vizinha que não gosta de negros mas “não é racista”, e a segunda como uma agente governamental encarregada da execução da MP 1888. Por fim, Cláudio Gabriel interpreta Lobato, um político que “não é racista” mas escreveu a MP 1888, é um dos maiores interessados no seu sucesso e acompanha sua execução de perto.

Trilha Sonora
Talvez uma das partes mais surpreendentes e agradáveis da experiência, a trilha assinada por Kiko de Souza, Plínio Profeta e Rincon Sapiência conta com nomes como Baco Exu do Blues, Elza Soares, Liniker, Cartola, do próprio Rincon, dentre outros. Vai ser muita música preta no seu ouvido durante as 1:43h de filme, e vai valer cada minuto.
Conclusão
Medida Provisória atende todo o hype que você possa estar sentindo. Eu gostaria muito que você visse o filme ainda na primeira semana, mas veja, a intenção dessa resenha era sair antes da quarta-feira dia 20/04, e são 23:43 desta exata data! Vou ficar devendo. Mas se ainda não viu, corre pro cinema, dá essa grana pra produção nacional e mostra que nossa industria tem força (porque tem). Não é por meras questões ideológicas que você deve ir ao cinema ver MP. O filme é, sem sombra de dúvidas, muito bom, e vai alugar alguns apartamentos na sua cabeça. E a gente precisa disso.
Se você já viu o filme, tem alguns pontos dele que eu queria debater por um pouco mais de tempo. Se você quiser, é só continuar a leitura. Talvez fosse mais fácil gravar um podcast, mas eu tava mesmo afim de escrever. Enfim, até já!

Momento P.S. (Pode Spoiler)
Chatices, jornalismo, e o mito de Cassandra
Em uma entrevista, o Leandro Karnal comenta que o Atila Iamarino era tido por uma Cassandra por alguns seguidores. Porém, existia uma coisa fundamental na personagem do mito: Ela estava certa.
Contexto: Cassandra era uma profetisa que, por ser amaldiçoada por Apolo, deixa de ser acreditada pelas pessoas. O problema é que ela fez previsões acertadas, inclusive que Tróia perderia a guerra. O resto é história.

Porque eu trouxe esse negócio nada a ver pra cá: André está, o tempo todo, relatando os problemas da sociedade que aparece em Medida Provisória. Ele é repórter (e blogueiro, adorei a fala “é, eles tão voltando”) então está o tempo inteiro muito atento às notícias mais atuais, que envolvem racismo, o fim da compensação aos descendentes dos escravizados, e o começo da MP 1888. André falava tanto sobre esse fato, que acabou virando chato. As falas dele viraram piada. Até que ele mesmo, depois de um tempo, começou a rir das coisas que aconteciam. Até vir a célebre frase:
“Como a gente pode rir disso?”
Talvez o fato de as falas de André estarem tão dolorosamente próximas da realidade tenham feito com que as pessoas preferirem minimizar o que ele dizia para aliviar um pouco a tensão da situação. Infelizmente, o escapismo é uma ferramenta para ser usada de vez em quando, não o tempo todo.
É claro, precisa ser dito, no “mundo real”, pessoas que tentam trazer uma visão mais honesta da realidade são atacadas constantemente. O Atila é um bom exemplo, mas os cientistas como grupo, os acadêmicos, jornalistas etc. sofrem diversos ataques para serem desacreditados o tempo todo. Mas isso só faz com que o impacto que a realidade nos impõe seja ainda mais forte.
Ministério da Devolução
Como eu já disse, a ideia de um “Ministério da Devolução” não é nova. Tanto porque certamente você já deve ter visto xingamentos como “volta pra África!”, como pelo fato de já ter tido, de fato, um paralelo na história: a Libéria. A História não foi igualzinha a do filme, mas vários dos problemas são semelhantes: uma narrativa que, na superfície, é para ajudar os negros a voltarem a suas raízes mas, na prática, é uma forma de embranquecimento populacional; um embarque confuso e com pouco apoio das populações africanas locais. Vale a pena ouvir um podcast sobre isso.

Mas isso não é só coisa do passado. Vimos casos recentes, no período do conflito da Síria, onde diversos países se recusaram a aceitar os imigrantes saídos das zonas de guerra. Essa retórica anti-imigração ainda é muito forte no velho continente, ao ponto de que nas atuais eleições francesas, um dos candidatos ficou famoso por ideias como o “Ministério da Desimigração”. Que é, basicamente, um ministério da “devolução”. Enfim, nada novo. É isso que assusta.
Face Branca
Um símbolo chamou bastante a minha atenção. Os agentes de segurança responsáveis pela execução da MP 1888 (vou chamar eles de “policiais” a partir de agora, por mais que talvez não seja o melhor termo) usam sempre um tecido branco sobre as faces. Isso é muito interessante porque, não importa qual seja de fato a etnia daquele indivíduo, você vai ver sempre uma face branca. O que é, basicamente, o que boa parte dos “melaninas acentuadas” sentem ao ver um policial, por mais preto que ele seja: uma face da branquitude. Porque suas ações vão estar (no geral) alinhadas com o que a hegemonia branca espera e deseja.
Claro que, se a gente olhar para as mãos dos policiais, a gente vê que eles são pessoas brancas mesmo, no final das contas. Até porque (e isso não é uma contradição da metáfora, mas uma nova elaboração), lembrem-se que o primeiro melanina acentuada a ser capturado, no filme, era justamente um agente de segurança. Ou seja: você pode ser agente da branquitude a sua vida inteira. Quando não for mais conveniente, eles vão lembrar que você é negro. Porque eles nunca esqueceram. Porque nunca aceitaram de fato.

Asiáticos e racismo
Contexto
Um fato anedótico aconteceu quando eu estava na sessão de cinema. O personagem asiático do filme, Kaito (Paulo Chun) fala logo no início do filme que gostaria de ser preto. Quando “a porra já tinha inchado” (como a gente fala por aqui), ele ajuda Antônio e André entregando um celular e uma arma. E fala “vocês tem que resistir. Nós temos que existir”. Isso gerou muito riso no cinema, mas não em mim, porque isso me lembrou de algumas coisas.

Primeiro, de Faça a Coisa Certa (1989) [spoilers], onde próximo ao final do filme, num ato de revolta violenta, os negros do bairro se juntam para quebrar as “coisas de brancos”. Eles acabam indo na direção da quitanda de uma família sul-coreana. Eles estão amedrontados e tentam se defender brandindo vassouras. Em dado momento, o pai da família grita “Você! Eu! Iguais!”. Os revoltosos param, riem, mas vão embora.
Em Lovecraft Country (2020) [Spoilers], um episódio é inteiro dedicado à guerra da Coreia e a participação do Atticus. E mostrando em vários momentos como os asiáticos são inferiorizados e desumanizados, levando a alguns atos de violência racial entre integrantes das duas raças.

Diversos racismos
Onde eu quero chegar com isso tudo: asiáticos não são brancos. E asiáticos também sofrem racismo. Não é a mesma modalidade de racismo que nós, pessoas negras, sofremos, é óbvio que não. Mas boa parte veio para o ocidente, para o continente americano, como mão de obra barata e super explorada. Sem contar, também, no mito da minoria modelo, onde se espera que asiáticos sejam “geneticamente” superiores em questões de exatas, em bom comportamento etc. Esse tipo de “racismo positivo” também atinge pessoas negras, como a questão da disponibilidade sexual, ou da força/resistência exacerbadas, que num primeiro momento pode parecer uma comparação positiva, mas é na verdade uma forma de desumanização.

Para fechar esse bloco: se por um lado, em muito momentos asiáticos reforçam o racismo anti-negros, nós devemos ter cuidado e atenção para não sermos racistas com outras raças que não as nossas, também.
E eu até gostaria de debater sobre o uso de símbolos negros por asiáticos, mas não vai ser hoje não.
“Hoje em dia tudo é racismo”
Uma questão do filme é bem escancarada, na verdade: a forma como pessoas brancas são incapazes de reconhecer as próprias culpas. Você pode promulgar uma lei que te permite prender e deportar nativos do país para outro continente; pode se sentir a vontade de cortar luz, água, telefone e internet de uma casa com pessoas negras; você pode mandar um batalhão de policiais para prender apenas duas pessoas. Mas racista? Não, nunca.
Isso é tão escancarado e eu to tão cansado já desse tipo de coisa que eu nem ia comentar, mas vai que essa é a primeira vez que você, leitor, se depara com ele? Então fica o apelo: enquanto pessoas brancas não forem capazes de entender como seus atos influenciam as outras pessoas, não dá pra ter muita esperança de mudança.
Aliados brancos
Em Medida Provisória aparecem dois aliados brancos principais, a Sarah e o Santiago. Do Santiago vou falar mais depois, vamos nos concentrar na Sarah. por muito tempo, ela foi a única pessoa que conseguia levar alimentos e outras coisas básicas para Antônio e André. Era um pouco de conforto para o André, uma vez que eram namorados. Ela conseguiu transmitir mensagens para eles quando todas as comunicações estavam cortadas. Foi parte dos protestos contrários à deportação tanto deles, como de outras pessoas.
Existem várias formas de ser aliados de alguma causa social. Mas, mais do que discurso, são necessárias ações. Se, quando a situação aperta, você não está lá pra ajudar de fato, que tipo de aliança é a sua? É só retórica?
Pontos conservadores em Medida Provisória
Eu já deixei claro o quanto gostei do filme, certo? O quanto achei ele ótimo, o quanto pra mim é um “precisa ver”, adorei a experiência, tudo o mais. Mas gostar de alguma coisa não deve impedir a gente de ver os problemas dela. Então vamos falar disso. Uma ressalva: como todo o resto do texto, esse é meu ponto de vista. Medida Provisória não se torna “certo” ou “errado” por causa disso.
Pacifismo
Olha, eu não sou a favor de medidas pró-armamento. Não acho que uma sociedade civilizada deveria ter seus membros armados por aí o tempo todo e, se nossa polícia fosse também civilizada, caberia a ela o domínio da força. O problema é que nesse Brasil num futuro próximo, relatado no filme, “esse barco já partiu”. Não existe mais espaço para um pacifismo apoiado numa superioridade moral, de “nós temos que ser melhores do que eles”. Eu até fui favorável em deixar o incel lá fugir, e que bom que isso serviu de propaganda positiva. Mas a empatia que Antônio teve, e não só ele, como também o Berto (Emicida), a Capitu, o Ivan (Aldri Anunciação) poderia significar a morte deles. A morte deles, e daqueles que eles precisavam proteger.
Então assim, não era à toa que os pantera negras, além de fazer medidas sociais e fazer educação dos seus membros e das suas comunidades, também tinham treinamentos paramilitares, com sessões de tiro e de exercícios físicos. Eles tinham plena consciência de que eles já estavam vivendo uma guerra. E sim, concordo com Sankara, “Um militar sem formação política, ideológica, é um criminoso em potencial”. Mas eu tenho certeza que os afro bunkers tinham pessoal e potencial para não deixar que as pessoas se desviassem para esse lado. E não se enganem: numa luta de um cérebro contra uma arma, na maioria das vezes, as armas vencem.
Por que não quilombos?
Medida Provisória tem uma quantidade maravilhosa de símbolos negros e força e resistência. Então porque um dos nossos maiores pontos de resistência, os quilombos, tiveram seus nomes mudados? Porque Afro Bunker? Era pelo fato de não haver plantações ali? Inclusive tinha que ter, né? Como aquele povo todo ia comer se não fosse assim?
Isso é mais uma dúvida do que uma reclamação. Mas não deixa de ser uma reclamação. Sociedades quilombolas ainda existem (o presida odeia, foda-se ele) e elas nunca deixaram de ser um ponto de cura, proteção e resistência. E quando necessário, de ataque também. Qual era a intenção em torná-las bunkers? Um bunker não é um local de defesa, é onde a gente vai para se esconder, e fica à mercê dos recursos locais.

Eu sei, tô exagerando na metáfora, mas é sério: não faz muito sentido.
Aborto
Esse dá vontade de nem comentar muito.
Olha, eu sei que filho é esperança, é uma semente para um futuro melhor e tal. E eu sei, também, que a Capitu não estava com a decisão ainda formada. Mas meu senhor, que necessidade é essa de todo mundo dizer pra ela não abortar? ainda mais com um discurso como “nós vamos precisar de cada um de nós”? Velho, já é um ato de coragem absurdo querer ter um filho na sociedade que nós temos hoje em dia, imagina naquela que está sendo representada em Medida Provisória?

Não sei vocês, mas do meu ponto de vista, ter um aborto num cenário como esse não é um erro moral, é um ato de amor. Que bom que o filme tem um final positivo, porque senão seria um desespero ainda maior o que Capitu e Antônio teriam que passar.
Morte Branca x Morte
Essa é a última.
Pareamento
Quando o Santiago desistiu de trabalhar para Isabel e foi embora, eu achei muito massa. Mas quando ele entrou num bunker e se mostrou namorado do Ivan, aí eu fiquei meio agoniado. Porque velho, você namora um cara preto. Que você sabe (eu acho que ele sabia) que é um líder revolucionário. A MENOS QUE você esteja trabalhando como agente duplo, não tem CLT que dê conta de você continuar num emprego desse. Você está ativamente ajudando na deportação e na morte de várias pessoas iguais àquela que você diz amar.
Mas ai beleza, aquela confusão da porra, vão julgar o cara. Eu concordo que é bem zoado o julgamento porque não era beeem um julgamento, era uma prévia de uma execução. Mas tudo bem, ainda tinham chances. Então levanta a Capitu, com um discurso muito moralista, de que “a gente tem que achar outro jeito”. Mas que jeito? “Eu não sei, mas a gente tem que descobrir”. Olha, eu compro a narrativa da personagem, eu entendo a quebra emocional que ela estava passando, eu empatizei com ela.
Meu problema é com a escrita da cena. Ela não tinha uma proposta real – me corrijam se eu estiver errado – nem ao menos algo do tipo “ninguém deve ser considerado culpado sem provas”. Mas vendo as falas do Lázaro em entrevistas, dá pra entender que esse é muito o ponto dele como roteirista também, não ter certeza de qual caminho seguir, mas saber por onde tentar. Por isso minha “bronca” com essa cena não é maior.

Não é por ser semelhante que é equivalente
O que me pegou MESMO, de me deixar realmente incomodado, foi colocar as mortes de Santiago e André em paralelo, como se elas fossem equivalentes. Elas só são equivalentes no sentido que dois homens morreram. De resto, elas são completamente diferentes, e têm contextos completamente diferentes.
André era um homem negro, estava sendo perseguido há semanas, teve que se disfarçar de branco pra sair de casa (metáforas), se permitiu um momento de prazer e por isso foi capturado e ia ser preso pra ser deportado, e como mostrou resistência, foi assassinado por agentes do estado, cobertos pela lei (excludente de licitude?).
Santiago era um homem branco, por muito tempo conivente com as políticas higienistas promovidas por um estado racista, conivente enquanto se relacionava com uma pessoa alvo, que foi tolo o bastante de ir para o lugar onde as pessoas pretas estavam escondidas (já pensou se ele é seguido?), aterrorizou TODO MUNDO quando chegou (o que é óbvio, ele era uma clara ameaça), não soube se defender (tudo bem, estava sob pressão), e ainda estava COM UM CRACHÁ QUE SIGNIFICAVA MORTE no bolso.
Ambas as mortes foram injustas. Mas elas têm contextos completamente diferentes. “Somos todos iguais” não tem peso aqui. Essa esperança de igualdade foi superada semanas atrás, pelas pessoas brancas. Não cabe a nós (pessoas pretas) AGORA, depois de ter passado por toda essa merda, ter que relativizar e ser “superior”. À nós cabe a resistência e a luta. Aos brancos, o recuo e a autorreflexão.

Agora é o fim mesmo
Gente, obrigado pelo seu tempo. Eu totalmente perdi o ritmo da escrita. Perdi prazo, perdi limite, divaguei demais… Eu não sei se foi uma boa leitura, mas espero que tenham gostado.
Vejam Medida Provisória, é um filme EXCELENTE. Com defeitos? Sim, ué, o que não tem defeitos? Vejam, o fato de o filme não se encaixar perfeitamente nas minhas crenças ideológicas não tornam ele um filme ruim. Ele é, sim, um filme EXCELENTE (repito), mas que, do meu ponto de vista, tem pontos de melhora. Eu sai do cinema adorando o filme, mas sem conclusões prontas na mente. Precisei levar um tempo para digeri-las. O ato de escrever e conversar sobre me ajudaram, além de ver algumas críticas na internet também. Mas quem disser (como eu vi) que o filme é “uma merda” está sendo completamente injusto.
Vale muito a pena sim, vale a pena incentivar o cinema nacional sim, e que ele seja o que a gente sempre espera, uma abertura de portas pra muita coisa boa que pode vir daí.
E que bom que mais um filme venceu a censura descarada desse governo e tá conseguindo ser visto pelo mundo inteiro.
Ah, o Seu Jorge e a Adriana Esteves estão em ambos os filmes. Coincidência?
Abraços!!

