Olha, tem umas horas que rolam umas coincidências do mundo real com os filmes que você fica “putz, qual foi?”. Mas tudo bem, vida que segue. Vamos (tentar) falar sobre Vox Lux (2018/2019).

SINOPSE
Após sobreviver a um atentado na infância, Celeste (Raffey Cassidy / Natalie Portman) é notada como estrela pop em potencial. Assim tem início sua carreira como uma das maiores estrelas pop dos Estados Unidos, e do mundo.

DIFERENTÃO
Tem uns filmes que te deixam perdido. Quebrar os padrões é ótimo, dá uma acordada. Mas não quer dizer que o trabalho final vai te agradar sempre. Então, sendo honesto como eu prefiro sempre ser, eu não gostei de Vox Lux. Mas esse ainda é um sentimento conflitante, então vou escrever e trabalhar isso com vocês.

PARALELOS
A ideia do filme, ao meu ver, é metaforizar o final do século XX, e começo do XXI com a música pop americana, usando Celeste como condutor e avatar dessa analogia.
Porém, essa ligação é fraca, e o simbolismo é forçado. Nós acompanhamos a vida e a carreira de Celeste, e os grandes pontos de virada dela são grandes desastres. Mas se não fosse posto de uma forma tão clara, não seria possível fazer essa ligação. Ou melhor: eu sou um adepto do “mostre, não fale” (Show, don’t tell). E, do meu ponto de vista, essa é uma das maiores falhas de Vox Lux. Todas as coisas relevantes na história são narrados, ou a cena é interrompida. Vou detalhar melhor na sessão P.S.
Isso faz com que, no final das contas, a narração seja uma das coisas mais interessantes do filme. Sendo que, é óbvio que essa é uma decisão a ser respeitada, mas a narração nem precisaria existir.

CONTEXTO
Também, a forma degenerada como muitas vezes o ambiente da música pop e do show business é retratado, me parece uma visão estereotipada. Não tô negando que os problemas em tela sejam reais. Certamente existem, e bastante. Porém, é como se essa degeneração fosse uma expressão das décadas de 1990 até 2017. O que é beeem forçado. E centrado nos Estados Unidos.

VAMOS FALAR DE COISA BOA?
Mas vamos pro que há de bom em Vox Lux, e tem muita coisa. Primeiro a fotografia, não só pela palheta de cores escolhidas, mas pelas decisões de captura e de enquadramento, que sempre valorizam o contexto emocional da cena.
Também, as atuações estão maravilhosas. Raffey Cassidy manda muito bem nos seus papéis. Jude Law, já renomado, também se mostra excelente como produtor. Stacy Martin, vivendo as alegrias e tristezas de ser a irmã de uma celebridade musical, está excelente.
Mas vamos destacar a estrela, Natalie Portman. Que não é premiada a toa, e em Vox Lux ela está realmente incrível. Como ela entra na personagem já numa fase avançada da carreira no showbiz, já tem todos os vícios, defeitos, artimanhas esperados estereotipicamente desse tipo de celebridade. E ela é impecável. De verdade. Os diálogos dela são loucos na medida certa. Caóticos porque vem de uma pessoa caótica. Parabéns.
Em tempo: ela seria, de verdade, uma ótima cantora pop.
Por fim, as músicas, compostas pela SIA, são muito legais. Eu não sou público de música pop nesses moldes, mas já me peguei ouvindo a trilha do filme umas duas vezes (tem no Spotify e no Deezer).

FINALIZANDO
Eu tenho uma categoria mental de filmes que é encabeçada por Donnie Darko. São aqueles que tentam pegar a estética, e se põe uma roupagem de cult, super profundos, com muitas mensagens internas. Mas que na verdade não o são, estão apenas tentando ser vistos como tal.
Vox Lux, no meu ver, cai nesse vale. É um filme que mais do que ser profundo, tenta parecer que é. Eu não odiei. Tive um bom momento assistindo. É uma experiência estética interessante. Mas tem uma narrativa inferior e furada, que não atende o que se propõe. E pra mim é muito isso, “O que o filme se propõe? Ele conseguiu?”.
Vox Lux não conseguiu.

MOMENTO P.S. (Pode Spoiler)
Que citei nos parágrafos anteriores, é dito que Celeste atropelou um homem, lhe causando várias lesões e, não obstante, lhe fez ofensas racistas. Isso não é mostrado no filme, o que é uma grande frustração. Eu entendo terem escolhido não mostrar, mas caramba, imagine que cena incrível não seria. Fora que, é um caso explícito de racismo que é deixado en passant em nome da reconstrução da carreira dela. Mermão, racista não tem que ter segunda chance.
Nos créditos finais (lembrando que o filme tem dois) aparece um subtítulo, “um retrato do século passado” se não me falha a memória, e ela falhará. Ou seja, o objetivo de Vox Lux é (como eu já falei) fazer uma analogia entre a carreira, degradação, queda e ascensão da Celeste com a própria humanidade, porque não dizer. E… desculpa, passa MUITO longe disso. Ele pode ser, sim, um retrato da cultura Norte Americana e Européia ocidental, de classe média, em geral branca. É até meio conservador olhar dessa forma, se você parar pra pensar.
Mudando de assunto, uma coisa legal que eu vi no IMDB é sobre o nome. O diretor Brady Corbet disse significa Voz da Luz. Mas, na real tá errado, deveria ser Vox Lucius. O nome atual só quer dizer “Voz Luz” mesmo.
Imagina você usar tanto produto de limpeza que tu fica cega DE UM OLHO! Caralho!
O show no final é muito massa. Mas meio que… pra que aquela cena tá lá? O que ela acrescenta na narrativa? O que me lembra:
As legendas NÃO TRADUZEM AS MÚSICAS. Sendo que são parte importante da narrativa! Qual foi, gente!?
