Warrior Nun traz tudo que os meus olhinhos gostam de ver: Protagonismo feminino escancarado; relações de companheirismo entre mulheres; sequências de luta incríveis e representatividade étnica, racial e sexual.
Sinopse
A série, que estreou dia 2 de Julho na Netflix, é frouxamente baseada em um quadrinho independente dos anos 90 escrito por Ben Dunn. Warrior Nun conta a história de Ava Silva: interpretada por Alba Baptista, garota tetraplégica que morre misteriosamente ao completar 19 anos no orfanato católico em que vive. Ava é então levada ao necrotério de uma igreja, para que os procedimentos funerários sejam realizados, e é lá que tudo muda.
Personagens Importantes
Ava, é uma ótima protagonista adolescente, doce, inteligente, engraçada, corajosa, curiosa e amável. O que quebra o padrão que a Netflix havia estabelecido em outros seriados (Sex Education, Eu Nunca, Sabrina…), que contam com protagonistas insossos e irritantes. Desde o primeiro episódio, você consegue compreender suas atitudes e comportamentos. Grande parte disso se deve ao recurso narrativo de ouvir o fluxo de pensamento da protagonista. O recurso, que expande o potencial cômico da série, provocando algumas confusões, também humaniza a personagem, afinal, qual de nós nunca expressou um pensamento indevido?
Apesar de Warrior Nun ser centrada em Ava, ainda sim podemos acompanhar um pouco da história dos personagens secundários, e eles brilham. Seja chutando a bunda de humanos nas lutas, dos demônios em exorcismo, ou chutando a própria Ava de um penhasco (AMAY!). Shotgun Mary, ou a mais nova deusa da minha vida, interpretada por Toya Turner, é a mentora que todos nós queríamos ter. Já Irmã Beatrice, retratada por Kristina Tonteri Young; consegue ser doce e feroz ao mesmo tempo, lutadora implacável, que mostra desde os primeiros episódios que fogo brando também queima. Irmã Lilith, interpretada por Lorena Andrea; é o oposto, não há nada de brando sobre ela, ela sabe exatamente o que quer e está disposta a fazer qualquer coisa para consegui-lo.

Existe ainda um outro grupo de personagens que Ava tropeça no início de sua jornada. JC, Zori, Channel e Randall. JC (eu peguei esse easter egg!); interpretado por Emilio Sakraya, é o típico interesse amoroso adolescente, bonitão, extrovertido, com um quê de salvador da donzela em perigo. Zori e Randall aparecem por menos tempo e possuem um impacto menor na trama; entretanto Channel, interpretada por May Simón Lifschitz, protagoniza em conjunto com Ava um dos diálogos mais bonitos de Warrior Nun.
Ava experimenta pela primeira vez o que é ser livre, fazer suas próprias escolhas e descobrir quem ela é de forma tardia. Por ter ficado presa a uma cama desde muito jovem por causa de sua condição médica. Exercer o livre arbítrio sobre quem ela é nunca foi uma opção. O diálogo é sútil e praticamente implícito. Quando Channel conta para Ava que ela também não soube quem ela era por muito tempo, e que finalmente elas podem ser livres para descobrir. A reflexão aqui é real. May Simón é uma atriz e modelo transexual argentina que fez história por ser a segunda modelo transexual a trabalhar para a Victoria Secrets.
Warrior Nun Areala
O quadrinho original é um trabalho de Nunexploitation. Um subgênero do Exploitation, que, em suma, é uma classe de obras apelativas que envolvem freiras que surgiram na Europa em 1970. Em sua maioria, essas obras são caracterizadas por retratar de forma sensacionalista a sexualização da freiras; a opressão religiosa, imposição do celibato, violência, nudismo, lesbianismo e perversão. Diferindo do Blaxploitation, o Nunexploitation não é um movimento que ocorre protagonizado por mulheres para mulheres. Ele é capitaneado por homens, que ojerizam o fato de tanto Freiras quanto Lésbicas estarem emocionalmente inacessíveis a coerção masculina.

Ao finalizar Warrior Nun, procurei o material original para ler, e de cara me senti enojada. Na capa da primeira edição do quadrinho, Shannon, a protagonista original, aparece com um hábito que mais parece uma fantasia sexual. O decote do hábito vai até o umbigo da personagem e as fendas na roupa sobem até o quadril. Parece que ela usa um saco recortado preso por um cinto, do que um hábito de freira. Nem vou falar das cintas ligas de couro… Diálogos e sistemática hierárquica entre os personagens também deixam muito a desejar, o quadrinho em si é pobre e de péssimo gosto. Enfim, uma visão infernal do que é o olhar masculino sobre o corpo da mulher nos quadrinhos dos anos 90.
Subversão do material original
Já na série, os diretores e produtores foram cuidadosos. Não só no trabalho de atualização da obra, tornando o conteúdo mais palatável, crível e moderno. Como também em descartar marcadores chaves do original sem medo. Não há sexualização desnecessária e repugnante em Warior Nun. Nem mesmo nos momentos mais “sexuais” da obra, você não se sente agredido pelo que é retratado. Em nenhum momento Ava aparece com uma versão sexualizada do hábito, ainda que todas as freiras utilizem versões modificadas do mesmo. Na série, as modificações são feitas para proporcionar fluidez e liberdade para as freiras durante o combate. O que é explicitado sejam em cenas de luta, seja quando as mesmas precisam pular cercas elétricas de 3 metros de altura.

Mais do que isso, Warrior Nun se debruça no desenvolvimento do personagem. Boa parte da primeira temporada é dedicada ao conhecimento e descobrimento de Ava. Principalmente ao que tange sua relação com o catolicismo, a fé e a ciência. Existe uma delineação clara sobre o que Ava acredita, suas fichas estão apostadas na ciência antes de qualquer coisa. Ela busca respostas, e não se entrega de cara ao sobrenatural, apenas porque ela também é parte dele agora. Existe um questionamento não só do propósito da igreja; do que e do quanto ela esconde todos esses anos, e principalmente das intenções por trás das ações da instituição.
Os diálogos da série são importantíssimos para a construção de tudo isso. Durante os episódios, Ava aprende muito sobre o mundo, suas injustiças e acontecimentos interpessoais conversando com outras pessoas. A empatia é um ponto importante de Warrior Nun, e cada um dos personagens contando sua história, e vivências ensina um pouco para Ava. Warrior Nun nos mostra que nem todas as narrativas são o que parecem ser. Você pode errar tanto ao julgar os outros, quanto a confiar em alguém. Todavia, para além disso, é importante compreender que com defeitos ou qualidades, todos os humanos erram, e todos eles merecem uma segunda chance.
Considerações finais
As razões para assistir a série são muitas. Eu, particularmente, fui movida a assistir pelo trailer, que focava em trocação de soco franca feita por mulheres fodonas. Sim, admito ser superficial o bastante para isso ser o suficiente para assistir uma obra. Mas Warrior Nun acaba sendo muito mais do que isso. A série é uma grata surpresa do começo ao fim. É coesa, ainda que dividida em mini arcos. O que provavelmente acontece por sua direção ser constituída por 5 diretores diferentes; ainda que Simon Barry assine a série, cada um deles dirigiu 2 episódios dos 10 que formam a temporada.
É testamento do trabalho dos envolvidos que, tirando a premissa base: Freiras Fodonas lutando contra as forças demoníacas; Warrior Nun se desvie bastante do material original, e de forma tão primorosa e bem executada. Só por se inspirar numa história esquecida; atualizar personagens e enredo; pincelar diversidade étnica, racial, sexual, feminismo; fazer inúmeras referências engraçadas e inteligentes sobre cultura pop; tudo isso enquanto critica o patriarcado e a Igreja Católica Warrior Nun já conquistou meu coração. Como se tudo isso não fosse suficiente, a série ainda mata uma saudade minha muito particular: Ver personagens femininas guerreiras marcantes, poderosas e amáveis como Buffy e Xena, sentimento que há muito eu não tinha.
Como sempre, eu espero que vocês tenham gostado, estejam seguros e saudáveis durante a quarentena, maratonando um monte de produções incríveis. Um beijo imenso e até a próxima.