“É realista, triste, melancólico, mas também é cheio de amor, verdade e esperança. Dá pra sentir toda a paixão e coração de Joe Talbot e Jimmie Fails aqui.”

Uma breve crônica sobre a trágica falta de visibilidade de obras incríveis
Eu aprecio muito cinema. Das formas de expressão artística certamente é a que mais me toca. Realmente sou um amante desse tipo de arte. E filmes como esse me fazem lamentar o fato de que existem tantas obras incríveis que eu não vi e nem verei. Histórias que não conhecerei, imagens deslumbrantes de potência estética que nunca chegarão a mim. Certamente você está lendo é uma grande divagação pessoal, mas ainda assim não posso deixar de me colocar aqui dessa forma. The Last Black Man in San Francisco foi lançado há mais de um ano, em fevereiro de 2019. É um filme pequeno. Baixo orçamento, baixa arrecadação, baixa projeção. Mas com um espírito e potência dramática enormes. Poucas pessoas viram essa obra. Aqui no Brasil nem mesmo veio para o cinema. Neste momento não está em nenhum serviço de streaming ou de VOD. É o típico filme de festival. Mas é uma obra tão linda, sensível, humana, certamente um dos melhores filmes de 2019. E meu lamento neste parágrafo é sobre isso. Descobri esse filme lendo sobre uma nova produção do Spike Lee, que possui um ator em comum, e o título me chamou atenção. Foi muito por acaso. Depois de ter a experiência e assistir esse filme, só conseguia me perguntar “como eu não vi isso antes?”.
Sinopse

Cansado de ser passado para trás e ignorado, Jimmie (Jimmie Fails) tem o sonho de recuperar a modesta casa vitoriana que seu avô construiu em São Francisco. Acompanhado por seu melhor amigo, Mont (Jonathan Majors), ele inicia uma jornada para conseguir conquistar o que é seu de direito dentro de uma cidade que parece ter esquecido qualquer senso de empatia.
Joe, Jimmie e São Francisco

A ideia para esse filme nasceu muitos anos atrás. O diretor Joe Talbot, e o protagonista Jimmie Fails, se conhecem desde criança, melhores amigos. Ambos são nativos de São Francisco. Juntos acompanharam grandes mudanças em sua terra natal. Gentrificação. Um polo de tecnologia e inovação, Vale do Silício. Se tornou uma das cidades com custo de vida mais alto dos EUA. A população negra, que normalmente já é marginalizada, aqui é ainda mais. A especulação imobiliária empurrou o povo negro mais para os limites da península.
É como se a cidade não fosse mais compatível para sua população original. Tem uma frase de Jimmie que é muito simbólica disso, em uma entrevista lhe perguntaram se ele ama São Francisco, fazendo um contraponto com texto do filme, e ele responde “Claro que eu amo. Mas muitas vezes sinto que ela não sente o mesmo por mim”. Isso é um homem negro falando. E é significativo pois a história contada nesse filme é baseada na vida de Jimmie, ele interpreta uma versão ficcional dele mesmo. Ele confessa que o título da obra vem de um sentimento muito íntimo, de olhar para a cidade e quase não ver pessoas negras. Essa obra nasce do desconforto desses dois artistas ante esse cenário.
Eles fizeram um grande esforço para conseguir visibilidade para produção. Desde 2015 lançaram trailer, campanha de financiamento coletivo, um curta com o mesmo espírito do filme. Essa obra só veio a se tornar realidade em 2018 quando Joe conseguiu levar sua história até produtores da Plan B, também conhecida como “A Produtora do Brad Pitt”, que de cara pegou o projeto. Após finalizado o filme teve distribuição pela A24.
Abertura
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É muito impressionante quando pensamos que esse é o filme de estreia de Joe Talbot. Ele faz um trabalho de direção muito bom aqui. O clipe que abre o filme é um dos melhores já feitos. A forma como ele apresenta a cidade acompanhando os dois amigos de skate é brilhante. É um dos melhores usos de câmera lenta que já vi. A edição dessa cena é maravilhosa, a junção da trilha com a pregação do pastor e o mundo parando em torno dos dois é deslumbrante. A forma como a câmera acompanha os protagonistas é muito estilosa e fluida, seguindo seus movimentos no skate. Essa cena é uma declaração de amor à cidade, e sua população negra, mas que conforme vai progredindo, no cenário nos mostra a podridão da desigualdade racial nos EUA.
Outro ponto muito interessante dessa cena é que, além de nos situar no espaço da história, ela constrói de forma imediata o elo de amizade entre os dois personagens. Pela intimidade com que se tratam, o ato de andar em dupla sobre o skate é muito simbólico. Ao fim da cena sabemos que eles são melhores amigos.
Identidade e pertencimento

Essa é uma obra muito rica em vários de seus aspectos. Estamos acompanhando esses dois caras que estão tentando retomar a casa que outrora fora da família de um deles. Identidade e pertencimento são palavras-chave para pensarmos toda a relação que é construída aqui. Essa obra tem uma dimensão filosófica muito potente. Quem sou eu? O que me torna quem sou? Será que realmente sou o que sempre acreditei ser? Qual meu lugar nisso tudo? O quanto sou resultado daquilo que meus antepassados foram? Essas são questões que movem os protagonistas dessas história. Dois homens negros, tentando ser pessoas distintas do que esperam que eles sejam, e ter coisas que ninguém espera que eles tenham.
A relação de Jimmie com a casa é muito complexa. Ele se entende como ele mesmo devido ao peso histórico e emocional que está carregado em cada parte da construção física da casa. Ter a casa é o que ele sabe fazer, cuidar dela é praticamente uma questão de honra, é o que faz ele viver, seu objeto de realização. Quando ele luta pela casa, também luta pela memória de sua família, por dignidade e segurança. O fato de seu avô tê-la construído com as próprias mãos torna esse sentimento de pertencimento ainda mais poderoso. O que seria de Jimmie se ele não vivesse pra isso? Nem ele mesmo sabe.

Mont é um personagem maravilhoso. Ele não expõe tantos conflitos existenciais quanto seu melhor amigo, mas é nítido seu deslocamento nesse mundo. Na forma como se veste, fala, interage com as outras pessoas. Por mais que seja um garoto negro, criado na baía, ele não se identifica com esse contexto, seus desejos e aspirações são outras. A cena do ensaio em frente ao espelho é brilhante (quando você ver o filme saberá qual é), tanto pela atuação, quanto pelo texto e construção imagética. É linda. E ilustra muito bem essa falta de identificação do personagem com as pessoas que o cercam.
Perfeito
Se faz necessário esse pequeno parágrafo para dizer o quão perfeitos são os aspectos técnicos desse filme. A direção, como já dito antes, para uma estréia é impressionante, principalmente na abertura. A fotografia é linda, sólida no bege do centro da cidade, quente nos interiores e na baía. A iluminação interna da casa cria um desenho de luz que valoriza a beleza da pele negra dos protagonistas. A direção de arte é muito competente, principalmente do figurino da dupla de protagonistas. Que praticamente usam um uniforme, tal como personagens de um desenho animado que vestem sempre as mesmas peças. O que evidencia a busca dos personagens por consolidar uma construção imagética de si próprios, solidificando o tema de busca por identidade.
Outro destaque é a trilha sonora assinada por Emile Mosseri. Ela é pontual mas dita o tom do filme. É triste, mas ao mesmo tempo esperançosa. Se torna repetitiva com o passar do tempo, mas isso não chega a ser problema.
Por fim

Esse é um filme muito importante e necessário. Faz vários questionamentos sobre a reorganização urbana de grandes centros populacionais. Também mostra como é difícil ascender socialmente quando se é negro e advindo de família pobre. Pois toda a organização social se dá de forma a não permitir que o negro progrida economicamente e conquiste novos espaços, ou até mesmo retome espaços que outrora foram seus. Também fala sobre estrutura familiar, sobre como é importante ter uma família que lhe dê condições ao menos de sonhar.
The Last Black Man in San Francisco é extremamente autêntico, uma das obras tematicamente mais significativas realizadas nos últimos anos. É uma carta de amor de seus realizadores à cidade, ao mesmo tempo que um grito de protesto, resistência. É realista, triste, melancólico, mas também é cheio de amor, verdade e esperança. Dá pra sentir toda a paixão e coração de Joe Talbot e Jimmie Fails aqui. E ter contato com algo tão íntimo, honesto e belo não tem preço.

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