Um garoto comemorando 100 anos

Um garoto comemorando 100 anos

No dia 21 de janeiro de 2021, o filme “O garoto”, de Charles Chaplin, comemorou 100 anos de sua estreia. O filme é considerado um marco na carreira de Chaplin. É seu primeiro longa-metragem e estabeleceu de forma definitiva o melodrama como fio condutor de suas comédias, até então completamente burlescas.

Logo no início, o filme já alerta ao espectador desavisado de 1921, que ele não veria apenas uma comédia. Na abertura, aparece o letreiro que diz o seguinte: “Um filme com um sorriso, e talvez uma lágrima…”. “O garoto” é um dos filmes mais pessoais e íntimos de Chaplin. Sua produção começou logo depois que seu primeiro filho, Norman Spencer Chaplin, faleceu com 3 dias de vida. O filme é inspirado em diversos momentos de sua própria infância.

P.S. Este texto contém alguns spoilers do filme.

Policial vigia carlitos
Carlitos e o garoto

Um garoto em ascensão

O garoto do título foi interpretado por Jackie Coogan, que tinha 5 anos na época do início das filmagens. Coogan era ator de teatro de Vaudeville desde que tinha 3 anos de idade, assim como Chaplin também havia sido em sua infância. Chaplin, inclusive, o descobriu em um teatro, imitando o próprio Chaplin.

Primeira aparição de Coogan em um filme aos 3 anos.

A história de “O garoto” é tão intensa quanto atual. Uma mulher (Edna Purviance) tem um filho em um hospital de caridade. Ela foi abandonada pelo pai da criança, um artista, e tem medo de não conseguir dar conta de criar a criança, vide sua condição social. Ela pensa em deixar seu bebê no carro de uma família rica com um bilhete, clamando que eles possam cuidar da criança. Porém o carro é roubado antes disso. Depois de os bandidos descobrirem o bebê e abandoná-lo em um beco, Carlitos se depara com ele.

Mãe
Edna Purviance leva o bebê enquanto pensa no que fazer.

A saga de um garoto

O que torna “O garoto”, um filme tão atemporal além de seus temas? A forma como Chaplin conduz a trama é tão segura que mal se percebe as grandes variações de tom entre as partes mais cômicas e as mais dramáticas. Tudo é feito de uma forma tão eficiente que comédia e melodrama se encaixam perfeitamente. Em um momento, a mãe solteira e abandonada é comparada a Jesus carregando sua cruz e no outro Chaplin recebe um monte de lixo em sua cabeça em um passeio matinal.

Questões sociais tão impactantes como fome, miséria, abandono de criança e até descaso do estado (na figura dos funcionários do orfanato) são apresentadas de uma forma tão profunda quanto a seriedade que estes temas exigem, porém ao mesmo tempo perfeitamente inserido no humor do filme. O fato destes problemas serem ainda decorrentes nos dias de hoje mantém o filme relevante ainda. Especialmente com a acentuação das diferenças sociais com a pandemia da COVID-19.

Beco
Carlitos acha um bebê enquanto um policial o observa.

A criação de um garoto

O personagem de Carlitos encontrou o garoto por acaso. Pensou em se livrar dele, mas acabou acolhendo-o e criando-o como um filho. O estado não entende assim e tenta levar o garoto para um orfanato. Assim, outro tema atual também surge: a adoção. A maternidade ou paternidade de quem adota e cria pode ser mais importante que laços genéticos. Apesar de ter um pai biológico, Carlitos é o verdadeiro pai do garoto, pois nutre afeto, carinho e o protege. Isso fica evidente no fato de que o pai biológico aparece apenas brevemente no início do filme. (1)

Muitas pessoas no Brasil, não tem o nome do pai no registro de seus nascimentos. Um cenário que mostra como o abandono paterno ainda é um grande problema em nosso país. Apesar de algum avanço ter sido alcançado com a lei complementar PLC 16/2013 que permite que a mãe registre o nome do pai sem a presença do mesmo, recentemente um projeto de lei retrógado foi apresentado no congresso: 5435/2020, que propõe que uma mulher vítima de estupro tenha um filho normalmente e que o autor do estupro seja registrado como pai.

O sucesso de um garoto

Depois de “O garoto”, Jackie Coogan participou de outro grande filme de sucesso: “Oliver Twist”, ao lado do ator de mil faces, Lon Chaney. Porém, ele, assim como muitos astros mirins ao longo dos anos, não conseguiu dar prosseguimento a sua carreira a partir da idade adulta. A chegada do cinema falado afetou sua carreira, pois ele estava exatamente na fase de mudança de voz da puberdade.

Jackie Coogan e Lon Chaney.

A exploração de um garoto

Logo depois de conseguir voltar ao cinema, esteve com seu pai em um acidente de carro, onde ele foi o único sobrevivente. Quando teve alta do hospital descobriu que sua mãe e seu padrasto não haviam pago suas despesas hospitalares e também haviam gastado todo seu patrimônio acumulado desde 1920, o que o levou a processá-los em 1938. A essa altura, ele já havia se tornado um alcoólatra com problemas depressivos.

Apesar de ter ganhado pouco no processo, ele motivou a criação da Lei Coogan, que regulamenta regras de reserva do salário da criança, obrigatoriedade de educação, limite de tempo jornada de trabalho e tempo de folga. (2) Durante seus tempos de dificuldade financeira, Chaplin o ajudava. Apesar de continuar trabalhando na indústria, só voltou a ter certo sucesso na década de 1960 como o personagem tio Chico, na série de TV, “A família Addams”.

Jackie Coogan como tio Chico.

Um garoto eternamente

Em 1972, Chaplin e Coogan se reencontraram pela última vez, quando Chaplin voltou de seu exílio a Hollywood para receber um Oscar honorário. No ano anterior, ele tinha composto uma trilha musical para “O garoto”. A música era o elemento que faltava para tornar o filme um clássico comovente e sensível da história do cinema. “O garoto”  tem uma avaliação rara de 100% no site Rotten Tomatoes e é o filme mais antigo a figurar o top 100 do Internet Movie Database.

Reencontro de Chaplin e Coogan em 1935.
Reencontro em 1972.

Minha lembrança de ver este filme é tão saudosa quanto significante. Meu pai gravou em uma fita de vídeo, quando este passou na sessão Corujão da rede Globo quando eu era criança. Me apaixonei instantaneamente pelo filme e já perdi a conta de quantas milhares de vezes já o assisti. (3) 

Jackie Coogan faleceu em 1984 de uma parada cardíaca aos 69 anos. Porém ele está para sempre eternizado como o gracioso garoto que faz os espectadores rirem e também chorarem há 100 anos. Em conclusão, ele será eternamente um garoto. Assim, um garoto que acaba de completar 100 anos.

https://www.youtube.com/watch?v=LQE0c1Zugx8
Notas de rodapé

1 Havia outra cena em que o pai biológico aparece. Tanto ele quanto a mãe do garoto tornaram-se artistas famosos e ricos. Eles se esbarram por acaso em uma festa, onde ele pergunta para ela o que aconteceu com o garoto e ela diz que deu para adoção. Chaplin cortou esta cena da edição final.

2 Em 2000, outra lei tornou os ganhos dos atores mirins exclusivos das crianças graças ao caso do ator Macaulay Culkin.

3 Um fato engraçado: na época eu ainda desconhecia o hábito das emissoras de televisão de cortar pedaços de um filme para adequar à programação. No filme, depois que o garoto é retirado à força por agentes do estado (uma espécie de conselho tutelar) da casa de Carlitos, o mesmo foge da polícia e alcança o carro do orfanato, brigando com os agentes e pegando o garoto de volta. Na época quando vi este filme na Globo, a cena que Carlitos recupera o garoto foi cortada e eu nunca entendi como o garoto tinha sido afastado dele e logo depois eles apareciam juntos novamente. Somente anos depois quando vi o filme em DVD, eu pude finalmente entender o que tinha acontecido.

Falando de algum lugar no universo - Luciano Bugarin

Cinéfilo, cineasta e professor de artes visuais. Gosto de música barulhenta, jogos que ninguém gosta, ver cem vezes o mesmo filme, plantas, cágados e pinguins.

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