Maratone um Clássico | Louca Obsessão (1990)

Maratone um Clássico | Louca Obsessão (1990)

O termo “clássico” geralmente é usado para os filmes mais complicados, com diversas camadas e interpretações, ou para a simples e chula denominação de “filme chato”. Entretanto, classificar se tal obra é ou não um clássico não depende simplesmente das qualidades e defeitos atribuídas ao longo do tempo, e sim da contribuição da obra para com a Indústria Cultural.

Seguindo essa moda de classificar filmes, Louca Obsessão (Misery), adaptação da obra homônima de Stephen King, tornou-se um clássico. E para mim ele ganha esse título justamente por contribuir com o crescimento da Indústria.

O filme conta a história de Paul Sheldon (James Caan), um escritor famoso que está hospedado num hotel para terminar de escrever mais uma obra. Após o término, ele pretende levar seu novo livro para ser avaliado na editora, porém acaba se envolvendo em um acidente. É quando a enfermeira Annie (Kathy Bates) o resgata, e o leva para a casa dela.

Paul é cuidado por Annie, que por sinal é a fã número um do autor. Durante a estadia do escritor na casa da enfermeira, ela lê o último livro da sua série. Insatisfeita com a conclusão da história, começam as torturas e o autoritarismo sobre Sheldon, para que ele reescreva o livro da maneira que Annie deseja.

Para quem estava na nossa palestra deste ano na Campus Party Bahia, pode acompanhar o nosso ponto de vista sobre adaptações cinematográficas e como os fãs também podem arruinar uma boa adaptação só porque não atendeu suas expectativas.

E é um dos principais pontos observados sob a ótica de Annie: sua insatisfação com o final do livro a levou a se aproveitar das condição do autor, obrigando-o a reescrever a história, de uma maneira que a agradasse acima de tudo. Justamente por conta disso o criador não tem autonomia sobre a sua obra, sendo constantemente aterrorizado por Annie por ter dado um fim à protagonista de sua série de livros.

Para quem já é acostumado a assistir ou ler obras de King, sabe mais ou menos como funciona a construção da narrativa, claramente não é algo novo e a resolução sempre tem aquele toque de Deus ex-machina. Contudo, esse longa em específico possui peculiaridades que o torna bem realizado, por exemplo os close-ups em Annie quando ela está prestes a ameaçar ou cometer alguma atrocidade com o autor, ou em prol dele.

É notória a sensação claustrofóbica imposta só com um movimento de câmera, além é claro, da constante sensação de medo e tensão que sentimos em cada investida de fuga do autor daquela situação.

Exemplo perfeito do que acabei citar, esse movimento de câmera unido ao contra-plongée trazem uma sensação de poder ao personagem

Dando um Google sobre transtornos psiquiátricos e tendo como base as atitudes da protagonista no filme, um transtorno que caberia perfeitamente para ela seria o de Borderline, que basicamente é a constante mudança de humor, e o medo de ser abandonado por amigos, namorados (nesse caso o Paul Sheldon) e etc.

Isso se dá, principalmente, quando percebemos as constantes mudanças de humor da personagem, ora ela está eufórica por ler mais um capítulo da obra que ela “encomendou”, ora ela está furiosa por conta de algumas atitudes de Paul em relação aos seus sentimentos. Eu posso estar super cagando regra já que não sou formado em psicologia nem nada, mas alguém formado pode dar uma ajuda nesse post tranquilamente.

Essa imagem mostra muito bem como o transtorno de Borderline age em Annie

Mas afinal, porque Louca Obsessão é um clássico?

Como já citei, é um clássico porque obviamente a obra contribui e muito para a criação do gênero suspense no cinema, além de ser uma bela adaptação da obra de King. Mas não só por isso, a aparente contribuição nos quesitos técnicos como a fotografia e principalmente na trilha sonora que são ESPETACULARES.

Um exercício bacana que aprendi durante as aulas de Sonorização na faculdade, é que logo após ver um filme, escute a trilha sonora dele e perceba as nuances e a relação da música com as cenas que você acabou de ver. E se você escreve sobre cinema é um ótimo aprendizado para construir sua crítica, resenha ou o que seja. Inclusive esse texto está sendo redigido ao som da trilha do filme, composta por Marc Shaiman.

A película ainda é muito pertinente para diversas discussões que não se restringem apenas a análise fílmica e a composição de seus personagens, mas que ainda consegue se sustentar como algo bem vívido e principalmente inesquecível para quem já viu. Louca Obsessão, portanto, contribui sim para a construção de um gênero bem difundido, mas saturado de obras ruins, além de ser um sopro de inspiração para quem procura entender mais o que é o cinema.

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Falando de algum lugar no universo - Vinicius Cerqueira

Estudante de Jornalismo e vidrado em cinema, Vinicius ou Vini para alguns escreve sobre cinema e séries de TV às vezes com um tom ácido e totalmente irônico.

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