Albatroz – Trem de Pensamentos

Albatroz – Trem de Pensamentos

Ok, tem filmes que se você não escreve sobre ele na hora que sai da sala do cinema, fica perdido sem saber o que dizer. Albatroz (2019) é um desses casos.

SINOPSE

Simão Alcobar (Alexandre Nero) está desesperado, tentando salvar sua esposa Catarina (Maria Flor). Mas ela desaparece do hospital e, na verdade… o que é a verdade?

CONFUSÕES TEMPORAIS

Já cansei de dizer, ver filmes nacionais é sempre uma alegria e um desafio. Expectativa de que seja bom. Mas poucas vezes saí do cinema confuso e… cansado. Explico: Albatroz brinca o tempo todo com a ideia de múltiplas linhas de tempo, sendo mostradas quase que ao mesmo tempo. Portanto, diversas vezes você se vê saltando de uma linha temporal para outra, nem sempre com muito aviso.

Mais: o filme também tem uma linha de tempo real, e uma linha de tempo de uma história sendo escrita. Que inclusive, podem ser a mesma. Então sim, ficar perdido faz parte, é normal. E na verdade é divertido.

STILL Filme ‘Albatroz’ – Dir. Daniel Augusto / Roteiro. Braulio Mantovani Data: Junho 2017 Foto: Aline Arruda

DIREÇÃO E MONTAGEM

O que nos leva às verdadeiras estrelas do filme. Sim, temos atores maravilhosos, mas a direção de Daniel Augusto, o roteiro de Bráulio Mantovani, Fernando Garrido e Stephanie Degreas, e a montagem de Fernando Stutz brilham maravilhosamente. A sensação de confusão, a vontade de entender, a narrativa sendo contada em diversos planos narrativos e se entrelaçando é executada com maestria, ainda sendo pontuada pela trilha de Rica Amabis, e pela fotografia excelente de Jacob Solitrenick. Mais do que uma experiência narrativa, Albatroz é, de fato, uma experiência estética que vale a pena ser vivida.

ATUAÇÕES

Mas sim, os atores são muito importantes, e estão incríveis. Boa parte do elenco principal são globais já conhecidos, como Alexandre Nero, Maria Flor, Andrea Beltrão e Camila Morgado. Andréia Horta já aparece na TV depois de eu ter parado de assistí-la, mas ela foi uma excelente Elis Regina há pouco tempo. Marcelo passador-de-pano Serrado aparece brevemente. E, um nome que vem me dando muita curiosidade, Gustavo Machado, também está aqui (E pelo visto, em todo filme nacional da história recente).

STILL Filme ‘Albatroz’ – Dir. Daniel Augusto / Roteiro. Braulio Mantovani Data: Junho 2017 Foto: Aline Arruda

CONCLUINDO

“Filme nacional é tudo ruim”. Mostre Albatroz pra quem diz esse tipo de coisa. Não é só um excelente filme nacional, é um excelente FILME. O mundo precisa vê-lo.

MOMENTO P.S. (Pode Spoiler)

Então, adorei o filme, mas ele tem um problema no final, que nos leva a outro.

O final é um dos mais covardes do cinema, “era tudo um sonho”. É bem executado, de fato, mas sempre te faz pensar “Então que diabo eu tava fazendo nessa última hora e meia?”. O que levou eu e mais alguns companheiros de equipe a questionar “tá, então afinal, qual a mensagem do filme?”.

A resposta mais simples é: nenhuma. O filme é uma experiência estética, mais do que narrativa. Você viu esse filme para ter visto esse filme, e valeu a pena.

Mas, pensando um pouco, é mais do que isso. O filme é sobre saber a diferença entre o real e a alucinação, e ele te perturba o tempo inteiro com essa confusão. Você fica, também, sem saber o que é real, e o que é sonho, o que é devaneio. Ou seja: é também uma experiência narrativa, extremamente bem sucedida.

E se você lembrar de uma das primeiras falas do filme, que comentam que o rato, ao ser infectado, se torna um rato sem medo, destinado a encontrar a boca de um gato, vai entender que essa foi a experiência que fizeram com o Simão. Mexeram no cérebro dele, deram um propósito. O deixaram sem medo. Direto para onde queriam que ele estivesse.

O filme faz todo sentido! Mas vai te deixar se perder, e talvez achar que ele não tem coerência. Pelo contrário, tá tudo lá.

Mas um dia vou perguntar a algum neurocirurgião se realmente dá pra usar eletrodos pra fazer aquelas paradas que a Dra. Weber faz no spa.

STILL Filme ‘Albatroz’ – Dir. Daniel Augusto / Roteiro. Braulio Mantovani Data: Junho 2017 Foto: Aline Arruda

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

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