Hoje foi dia de surpresa com o cinema nacional, olha só. Mas ele é sobre tema que eu quero debater, então se prepara que esse texto vai ser longo. Kardec (2019)

SINOPSE
França, século IX. Recém desempregado, o professor Rivail busca formas de sustentar a casa. Nesse processo, conhece a cultura das mesas que falam com espíritos. Não sabia ele que havia muito por trás. Inclusive seu novo nome: Kardec.
PREÂMBULO
Começar falando que eu não conheço a história de vida de Allan Kardec. Então, vou aceitar os fatos relatados em Kardec como verdadeiros (ou pelo menos, vindos de um ponto de vista honesto) até que eu possa confrontá-lo com pesquisa. Segundo que, não só eu sou ateu, como sou bem cético pra religiões. Principalmente as que tentam se provar científicas. Então sim, esse texto tem viés (como todo texto, gente. Não existe “texto sem partido”. Acorda). Por fim, minha mãe foi minha companheira nessa cabine, mas peço desculpas por não ter gravado minha conversa com ela pós-filme. Só percebi agora enquanto escrevo. Me perdoem. Fica pra próxima.

ENTRANDO NO ESPÍRITO
Vamo nessa. Primeiro, falar de produção: excelente.
Sério, de verdade mesmo. Não tô zoando. Acho que o Brasil já tem “a manha” de fazer roupas antigas decentes por causa da nossa tradição com novelas de época. Então nessa parte já tá ótimo. Mas me impressionaram os cenários. Kardec tem cenas gravadas in loco, na França, mas boa parte dele foi filmado aqui mesmo, no Brasil (Rio de Janeiro). É ótimo ver essa inventividade, que na verdade não é novidade no mundo do cinema (ou você acha que todo filme sobre o período nazista é gravado na Áustria e na Alemanha?). E produções históricas brasileiras já passaram por isso, como por exemplo Olga. As locações para Kardec foram excelentes, e estão de parabéns. Não só, como efeitos especiais também. Em diversos momentos, principalmente nas transições de cena, nota-se uma produção e direção de atores boas, a galera de pós produção também estava caprichada. Apesar de um efeito, no finalzinho, estar bem ruim… Mas é um erro contra vários acertos.
ENCARNANDO OS PERSONAGENS
Os atores, em maioria, já são conhecidos do público que acompanha produções audiovisuais brasileiras, principalmente novelas. Fica essa pequena crítica, então: em vários momentos, as atuações seguiam a linguagem “novelística”. Não é exatamente um problema. Mas o cinema permite ir além. Porém, considerando ser este o escopo, estão todos muito bem. Destaque para o protagonista Leonardo Medeiros, que faz Rivail / Kardec.
OBSESSORES
Começar a alfinetar um pouco mais. O filme é completamente partidário, e enviesado, prol espiritismo, e em favor do protagonista. Eu não sei se ficou claro até agora, Allan Kardec é o pseudônimo de Rivail, inspirado em sua possível encarnação anterior. A película explica. O filme não é completamente alheio às críticas, elas existem. Por exemplo, a crítica que sofre da própria área que ajudou a instrumentalizar, o espiritismo, pelo pouco respeito que teve com seus colaboradores médiuns. E o fato de ter, sim, lucrado, com a criação da doutrina, independente do que diga sobre. Mas em primeiro lugar, ele não CRIA esse conhecimento, ele o estuda e o codifica. Então, por um lado, já existia no período em forma de cultura pop, com as mesas girantes (o filme aponta, e prova, como farsas). Mas também, existem pessoas sérias pesquisando essa linhagem de ocultismo, e Kardec parece (em cena) não recorrer a muitas delas, apenas às médiuns, e as análises dele a partir disso. Então são pelo menos dois grupos, de interesse semelhante, mas de desejo diverso, que poderiam contrapô-lo, e isso não é posto. Outra crítica, mais conhecida do Movimento Negro, é a forma como ele era reconhecidamente racista, como pode ser visto neste artigo. O filme nem mesmo menciona algo do tipo.
“Ah, mas você tem que entender que no contexto histórico”. O contexto histórico racista daquela época criou o racismo da nossa época. É raso jogar a desculpa apenas para o contexto. Sinto muito.
Além destes pontos, eu quero fazer um debate um pouco maior, mas isso vai fugir ao escopo de Kardec, então deixa eu me despedir de vocês antes. Quem quiser, continua comigo.
ENCERRANDO OS TRABALHOS
Kardec é uma produção nacional MUITO boa, trazendo a narrativa de uma figura histórica muito interessante, que tem vários desdobramentos no mundo todo, incluindo no Brasil. Reconhecer suas origens fortalece sua fé (ou te faz questioná-la), e todo estudo histórico é positivo. Tenho várias discordâncias ideológicas com o filme, mas não posso deixar de reconhecer que é uma ótima peça do nosso cinema. Recomendado, não só para quem já segue a doutrina, mas para quem tem curiosidade, também. Principalmente, para quem (como eu) é entusiasta do cinema brasileiro.
Não só isso, Kardec nos mostra como o cinema é uma ferramenta poderosa de divulgação. Investir em boas obras pode ser muito positivo para qualquer movimento que queira angariar novos membros. Isso já foi usado para o mal (Nascimento de Uma Nação), mas pode ser usado para o bem. Não tem porque não. E considero Kardec um exemplo.
Abraços!

CIÊNCIA E PSEUDO-CIÊNCIA
Se você ficou até aqui, eu vou usar o filme como base para reflexão. Então, a partir de agora, não é exatamente uma crítica à ele, tá certo? Vai ter um pouco de spoiler. Vem comigo.
Kardec mostra, sempre, como Rivail não era apenas um professor entusiasmado com seus alunos. Ele era, também, um entusiasta da ciência, tendo contato com a academia francesa, e com grandes pensadores da época. E demonstra, também, um certo nível de ceticismo dele para com o que estava se deparando. As “mesas girantes”, coqueluche pseudo-espiritual da época, é tratada como ridícula, e provada ridícula, pelo próprio Kardec. É muito legal ver como ele mesmo não estava completamente satisfeito com o que via, mesmo que houvessem rituais mais sérios.
Porém, a partir do momento em que está convencido, ele deixa de tentar falsear, e passa a querer PROVAR que elas funcionam e estão corretas. Ele cai numa armadilha muito comum, que é pôr seu ego na jogada. O que, inclusive, é uma fala no próprio filme. “Me pergunto o quanto disso não é apenas a minha vaidade”, diz Kardec na voz de Leonardo Medeiros (seria meu parente?). Uma das ferramentas básicas do método científico é a falseabilidade: se você tem uma hipótese, você deve, a todo tempo, tentar falseá-la, tentar provar que ela está errada. Se você falha nesse processo, demonstra o quão forte a hipótese inicial é. Por exemplo, o filme mostra como Kardec tem um diálogo sobre as estrelas com sua esposa Amélie (Sandra Corveloni), sobre a poesia que há nelas, e logo na sequência uma mesa se quebra. Eles descobrem logo em seguida ter sido quebrada por um gato descuidado. Quando ambos aparecem na primeira mesa de contato com os espíritos, o médium em questão escreve uma carta, em nome de um espírito, relatando todos esses pontos: estrelas, poesia, mesa quebrada. Rivail tomou isso como possível prova de que sim, espíritos são reais. PORÉM, se permitisse ser mais cético, perceberia que: (a) as mesmas pessoas que estavam com ele na sessão espiritual, foram visitá-lo em casa após o acontecido. O que implica em (b) eles viram que Rivail consertava uma mesa e (c) viram um telescópio na sala. Ou seja, NÃO É ESTRANHO que tais acontecimentos apareçam em texto, pois não são dados isolados. Sobraria um ponto, apenas, para continuar explorando tal hipótese. “Como eles sabem da nossa conversa sobre poesia?”. Ao aceitar tais fatos sem grandes questionamentos, e começar a fazer grandes elaborações baseado só no que lhe é relatado, ele cai numa armadilha. Que torna o espiritismo não uma ciência, mas sim uma pseudo-ciência.
Mas é inegável que ele tentou. E a película bate muito nessa tecla. Ele usou métodos de pesquisa. Como fazer as mesmas perguntas para médiuns distintos e comparar as respostas, para citar um exemplo. É um método questionável, é claro. O que garante que essas pessoas não se comunicaram? Mas não dá para negar que ele tentou. E digo mais: não só tentou, como pediu ajuda da comunidade científica para tal.

Aqui vem minha segunda crítica: a comunidade científica, ao ser confrontada com uma hipótese que considerava “ridícula”, VIRA AS COSTAS, e lhe segrega. Eles consideram tudo o que Kardec faz uma bobagem, não lhe dão auxílio, não consideram sua hipótese válida de estudo, e mais, o expulsam de suas reuniões. Ao fazer isso, tal comunidade não só lhe causa prejuízo, mas também lhe dá força! Pois veja, “os arrogantes homens da ciência não estão preparados para ouvir tamanha verdade sobre o mundo” é uma frase muito fácil de ser usada a partir daí.
Portanto, afirmo: a comunidade científica ERRA em prejulgar uma hipótese e descartá-la. Perdeu-se um potencial cientista ali, e se permitiu que toda uma área de conhecimento (ainda que com bases não sólidas) se desenvolvesse. Como fica claro no excelente documentário A Terra É Plana, todo pseudo-cientista é um POTENCIAL cientista que se perdeu. Se, ao ver um dos seus tendo ideias “doidas”, o grupo se juntasse a ele, revisse sua metodologia, lhe desse ideias, confrontasse seus dogmas, propusesse novos testes, hoje talvez não houvesse o espiritismo como o conhecemos.
O parágrafo anterior me fez parecer anti-religioso (o que devo confessar que não é de todo errado), mas não é esse meu ponto. Meu ponto é: religiões não são científicas, pois não são um conhecimento absorvido pelo método científico. São outros processos que te levam a um processo de fé e de crença. Assim como são outros processos que te levam a apreciação da arte, por exemplo. Você não usa toda uma metodologia para apreciar ou não um quadro. Religiões seguem essa lógica. TENTAR PROVAR RELIGIÕES A PARTIR DA CIÊNCIA É UM DESSERVIÇO TANTO PARA CIÊNCIA, COMO PARA RELIGIÕES. Acaba invalidando o meio científico e seus métodos, e traz fundações erradas para a fé. Não caiam nessa armadilha. Esse debate é abordado neste excelente episódio do Naruhodo, que me dá muito orgulho por ter sido baseado numa pergunta feita por mim.
Se duvidar, esse texto deve ser o mais longo de todo o site. Vou parar por aqui. Mais uma vez, abraço a todos, e até a próxima!