Nem só de terror viverá o homem. Venus Noire (Vênus Negra, 2010)

Nem só de terror viverá o homem. Venus Noire (Vênus Negra, 2010)

Pessoal, como vocês sabem sou fã de carteirinha dos filmes de terror, mas existem filmes de outros gêneros que me fascinaram, seja pelo conjunto de direção, produção, roteiro, etc. Alguns longas, por mais que não tenham tido uma boa repercussão, merecem ser relembrados ou apresentados. Separei algumas jóias (filmes) que acredito dignas de uma abordagem mais minuciosa, a julgar principalmente pelo assunto/tema que abordam. Espero que gostem!

Desde a antiguidade, as formas de domínio de um indivíduo para com o outro variavam, de modo que a força, ou simplesmente fatores verbais, eram utilizados para se obter uma relação de submissão. A ideia de colonizar e governar se apresentava como um mecanismo de sobrevivência, haja vista o grande fluxo de ações imperialistas na Ásia e na África, que consequentemente influenciaram no desenvolvimento de diversas regiões desses respectivos continentes. Apesar do colonialismo e imperialismo se tratarem de formas de domínio, eles se diferenciam entre si, nos levando a possibilidade de conjecturar as possíveis justificativas para tais ações. Mediante ao conhecimento etimológico e fazendo uso de exemplos históricos, as práticas ficariam claras. Então, no que se refere ao colonialismo, consiste em um controle político que envolve a agregação de um território e, consequentemente, a perda de sua autoridade (soberania). Já o que se chama de imperialismo, geralmente refere-se ao domínio e influxo que é praticado para com povos/nações, seja esse exercido de forma direta ou indireta, bem como formalmente ou não.

As práticas de colonização no continente africano são datadas desde o período mesopotâmico, quando a civilização fenícia, que se destacava no ramo comercial marítimo, começou a instaurar colônias próximas ao mediterrâneo, mais precisamente na costa africana. Por conseguinte, a partir do século VIII a.C., gregos, romanos (por volta do século II a.C.), os vândalos (tribos germânicas) que, devido à crise política do império romano, venceram e colonizaram diversas colônias romanas em torno do século V, dentre outros, deram continuidade ao processo de ocupação do continente africano. Contudo, no que se refere à colonização mais recente da África (metade do século XIX), a colonização holandesa e britânica na África do Sul aparecem com proeminência, juntamente com a atuação de grupo combatentes de origem britânica e francesa na África do Norte. Quando um território é colonizado, não há um impacto somente na camada social, econômica, mas a agregação de territórios significa a junção, a mistura, a troca de culturas, que por vezes não é realizada de forma equitativa. De forma que aqueles povos responsáveis pela colonização, se tiverem um maior poderio, como foi o caso dos holandeses e britânicos no sul africano, acabam por instaurar suas culturas de forma hegemônica, criando bases para mecanismos de abuso, seja esse excesso físico, mental, principalmente ideológico etc. É a partir dessa ocorrência que o imperialismo ganha espaço, porque até o momento em que um povo usa da força para ganhar espaço (território), essa ainda é limitada a uma prática de colonização. Entretanto, quando começasse a perceber um influxo, ainda que sucinto, o quadro que antes era somente físico-geográfico e de escala interpessoal, continua sendo interpessoal, mas passa a ser agravado pelo fator ideológico que, de modo consequentemente, nos leva a lidar com características etnocêntricas, e é dentro desse campo que a maior parte das ações de abuso tentam ser justificadas.

O termo etnocentrismo, segundo a referência antropológica, consiste na disposição/predisposição a crer/considerar apenas ou anteferir valores particulares de sua cultura quando em comparação com outros. No século XIX, com as práticas relacionadas à escravidão, era grande o descaso para com algumas etnias, negros em sua maioria, esse fator foi resultado de atitudes etnocêntricas realizadas na Europa mesmo antes do século XIX, como já foi mencionado. Para compreender melhor como tais ações influenciam na vida de um indivíduo ou até mesmo de um povo, o filme Vênus Negra retrata o período entre 1810 e 1815, em que Saartjie Baartman, protagonista, através de uma promessa de emprego feita por Caezar, seu mestre, viaja da África do Sul para a Europa. Baartman, que trabalharia em um circo, é forçada a se expor para estranhos em Londres. Como Saartjie era de origem sul africana, seus traços se apresentavam como uma novidade para aquele público, de forma que ela passou a ser motivo de atração, mas essa não era voluntária e de natureza satisfatória para a própria Baartman, visto que ela não tinha poder para coibir as ações as quais era submetida.

A longa promove uma reflexão sobre diversos assuntos como darwinismo social, preconceito, racismo, tráfico de negros etc. A ciência do século XIX teve um grande progresso no ramo científico, com a introdução do termo “cientista” dada por Charles Darwin no livro “A origem das espécies”, a ciência se apresentava como um estudo/objeto consistente para justificar diversas características físicas humanas. A partir disso, com o avanço da tecnológico oriundo da Revolução Francesa e Revolução Industrial e ideias nacionalistas, alguns países europeus que já colonizavam territórios sul africanos passaram a não somente controlar politicamente, mas também, motivados pelas teorias de Darwin, a acreditar que os aqueles povos eram de raça inferior, haja vista que não possuíam tecnologia alguma em comparação a eles. Já que os povos dominados não possuíam ímpeto para realizar uma rebelião, começou a ser instaurado um monopólio tecnológico e comercial por parte dos dominadores, de forma que os países ficariam restringidos unicamente ao fornecimento da mão de obra, visto que os conquistadores eram superiores em “conhecimento”, era de incumbência deles então, “civilizar” os inferiores, essa atitude passou a ser característica do que é denominado Neocolonialismo e Imperialismo (contemporâneo).


O DARWINISMO SOCIAL FOI EMPREGADO PARA TENTAR EXPLICAR A INCONSTÂNCIA PÓS-REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, SUGERINDO QUE OS QUE ESTAVAM POBRES ERAM OS MENOS APTOS (SEGUNDO INTERPRETAÇÃO DA ÉPOCA DA TEORIA DE DARWIN) E OS MAIS RICOS QUE EVOLUÍRAM ECONOMICAMENTE SERIAM OS MAIS APTOS A SOBREVIVER, POR ISSO, OS MAIS EVOLUÍDOS. DURANTE O SÉCULO XIX, AS POTÊNCIAS EUROPEIAS TAMBÉM USARAM O DARWINISMO SOCIAL COMO JUSTIFICATIVA PARA O IMPERIALISMO (SPENCER, HERBERT. 1860. O ORGANISMO SOCIAL).

É nessa perspectiva/ideia de inferioridade que, no filme Vênus Negra, um anatomista busca justificar, primeiramente através de um comparativo de semelhanças entre o órgão sexual e as nádegas de mulheres com as fêmeas de mandris e outras, e depois com medições, a similitude entre os macacos e o povo africano. É possível perceber um empenho por meio de dimensões anatômicas e cálculos matemáticos para ratificar a inferioridade dos africanos. É dentro desse quadro que o filme aborda o racismo; o pensamento era que, devido ao fato da raça de Baartman estar abaixo da raça dos europeus na hierarquia entre raças, eles possuíam todo o direito de comando sob ela, o que é explicitado diretamente na fala do apresentador que expunha Saartjie: “Não tenham medo. Eu a controlo completamente!”, ou seja, a finalidade é fazer uma analogia entre a domesticação de animais e o ato de “civilizar” promovido por europeus.


O corpo de Baartman foi usado para definir uma fronteira entre a mulher africana “anormal” e a mulher branca “normal”. O fato de que ela tinha nádegas protuberantes e lábios menores estendidos a fez ser considerada como uma “mulher selvagem”. Suas “anomalias”, como Georges Cuvier menciona em The Gender and Science Reader, faziam ela se parecer com tudo, menos com uma mulher branca. Ela tinha uma estrutura mandibular peculiar, um queixo curto e um nariz achatado, que se assemelhava ao de um “negro”. Ela então foi considerada parte da “raça negra”, o que na época era considerado o menor tipo de seres humanos. Ela às vezes era comparada a um orangotango (The Gender and Science Reader ed. Muriel Lederman and Ingrid Bartsch. New York, Routledge, 2001).


Era comum no século XIX a ocorrência de Freak Show’s, que consistiam nas apresentações de humanos com deficiências ou animais com alguma anormalidade/deformidade. Dentre pouquíssimas mulheres negras que foram exibidas, Sarah Baartman ficou como a mais famosa do povo khoisan. Passado um tempo, algumas pessoas que estavam na platéia podiam pagar para apreciar o que era apresentado, mas já que Baartman se apresentava como aberração, diversas vezes foi vítima de atitudes violentas relacionadas a agressão física com objetos variados, dentre outros, pedaços de pau e chicotes. Saber que Sarah foi capturada em seu próprio território e domesticada para fins de entretenimento de uma classe que possui somente um maior nível tecnológico e acredita ser detentora de eugenia superior, é a representação do tráfico de negros que ocorria naquele período. Apesar do filme Vênus Negra apresentar os reflexos das ações do neocolonialismo somente no continente africano, os impactos dessa prática não estiveram limitados ao território da África, mas alcançaram também a Ásia, de forma que ainda no século XIX e meados do século XX, era grande o interesse europeu nas riquezas que o continente Asiático provinha.

Com a chegada da Primeira Guerra Mundial, estava preparado o terreno para que os povos europeus dominassem territórios asiáticos, e assim foi feito. Contudo, após o fim da guerra o legado que tais povos deixaram para a Ásia cativaram o desenvolvimento do setor cientifico – tecnológico do território em questão, não é por acaso que o Japão apresenta a terceira melhor economia do mundo, apesar dos danos causados pelo processo de exploração proveniente da Europa. Um dos problemas que não puderam ser revertidos e que ainda perpetuam só que em escala menor, foi a divisão de culturas, reflexo do colonialismo, que causava desentendimento e conflitos sociais devido ao choque de culturas entre dominadores e dominados. Os ingleses descobriam que a China possuía grande poder no que se refere a comercialização do ópio, dessa forma, a exploração se estendeu com a finalidade de converter tal matéria prima para uso ilegal, mais precisamente para a fabricação de drogas e também ser comercializada sem ter passado por alguma síntese. Apesar do governo chinês se rebelar contra o tráfico do entorpecente, tendo seu auge no que ficou conhecida como Guerra do Ópio, que ocorreu em dois períodos: o primeiro de 1839 a 1842, e o segundo em 1856 até 1860, os ingleses obtiveram a vitória, instaurando a livre negociação do ópio, favorecendo a conveniência dos europeus.

Seja o imperialismo exercido na Ásia, seja o imperialismo exercido na África, Vênus Negra aborda também, o descaso para com a mulher, principalmente a mulher negra, personificada em Saartjie Baartman, que não foi escolhida por acaso como protagonista. Baartman carrega uma história, trata-se de um símbolo vivo de resistência ao processo de escravidão, ao processo de neocolonialismo introduzidos na África por países europeus, resistência ao racismo e preconceito, que também é visto na cena do filme em que o público está reagindo ao desfile da Vênus hotentote e alguém da platéia faz um som de macaco, querendo compará-la a um macaco; o machismo incoerente e inescrupuloso característicos dos  mestres. É através desse entendimento histórico de que países africanos e asiáticos que não possuíam um poderio bélico para se defender de civilizações europeias, sofreram com o processo de colonialismo e imperialismo, que inicialmente buscavam somente a agregação de um território, mas depois passaram a instaurar seus valores ideológicos e sua cultura afim de “civilizar” aqueles que, hierarquicamente, eram consideradas raças inferiores, que podemos compreender o atraso no processo de desenvolvimento, seja no setor tecnológico, científico, bélico, econômico, político etc, de alguns países para com outros.

O resultado da exploração é perfeitamente transmitido na expressão de Sarah no fim do filme quando o apresentador convoca todos para “provar” o corpo dela. As raízes do preconceito, discriminação, misoginia, racismo são mais antigas do que o aparente, e tomam proporções que aproxima nossa sociedade a uma posição de agentes da mudança, para que através do esforço e empenho ao respeito ao coletivo, o individual seja atingido. Como disse Nelson Mandela: “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar”.

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