Por que 20/11, não 13/05?

Por que 20/11, não 13/05?

Pessoas da minha geração (1990, por ali) devem lembrar: antigamente se dava muita importância para o dia 13 de maio, o dia do “fim” da escravidão. Eventualmente cedeu lugar para 20 de novembro, morte de Zumbi e dia da consciência negra. O que mudou?

Algumas pessoas podem não entender ainda a importância do 20 de novembro, ou porque a data “mudou” dessa forma. Então a ideia é trazer um pouco de contexto sobre as duas, e tentar demonstrar a importância da data outonal. 

Esse é um texto introdutório. Você não vai ver grandes revelações ou hipóteses históricas descritas aqui. Se por algum acaso você chegou num processo de pesquisa, eu vou pedir que você olhe as fontes que eu usei. Estão lá no final do texto. Eu vou tentar ser o mais preciso possível, mas se tiver algum erro, por favor me avise.

Samba-enredo da Mangueira de 2019

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Mangueira, tira a poeira dos porões
Ô, abre alas pros teus heróis de barracões
Dos Brasis que se faz um país de Lecis, jamelões
São verde e rosa, as multidões

Brasil, meu nego
Deixa eu te contar
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra

Brasil, meu dengo
A Mangueira chegou
Com versos que o livro apagou
Desde 1500 tem mais invasão do que descobrimento
Tem sangue retinto pisado
Atrás do herói emoldurado
Mulheres, tamoios, mulatos
Eu quero um país que não está no retrato

Brasil, o teu nome é Dandara
E a tua cara é de cariri
Não veio do céu
Nem das mãos de Isabel
A liberdade é um dragão no mar de Aracati

Salve os caboclos de julho
Quem foi de aço nos anos de chumbo
Brasil, chegou a vez
De ouvir as Marias, Mahins, Marielles, malês

Escravidão à brasileira

O Brasil foi palco de um dos maiores crimes que a humanidade já cometeu, a escravidão transatlântica. Só para exemplificar, por volta de 6 milhões de judeus morreram durante o holocausto nazista no século XX. Estima-se entre 10 e 12,5 milhões de africanos sendo traficados para serem escravos, sendo 12% a 20% de mortalidade apenas da viagem. Mortos por maus-tratos, má alimentação e extenuação após a chegada já é outra conta. O regime nazista ocorreu por volta de 1930 a 1945. Por outro lado, o período escravagista durou por volta de 3 séculos.

Em primeiro lugar, que fique claro: não quero, aqui, minimizar ou reduzir o holocausto europeu do século XX. Quero pôr o período escravagista em escala: foi muito maior, e temos pouca noção disso. Aprender que “os portugueses escravizavam os negros para trabalhar na lavoura” é muito pouco para nos dar entendimento real.

A escravidão ocorre até hoje. Mas da forma como aconteceu dos séculos XVI a XIX, ainda não vimos algo parecido. Uma forma de evitar a escravidão contemporânea é saber como são produzidos os produtos que você consome. Existem algumas formas de se informar à respeito, o aplicativo Moda Livre é uma delas.

Gravura de pessoas negras sendo escravizadas sendo conduzidas em navios negreiros. alguns estão sendo arrastados por homens brancos, outros estão sentado e amarrados. Alguns estão descendo as escadarias para a parte inferior do navio. Dois homens brancos olham para os negros com superioridade. Zumbi.
Lembram de Deuses Americanos? Quando era bom?

Quilombos

Era de se esperar que as pessoas escravizadas não seriam coniventes com a situação. A saber, diversos conflitos e atos de resistência foram feitos, e uma das suas expressões mais famosas foram os quilombos. 

Quilombos são grupamentos sociais de africanos/afrodescendentes no Brasil. Imaginados principalmente como o retiro de ex-escravizados em fuga, o conceito acaba sendo mais abrangente, podendo incluir também terrenos comprados por ex-escravos, ou invadidos. Sobre o nome: 

A palavra “quilombo” tem origem nos termos “kilombo” (Quimbundo) e “ochilombo” (Umbundo), estando presente também em outras línguas faladas ainda hoje por diversos povos Bantus que habitam a região de Angola, na África Ocidental. Originalmente, designava apenas um lugar de pouso, utilizado por populações nômades ou em deslocamento; posteriormente passou a designar também as paragens e acampamentos das caravanas que faziam o comércio de cera, escravos e outros itens cobiçados pelos colonizadores. Significava também “acampamento guerreiro”, “capital, povoação, união”. Porém foi só no Brasil que o termo “quilombo” ganhou o sentido de comunidades autônomas de escravos fugitivos.

Ilustração representando um quilombo: pessoas negras, mulheres, homens e crianças, estão convivendo, fora de uma casa de pau-a-pique e teto de palha, Uma mulher cuida de um bebê, duas mulheres conversam algo na porta de casa. Crianças nuas estão interagindo com adultos
Parece um bom lugar

Palmares

Dentre os quilombos enquanto local de resistência e de renovação à ex-escravizados, o quilombo de Palmares, na atual região dos estados de Alagoas e Pernambuco, se destacou. Distribuído em diversos vilarejos, chegando a abrigar de 20 mil a 30 mil habitantes. Sobreviveu a diversas tentativas de conquista e dominação por parte dos colonizadores. Tanto por conhecerem bem a região, bem como por terem acesso à informações com moradores nas proximidades, Palmares durou por volta de 100 anos. Para além disso, Palmares também fazia incursões contra engenhos e fazendas próximas. Seus moradores destruíam os locais, e libertavam os cativos, trazendo-os para o quilombo. com efeito, isso fez não só com que Palmares crescesse, como tornou a escravidão nos seus arredores difícil, e cara.

Visão superior do memorial na Serra da Barriga, antigo Mocambo de Macaco, lar de Zumbi
Hoje em dia há um memorial na Serra da Barriga, de visitação pública

Zumbi

Dentre seus líderes, o último (e possivelmente o mais famoso) foi Zumbi. Pouco se tem certeza sobre esse homem com ares mitológicos nos dias de hoje. Seu nome seria a denominação de um cargo, representando o “Senhor da Guerra”. É provável que possa ter havido mais de um Zumbi, que seria justamente essa liderança tanto militar quanto espiritual.

Os colonizadores atacam Palmares sistematicamente, utilizando-se de bandeirantes e de líderes militares. Conseguirem, então, capturar familiares de Ganga Zumba, um de seus líderes. Esse ato fez com que Zumba recuasse e firmasse um acordo com a coroa, o acordo de Cucaú. O nome vem do local para onde Zumba e seus companheiros se mudaram. Essa negociação foi rejeitada por vários dos quilombolas, incluindo Zumbi, uma vez que faria com que vários negros fossem re-escravizados. Zumbi permanece no mucambo de Macaco, na Serra da Barriga, onde resistiu por mais alguns anos, mas finalmente o restante de Palmares foi destruído. Zumbi foge mas, em 20 de novembro de 1695, ele é encontrado, fuzilado, decapitado, e sua cabeça é posta em exibição no Recife, como intimidação contra possíveis novas revoltas escravas.

A historiografia de Zumbi é confusa e incompleta. Mas é incontestável que ele foi, dentre vários, um dos grandes líderes de resistência anticolonial e antiescravista. 

Estatua de Zumbi de Palmares, de material preto, ao fundo vemos a catedral de salvador.
Estátua de Zumbi, em Salvador/Ba, no bairro do Pelourinho

Isabel e a abolição

Já tratamos sobre o dia 20 de novembro. Vamos voltar para maio, agora.

Isabel era filha do imperador Dom Pedro II. Este fazia diversas viagens ao exterior, principalmente no fim da vida. Isabel não tinha interesse na política brasileira mas, por berço, se tornou senadora aos 25 anos, e exercia o cargo de regente na ausência do pai. E em maio de 1888 ela assina a Lei Áurea, que extinguia a escravidão no país. 

Contada dessa forma, a história esconde algumas coisas muito importantes: primeiro que Isabel era neutra com relação à escravidão, assim como seu pai. É preciso deixar uma coisa clara aqui: ser neutro, nesse caso, é não se posicionar. E não se posicionar é ser conivente. Isabel, pelo menos, era vista às vezes com camélias brancas, a flor que simbolizava os movimentos abolicionistas. Havia pressão de movimentos abolicionistas, pressão de movimentos antimonarquistas, pressões externas de países como França e Inglaterra. Isabel fez algo que talvez seu pai jamais faria, assinar o documento, mas só o fez quando já não havia mais escolha. Foi uma decisão puramente política. Na citação do prof. Celso Idamiano:

Antes de ser uma benevolência da herdeira ao trono, a abolição da escravidão parece ter sido premeditada pelo Império, já que o Brasil vinha sendo pressionado por movimentos abolicionistas (internos e externos). Pedro se encontrava debilitado e Isabel precisava de apelo popular para emplacar o terceiro reinado.

Celso Idamiano
Fotografia de Princesa Isabel
Nem ela vai fazer a gente defender a monarquia.

Consciência negra

Por fim, falar um pouco sobre a origem da data comemorativa, já pra gente fechar.

Oliveira Silveira (1941 – 2009), filho de branco uruguaio e preta brasileira, foi um grande pensador preto e gaúcho. Graduado em letras (Português e Francês), dando aula de português e literatura para o ensino médio. Além disso, era jornalista, e ativista do movimento negro. Com o interesse de pesquisar o protagonismo negro no Rio Grande do Sul, ele reuniu homens e mulheres interessados. Este grupo veio a se chamar Grupo Palmares. Dentre as discussões, estava a insatisfação com a data 13 de maio. 

Nossas conversas giravam em torno da insatisfação com 13 de Maio, achávamos que a comemoração, além de chapa branca, homenageava uma princesa “portuguesa” e não o povo negro. Daí percebi que era preciso encontrar uma data que fizesse justiça à luta continuada dos negros brasileiros.

Oliveira Silveira

A pesquisa por uma data apropriada o levou a estudar o quilombo de Palmares, e seu líder Zumbi. A data escolhida, portanto, foi a da morte de Zumbi, uma vez que nada se sabe sobre seu nascimento.

Do dia do nascimento dele ninguém tem registro. Zumbi é herói tão relevante para nossa história quanto o alferes Tiradentes

Oliveira Silveira
Retrato de Oliveira Silveira, onde ele se encontra encostado num tronco de madeira.
Prof. Oliveira Silveira

Porque 20/11, e não 13/05

Que conste, o 13 de maio foi uma data importantíssima para o Brasil. Sem ela estaríamos numa merda muito pior. Mas é preciso entender que tornar Isabel símbolo da luta abolicionista é um apagamento/branqueamento histórico, de uma luta travada há séculos, desde os quilombos, que já citamos, a figuras como Luiz Gama, advogado que ajudou a libertar mais de 500 pessoas escravizadas por meio de ações na justiça.

É apagar Dragão do Mar, o barqueiro que não só se recusava a transportar escravos, como em diversos momentos atrapalhou o fluxo do tráfico de escravizados. Esquecer de Maria Firmina, uma das primeiras escritoras abolicionistas. Ignorar Dandara, personagem que não possui comprovação historiográfica, mas que seria a esposa de Zumbi. Ela, assim como citado por Killmonger no filme Pantera Negra, preferiu o suicídio à ser capturada pelos colonizadores. É por isso que, historicamente, o movimento negro rejeita o 13 de maio como data símbolo. É um fato importante, mas pouco representativo. Zumbi é uma figura histórica mais antiga, mas ainda assim suas ações são inspiradoras até hoje. E que assim continue.

Luiz Gama, Maria Tomásia Figueira Lima, Dragão do Mar, André Rebouças, Adelina, Maria Firmina dos Reis
Luiz Gama, Maria Tomásia Figueira Lima, Dragão do Mar, André Rebouças, Adelina, Maria Firmina dos Reis

Referências

Esse texto foi modificado da primeira versão do editorial desse mês. Por isso, as referências foram tão abrangentes.

Mangueira – Samba-Enredo 2019

[Wikipedia] Dia da Consciência Negra

Dia da Consciência Negra: 20 de novembro

20 de novembro – Dia da Consciência Negra

Dandara

O que é e para que serve o Dia da Consciência Negra?

Por que 20 de novembro é o dia da Consciência Negra?

Steve Biko

20 de novembro – Dia Nacional da Consciência Negra

[Wikipedia] Holocausto

Holocausto

Modern Slavery Map

Slave Voyages

Pelo menos 1,1 milhão de judeus foram mortos em Auschwitz

Metade dos americanos não sabe que 6 milhões de judeus foram mortos no Holocausto, diz pesquisa

Navios portugueses e brasileiros fizeram mais de 9 mil viagens com africanos escravizados

[Dissertação de Thiago de Souza dos Reis] Morte e escravidão: padrões de morte da população escrava de Vassouras, 1865-1888.

Escravidão, doença e morte ontem e hoje no Brasil

A era da escravidão

Nazismo

Comércio de escravos no Atlântico

Quilombo

Textos sobre Escravidão no Brasil do portal Geledes

Cabula: resistência quilombola – uma ascendência Cabulosa

Princesa Isabel

Lei Áurea

Qual o real interesse por trás da libertação dos escravos no Brasil?

Muito além da princesa Isabel, 6 brasileiros que lutaram pelo fim da escravidão no Brasil

Lei Áurea – Princesa Isabel sancionou a lei que pôs fim à escravidão

Lei que libertou os escravos no Brasil completa 125 anos

Oliveira Silveira: Um dos idealizadores do 20 de Novembro

Oliveira Silveira

Quilombo dos Palmares

5 verdades e mitos sobre a abolição da escravatura no Brasil

Oliveira Silveira – Vida e Obra

50 anos do 20 de novembro: Oliveira Silveira, presente!

https://www.portalmatasul.com.br/quilombo-dos-palmares-agora-e-reconhecido-patrimonio-cultural-do-mercosul/
https://www.ufrgs.br/epsuas-rs/2019/11/18/novembro-negro-no-blog/
https://www.geledes.org.br/steve-biko/?gclid=CjwKCAjw0On8BRAgEiwAincsHPoxAzVILlbo6Yz5Sgyj5wVXaaDzGAX-A3f4OlU-8dcdkwnMVZHejhoCG30QAvD_BwE
https://www.geledes.org.br/um-breve-resumo-do-trafico-transatlantico-de-escravos/

Falando de algum lugar no universo - Fernando Medeiros

Graduado em Ciência da Computação, pai de dois cachorros, sommelier de memes. Criador do (então) falecido Cinenerd.

2 Comentários
  1. Responder Felipe Barros de Sousa 20 de novembro de 2020

    Achei esse texto bastante informativo, e diria que formou uma boa coleção de textos comemorativos/discursivos sobre o novembro negro. É estarrecedor que nesse ano tenha morrido mais um negro de maneira tão estranhamente simbólica. Alguns símbolos jamais deveriam se repetir, né? Nos resta lutar, tal qual Zumbi.

    1. Responder Fernando Medeiros 3 de janeiro de 2021

      Na verdade, todo dia morre um negro, a diferença foi só como e quando ele morreu. Mas eu concordo, só nos resta lutar porque as perspectivas são terríveis.

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