Bacurau: Uma distopia brilhantemente nordestina

Bacurau: Uma distopia brilhantemente nordestina

Desde seu primeiro longa, a experiência estética e social de O som ao Redor, Kleber Mendonça nos mostra que é um daqueles artistas que marcam seu nome na história e tempo. Aquarius é um dos registros mais honestos sobre o golpe de 2016. Seu cinema é combativo, peças políticas que dão voz àqueles geralmente silenciados.  Em Bacurau, juntamente com Juliano Dornelles, Kleber cria um espelho sombrio da calamidade política que vivemos hoje no Brasil. Calamidade tão doentia, que nem mesmo todas as barbáries que são mostradas nos causam estranhamento, é como se de alguma forma estivéssemos anestesiados e condicionados a tanta violência e descaso. E provavelmente estamos

Juliano e Kleber nas fimalgens de Bacurau.
Foto: Victor Jucá/Divulgação

Caso você ainda não tenha assistido a esse filme saiba que é uma obra maravilhosa e, definitivamente, deveria ser vista por todos. Então vá ao cinema sem receios. O que se segue neste texto é uma reflexão, uma leitura sobre simbolismos e alegorias dessa obra, como são usadas para expor os problemas de nossa sociedade. Então caso naõ tenha assistido Bacurau, recomendo que veja o filme antes. Pois o que vamos discutir aqui pode comprometer sua experiência ao assisti-lo.

Sinopse

Pouco após a morte de dona Carmelita, aos 94 anos, os moradores de um pequeno povoado localizado no sertão brasileiro, chamado Bacurau, descobrem que a comunidade não consta mais em qualquer mapa. Aos poucos, percebem algo estranho na região: enquanto drones passeiam pelos céus, estrangeiros chegam à cidade pela primeira vez. Quando carros se tornam vítimas de tiros e cadáveres começam a aparecer, Teresa (Bárbara Colen), Domingas (Sônia Braga), Acácio (Thomas Aquino), Plínio (Wilson Rabelo), Lunga (Silvero Pereira) e outros habitantes chegam à conclusão de que estão sendo atacados. Falta identificar o inimigo e criar coletivamente um meio de defesa.

Bacurau

Bacurau é uma cidade fictícia localizado em algum ponto do nordeste brasileiro. Talvez nem seja “cidade” o termo mais adequado, mas  sim “vilarejo” ou “povoado”. É um pequeno grupo de pessoas que criou uma comunidade no meio do nada. Somos apresentados a Bacurau por Teresa, que após anos longe retorna a sua terra natal. Inicialmente temos a impressão de que Teresa será a protagonista da história, mas com o desenrolar da trama vemos que ela está ali justamente para nos introduzir ao contexto local, para nos aproximar de cada um dos personagens. Entendemos que a cidade é a protagonista do filme, Bacurau em si, e nenhum personagem especificamente. A comunidade é muito unida, todos se conhecem e se ajudam. Criamos uma relação muito íntima com a cidade e seus moradores. Praticamente todo primeiro ato do filme serve para estabelecer essa relação, conexão, entre o espectador, personagens e a cidade.

Política

Esse filme é uma peça política por si só. Mas quero aqui falar da política especificamente na cidade de Bacurau, e na forma simbólica como o diretor coloca a relação da população com o prefeito. Sim, por mais marginalizada que seja Bacurau, ela tem um prefeito. Um homem  branco que nem mesmo mora no vilarejo, e que retorna nesse ponto da história justamente pela proximidade das eleições, o que é bem comum na vida real também. Dois momentos específicos dessa relação me chamam atenção. Primeiro quando o prefeito vai a Bacurau pela primeira vez. Toda comunidade se esconde, as ruas ficam desertas, como uma cidade fantasma. O prefeito chega, fala, e ninguém responde. O povo da cidade não quer dialogo com o político, não acreditam em suas palavras e só se manifestam para expulsá-lo a gritos. Isso é muito significativo quando pensamos nas últimas eleições presidenciais que tivemos aqui no Brasil, onde 30% de toda população votante, ou não compareceu, votou em branco ou nulo. Existe claramente um desinteresse das pessoas por política. E é justo, o povo de forma geral, principalmente as camadas mais pobres da sociedade não se sentem representadas nem assistidas pelo poder público. E grande parte das pessoas que votaram, não tem consciência política, não entendem as estruturas da sociedade e nem como se movimenta a máquina pública. Generalizando, o povo brasileiro sofre de um analfabetismo político. E isso é conveniente para muita gente, principalmente para as camadas mais abastadas da sociedade. E a gente paga o preço por esse desinteresse do povo, estamos pagando nesse exato momento. 
Segundo momento muito simbólico dessa primeira visita do prefeito a Bacurau, é quando um caminhão cheio de livros os descarrega de qualquer jeito no chão do povoado. Me parece muito uma alegoria para o desdém do poder público para a educação e o conhecimento científico. Muita coisa melhorou na educação pública desde a virada do século. Mas agora, setembro de 2019, o que o governo federal tem feito é um desmonte total do ensino superior público e dos órgãos de pesquisa científica ligadas ao estado. Tivemos um congelamento de orçamento muito grande. Muitas universidades estão parando de funcionar, muitos cientistas e pesquisadores estão tendo de abandonar seus estudos por isso. Logo em tempos onde a ciência se faz tão necessária, em tempos onde nosso atual premiere, Ernesto Araújo, questiona se a terra realmente é redonda. E que temos um presidente, Jair Bolsonaro, que desacredita no aquecimento global, mesmo com parte da floresta amazônica em chamas, e com milhares de estudos que comprovam isso. A cena dos livros sendo despejados no chão me faz pensar muito em tudo isso. Temos trocado a ciência e o conhecimento por um monte de irracionalidades e idiotices sem fundamento algum. 

O complexo de vira-lata

Um dos pontos de virada na trama é quando surge um casal de motoqueiros, pessoas de fora que causam desconfiança na comunidade local. É interessante nesse momento que eles foram convidados duas vezes pelos locais a conhecer o museu da cidade. E o casal de forasteiros não teve interesse algum em visitar o museu. Eles até acham engraçado, e tratam com desdém o convite. Afinal de contas, o que de interessante poderia existir em um museu minúsculo de um vilarejo paraíba?  Pense bem, eles estão vindo de fora, a forma de cortesia e hospitalidade que o povoado encontra para com seus visitantes é o convite ao museu, e ainda assim eles se julgam superiores o suficiente pra dizer não ao convite. E felizmente essa recusa a conhecer o museu vai ter peso bem grande no futuro.

Udo Kier como Michael


Logo sabemos que esse casal visitou Bacurau estava lá com as piores intenções possíveis. E então o mistério nos foi revelado. Esse casal de brasileiros estava na verdade prestando auxílio a um grupo de norte-americanos, sociopatas, que tem por hobby  caçar pessoas. A cena da mesa de reuniões é um tapa na cara da classe média brasileira, principalmente do sudeste e sul do país. O casal tenta se colocar em pé de igualdade com o grupo de americanos, dizendo que são do sul do país, terra muito rica, colonizada por italianos e alemães, e que por isso eram iguais. É  hilário ver o casal sendo rechaçado pelos americanos, porque eles não veem esse casal como pares. Mas sim da mesma forma que veem qualquer pessoa brasileira, qualquer pessoa de Bacurau. Como uma vida que não vale nada, uma coisa inferior. E acredito que isso seja muito significativo. Por mais clara que seja sua pele, seus olhos, por mais liso que seja seu cabelo, aos olhos de um americano médio, você é só mais um brasileirinho, só mais um selvagem de um país subdesenvolvido. Talvez eu esteja sendo muito radical aqui, mas essa é a mensagem que Kleber e Juliano estão nos passando. Eu moro no RS, nasci e cresci aqui. E esse mito de superioridade é real, principalmente em relação a região norte e nordeste, muita gente acredita que aqui seja região mais rica do país, que somos distintos pela colonização europeia. O que não é verdade. Grande parte da cultura tradicionalista gaúcha é fundada por mitos, e muitos deles racistas. Tanto que aqui, região sul, foi onde o presidente com discurso mais racista de todos foi campeão de votos. As pessoas aqui se identificam com atual presidente por algum motivo, e infelizmente receio que sejam pelos piores possíveis. Ainda sobre o presidente Bolsonaro, que se diz patriota, vale lembrar que ele fez dos EUA seu norte político, tanto que prestou continência à bandeira norte-americana em sua campanha (que tipo de patriotismo é esse?). E ele é um entreguista, quer privatizar tudo, e de preferência para empresas norte-americanas. Nesses meses de governo já fez várias concessões políticas e econômicas, sem ter nada em troca. Então acredito que seja uma sugestão de reflexão bem válida para a classe média que adora ir pra Flórida, que desdenha de forma xenofóbica do nosso nordeste.  Por mais diferentes que sejamos, ainda assim, para quem olha de fora com superioridade, somos todos brasileiros.

Essencialmente Sertão

É  difícil de imaginar a trama desse filme se passando em outro lugar que não o sertão nordestino. Essa região tem uma história de lutas sociais e resistência que são emblemáticas na história desse país. E atualmente vem sendo hostilizada pelo atual governo federal, pelo fato de que maior parte dos governadores desses estados são oposição a Jair Bolsonaro. E Bacurau como símbolo,  resiste. E resiste porque é uma união de todos da cidade, porque valoriza e conhece sua história e suas pessoas. Em termos narrativos, literalmente do roteiro, grande trunfo do vilarejo é o museu cheio de armas. E quando o museu nos é mostrado, antes de armas, vemos imagens do passado, fotos do cangaço, braço da resistência popular. E com obviedade pensamos nessa força de espírito histórica que acompanha as pessoas de Bacurau, e que se o casal de motoqueiros tivesse ido visitar o museu, e visto que a cidade não era tão indefesa, talvez o fim dessa história fosse outro.

Violência

Uma crítica bem óbvia aqui é sobre o armamentismo. A relação dos norte-americanos com suas armas, excitação, literalmente. A cena do tiroteio na escola é outra alegoria  muito forte. A sociedade norte-americana sofre com school-shooting a muitos anos, mesmo assim o amor do cidadão americanos por armas não diminui. E atualmente estamos vendo grande parte da sociedade brasileira clamando por esse tipo de perversão que é ter uma arma, que só serve pra matar outras pessoas. Inclusive. além do carinho e amor por armas de fogo, outra coisa que nossa sociedade está importando do EUA são os ataques em escolas. Esse ano tivemos o caso de Suzano. Curioso é que em Bacurau o povo pega em armas em defesa própria, e acaba com o inimigo usando suas próprias armas. A direção faz questão de colocar na tela a marca das armas de fogo que estavam alocadas no museu, todos elas norte-americanas, colt, winchester, etc. A própria cultura armamentista e violenta dos norte-americanos, deu fim a os mesmos.
A história desse filme se passa em um futuro próximo. Tem um easter egg bem interessante, em uma cena vemos uma tv e nela está passando uma notícia, de que em SP foram iniciadas as execuções em praça pública. O que me parece bem pertinente, tendo em vista que boa parte da população brasileira já se manifestou favorável a esse tipo de pena. Bacurau me faz pensar onde podemos chegar se seguirmos nesse caminho de ódio e violência ao qual enveredamos nos últimos tempos.

Por fim

Bacurau é uma grande alegoria sobre o Brasil dos dias atuais. É um alerta sobre as consequências dos caminhos que temos tomado enquanto sociedade. Mas além disso Bacurau também é sobre resistência, luta e coragem. Nosso país está cheio de Bacuraus por aí. Cidades esquecidas, abandonadas e negligenciadas pelo poder público, mas que acima de tudo sustenta-se em si mesmas, na força das pessoas. Esse filme é uma obra-prima, das mais distintas da história do cinema nacional. Bacurau já é histórico, e sobretudo pertinente e necessário.






Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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