“Ei, olha, é o filme novo daquele ator, o… o… O Pantera Negra!” Vamos, então, falar do filme do senhor Negra, Pantera: Crime Sem Saída (21 Bridges, 2019)

SINOPSE
Andre Davis (Chadwick Boseman) é um Detetive reconhecido por não perdoar assassinos de policiais. Então, quando 7 policiais são mortos por uma dupla de ladrões, não hesitam em chamá-lo. Não restam muitas opções, além de fechar a ilha de Manhattan, e descobrir a verdade, seja ela qual for

COMENTÁRIOS
Boseman não começa sua carreira como super herói nas telas. Porém, quando se alcança esse nível de destaque, é difícil não ficar automaticamente curioso para ver seus novos papéis fora do MCU. Na verdade, esse tipo de expectativa é, na verdade, muito injusta, uma vez que a carreira dele é registrada desde 2003, pelo menos de acordo com o IMDB. Mas enfim, nada mais humano que a injustiça.
Se você chegou até Crime Sem Saída movido por esse motivo, pode ficar tranquilo: Chadwick brilha, como era de se esperar. Ele é bom ator nas cenas de ação, nos diálogos, e nas expressões. você não vai se decepcionar com ele em cena.

ATUAÇÕES
Na verdade, todo o elenco principal (Chadwick Boseman, Sienna Miller, J.K. Simmons, Stephan James, Taylor Kitsch) manda bem em seus papéis. Destaque para J.K., o eterno J. J. Jameson, e para Stephan, que protagoniza o maravilhoso Se a Rua Beale Falasse.

DESLIGAR O CÉREBRO?
Crime Sem Saída tem tudo para ser um filme de ação genérico. Não seria um demérito. Mas é um filme inteligente, não segue a lógica do “desligue o cérebro pra assistir”. Andre Davis é um policial inteligente, tendo que lidar com uma trama intrincada além do óbvio. Michael (Stephan James) também é inteligente, apesar das decisões tomadas na vida, e consegue ver além da situação posta. Por mais que você deduza a resolução do filme no começo (o que não é difícil), você ficará preso ao desenrolar.

CONCLUINDO
Crime Sem Saída é um excelente “Domingo Maior”, mas com inteligência. Você não verá uma ação desenfreada, as coisas tem motivo para acontecer. Andre não é um “brucutu”, é um policial fazendo o seu trabalho. É um filme para fãs do gênero ação, mas que pode prender a atenção de qualquer pessoa. Vale a pena!
MOMENTO P.S. (Pode Spoiler)
Tem dois pontos no filme que me chamaram muito a atenção, e me geraram desconfortos de maneira distinta. A primeira é a entrevista de Andre na corregedoria, a segunda é a fala de McKeena (J.K. Simmons) nas sequencias finais. Quem considera incomoda a luta anti-racista, e o questionamento de práticas policiais, não vai gostar desse trecho. Vamos na ordem.
Ainda na igreja, fica clara a construção moral de Andre, ser policial é sua herança familiar, mas ele tem um senso de justiça próprio. Na corregedoria, fica ainda mais claro: ele não se incomoda de atirar para matar seus suspeitos, desde que isso não viole o seu senso de moral pessoal. Ser policial, para ele, não é apenas servir uma população, é seu DNA. Ele usa metáforas de guerra para justificar seus atos. Nada disso é exatamente uma novidade, esses costumam ser os discursos policiais tanto nos EUA, como mesmo aqui no Brasil. Mas quando sai da boca de um homem preto, me incomoda profundamente. Discursos como o que ele profere são usados por oficiais de farda por todo o nosso país para justificar abusos contra a população. Sendo pretos e pobres, pior ainda: chacinas metafóricas ou literais são justificadas como o combate crime. Procedimentos como auto de resistência, e o atual excludente de ilicitude, são reconhecidas táticas de livrar policiais da culpa de terem matado injustamente civis. Com injustamente quero dizer, tanto no assassinato de inocentes, como de suspeitos sem provas, como de sujeitos com provas mas ainda sem julgamentos. Inclusive, com julgamentos: é preciso sempre lembrar que não existe pena de morte em nosso país. A necropolítica que, nesse contexto, age principalmente contra homens pretos e pobres, se apoiam nesses discursos bonitos de mal menor, ou de fazer a “verdadeira justiça”. Repito: ouvir isso de um homem preto foi muito incômodo. E é curioso pois, o personagem, no decorrer da trama, é melhor trabalhado, e você entende que a impressão inicial é, de fato, uma impressão. Você descobre que ele nunca dá o primeiro tiro, que ele sempre investiga quem ele está perseguindo, que ele não hesita em investigar a verdade mesmo que esta venha a se voltar contra seus irmãos de farda. Mas porque ele não começa o filme já falando essas coisas? Por que passar essa impressão? É de começar o filme já com um amargor na boca.

Mas leva ao segundo ponto, o discurso do McKeena: ele justifica a corrupção policial do seu distrito como a forma de compensar seus policiais, e conseguir lhes dar uma vida digna, para que continuem trabalhando todos os dias numa cidade que os odeia. Eu venho pensado muito na polícia, ultimamente. Ou melhor, nos policiais. Aqui não é espaço para um debate maior, mas temos alguns fatos: policiais são membros da classe trabalhadora, são mal pagos, (no contexto brasileiro) são mal treinados e (no contexto brasileiro) também são pessoas pretas. Em Crime Sem Saída, ver que homens de farda se voltaram ao crime para aumentar sua renda é muito triste e não é perdoável, assim como não se justifica a criação de milícias e o tráfico que ocorrem aqui no Brasil. Porém, o gatilho de empatia é ativado. De fato, não são bem remunerados, e de fato, dão a vida para proteger pessoas que os odeiam. Mas sobre o segundo ponto, e mesclando os contextos Brasileiro/Estadunidense, o ódio à corporação, primeiro, não é hegemônico (muita gente defende a classe, e inclusive defende os seus abusos!), e segundo, não vem do nada. A população sofreu, e sofre, com abusos policiais cotidianamente. O caso de Paraisópolis, ou do Cabula, ou enfim, tantos outros na nossa história, são ápices desse conflito cotidiano. E que, assim como no filme, costumam ser justificados pelo tráfico de drogas, e o combate ao mesmo.
A guerra às drogas é o motor dessa máquina de moer carne preta.
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