Nem sempre dá pra comparecer a todas as cabines de imprensa que somos chamados. Por diversos motivos. E quando acontece, às vezes a gente só deixa o filme passar, porque a vida cobra. Mas hoje consegui assistir Se a Rua Beagle Falasse (If Beale Street Could Talk, 2018) e… bom, ainda tô me recuperando.

SINOPSE
Tish (KiKi Layne) e Alonzo “Fonny” (Stephan James) são um casal jovem e cheio de planos. Mas um acidente pode acabar atrasando esses sonhos.

POR ONDE COMEÇAR…
Começar dizendo que esse texto pode ter spoilers, Rua Beale acabou mexendo muito comigo. Mas vou pegar leve como sempre.
O que falar desse filme que eu não sabia o que esperar e me arrebatou…?
Explorando um pouco mais a sinopse, até porque eu fui muito bonzinho nela: não foi um “acidente”. Foi um ato premeditado de um homem da lei com a pior das intenções que estraga a vida desse casal.

MOTIVAÇÕES
Se a Rua Beale não é apenas um romance lindíssimo, é mais uma crítica e um apelo à forma como o sistema penal estadunidense lida com suspeitos (e são ainda menos gentis se você for de alguma minoria social).
Se a Rua Beale falasse é, acima de tudo, um filme que lhe angustia pelo contraste: as cenas belas (e o diretor de fotografia, James Laxton, está de parabéns) são cortadas por uma narrativa desgraçada, que só vai te enchendo mais e mais de tristeza. Tristeza por te mostrar como tudo que lhe motiva pode lhe ser tirado sem que você tenha QUALQUER controle.
Ele é um pouco mais, também. É um filme que grita onde os valores da família devem estar. Principalmente quando um dos seus se encontra num estado de extrema fragilidade.

TECNICALIDADES
O Oscar já passou e, como sempre, carregando seu caminhão de injustiças. Como Green Book venceu, e Rua Beale não foi nem indicado…? Oscar nunca foi sobre justiça, de fato.
Mas mesmo assim, Rua Beale recebeu algumas indicações de estatuetas, e vale a pena mencioná-las
Regina King foi indicada para melhor atriz coadjuvante, por viver a mãe de Tish, e é muito merecido. Toda cena em que ela está, ela cumpre seu papel com maestria, mas toda a sequência de viagem para Porto Rico, principalmente a cena do espelho… sua vitória foi mais que merecida.
Concorreu também a melhor roteiro adaptado, perdendo para Infiltrado na Klan. Não acho injusto, era um adversário à altura. Não li o livro, pretendo, mas é um filme incrível. Imagino o que Barry Jenkins não teve que deixar de fora da obra de James Baldwin.
Por fim, perdeu melhor Trilha Sonora Original para Pantera Negra, que de fato tem uma ótima trilha. Mas as composições de Nicholas Britell, que você pode ouvir clicando aqui, te deixam imerso de uma forma… é daquele tipo de trilha que você põe para tocar, e começa a refletir sobre a vida.
Gostaria de uma indicação também por melhor fotografia. Porque o trabalho de James Laxton, com a paleta de cores escolhidas, closes e iluminação… não tem como não se apaixonar.
Por fim, eu quero elogiar a direção e roteiro de Barry Jenkins, que é perfeito.

CONCLUINDO
Poucas vezes, fora quando saio de cabines de imprensa, me peguei “obrigado” a escrever sobre um filme assim que o terminei. Mas não tive como, as cenas de Se a Rua Beale Falasse ecoam na minha mente e no meu coração até agora, não pude evitar.
Se posso te dar um conselho, espero que antes de ver Se a Rua Beale, você já tenha assistido A 13ª Emenda (13th, 2016). Isso vai te dar mais histórico sobre o sistema prisional americano, e você não ficará tão chocado/a. Porém, dependendo de onde você more aqui no Brasil, você não vai se sentir chocado de forma alguma.
Abraços.
