Jojo Rabbit – Uma fábula agridoce, estilosa e divertida.

Jojo Rabbit – Uma fábula agridoce, estilosa e divertida.

Diversão, aventura e nazistas bonzinhos. Com três indicações ao Oscar, incluindo melhor filme, Jojo Rabbit é uma das obras mais aclamadas da temporada.

Sinopse

Jojo (Roman Griffin Davis) é um garoto alemão solitário que descobre que sua mãe está escondendo uma garota judia no sótão. Ajudado apenas por seu amigo imaginário, Adolf Hitler (Taika Waititi), Jojo deve enfrentar seu nacionalismo cego enquanto a Segunda Guerra Mundial prossegue.

Taika Waititi

Taika Waititi alcançou projeção mundial, conquistando o grande público, em 2014, com o genial What We Do In The Shadows. Que é simplesmente o melhor filme de vampiros já feito (eu realmente acredito nisso). Não demorou muito e logo a mente brilhante do diretor neozelandês foi cooptada pela casa do rato, onde foi encarregado de trazer à tela o crepúsculo dos deuses nórdicos do MCU. Taika teve a sagacidade e ousadia de transformar um tema tão épico e dramático no filme mais engraçado e divertido da Marvel, com direito a plano detalhe da bunda desnuda do Hulk. Esse cara realmente é muito corajoso, mas além de coragem, tem grande talento na escrita de comédia, seu texto é extremamente preciso e inteligente, conseguindo criar humor nas situações mais banais possíveis.

Em Jojo Rabbit Taika explora seu lado mais dramático, usando de humor e deboche para tratar de um tema tão pesado e ingrato como nazismo. Sua direção aqui é muito divertida e estilosa, principalmente nas cenas de ação, o uso de câmera lenta é perfeito. Nas sequências mais sentimentais, especialmente na dinâmica de Jojo e sua mãe, a direção é sutil e contemplativa, a câmera para e apenas observa a relação dos dois. O que ele faz aqui, em direção e texto, dosando de forma precisa, humor non sense, sátira, e drama é brilhante. 

Isso sem falar na sequência de abertura do filme, onde ele combina imagens reais de Hitler sendo ovacionado pelo povo com trilha dos Beatles, e cria um clipe poderosíssimo, engraçado mas que passa exatamente a mensagem que tem de passar. Além de fazer esse ótimo trabalho na direção, Taika ainda teve a tarefa infame de encarnar Hitler. Quanto a sua atuação, é simplesmente ridícula e extremamente caricata, acredito que esse fosse o intuito, então tá tudo certo. 

Nazismo sempre será nazismo

Jojo Rabbit é um filme de comédia que é carregado de humor e de cenas muito divertidas. O primeira metade do filme é tão divertida e faz o nazismo parecer tão legal que chega nos causar estranhamento, pois é uma abordagem pouco comum para tratar desse tema. E de fato é uma diversão muito imersiva. Você compra a visão daquele mundo a partir da perspectiva do protagonista. E quando o espectador tá totalmente comprado pela encantadora fábula nazista o filme simplesmente o acerta em cheio, bate com uma força que é difícil manter o equilíbrio. Se você já assistiu o filme sabe do que estou falando, se ainda não viu, quando ver saberá exatamente do se trata. No meio da magia que foi construída desde o início do filme, ele para e te dá um tapa na cara, para lembrar que nazismo sempre será nazismo, e que o que aconteceu dentro desse regime foi uma das maiores atrocidades que já cometemos enquanto civilização. E é incrível como essa cena catártica, é construída, aliás, uma catarse universal, que é possivelmente uma das piores coisas que uma pessoa pode sentir. Voltando a construção da cena em si, é incrível a sutileza com que ela foi sendo construída ao longo da trama. É uma imagem que nos é mostrada a todo momento, sem parecer forçada. E quando a cena acontece é um impacto muito grande. Honestamente, de todos os filmes que já vi, foi a cena que mais me surpreendeu e me machucou. Mas é extremamente necessária para que algo seja ensinado. Taika aqui mostra que também pode ser um excelente diretor de drama.

O homem nasce bom

Velho jargão do Rousseau é repetido aqui. A gente, enquanto sociedade ocidental moderna, elegeu o nazismo e Hitler como os grandes vilões da história da humanidade. Não é injusto, de fato eles são responsáveis por um genocídio terrível. Mas fato é que demonizamos e desumanizamos qualquer figura nazista. Como se eles fossem essencialmente o mal. Quando na verdade Hitler, e qualquer nazista foram pessoas normais como nós. O filme tem esse texto muito forte, de dizer que alguém não é mau só por fazer parte de determinado grupo. Jojo é exatamente isso. É um garoto, como dito no próprio trailer, que gosta de usar um uniforme engraçado e fazer parte de algo. Quando falamos de crianças isso é ainda mais forte. Jojo não é mau neste ponto de sua história. Mas possivelmente se tornaria com o tempo, porque o meio onde ele estava inserido o estava transformando.
Como brasileiro, isso me faz pensar muito em minha sociedade local. Em 2018 o povo brasileiro elegeu Bolsonaro presidente, certamente um facínora, um homem repugnante e mal intencionado. E foi eleito por milhões de votos, pelos mais diversos motivos, dos mais nobres aos mais repulsivos. Mas desses milhões de votos que nosso presidente recebeu, muitos deles foram de pessoas bem intencionadas, pessoas que querem o bem dos demais e que não viam o mal que estavam fazendo. E as pessoas sempre se perguntaram como o povo alemão foi capaz de votar em Hitler, e hoje a gente entende isso olhando pro nosso país. Então é importante termos esse discernimento. Assim como no filme, nem todo nazista é o mal encarnado, nem todo brasileiro que elegeu Bolsonaro pensa como ele. Claro que isso não tira o peso e responsabilidade das pessoas que colocaram esses caras no poder, mas é algo ser considerado. Talvez eu esteja viajando demais com essa comparação, mas é uma viagem honesta. Voltemos ao filme.

Por fim

Taika Waititi mostra mais uma vez que é um dos diretores de cinema mais interessantes em atividade. E que humor consegue subverter qualquer coisa, por mais obscura e suja que seja. 

Jojo Rabbit é um ótimo filme, digno de todas as premiações em que tem sido lembrado. É uma fábula encantadora sobre a inocência infantil, sobre como nos deixamos levar  pelas circunstâncias e o perigo disso. É extremamente divertido e esteticamente estiloso, vai te fazer rir e chorar. É uma obra muito potente e pertinente. E nos deixa claro que certas coisas não são passíveis de relativização. 


Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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