A Cor que Caiu do Espaço

A Cor que Caiu do Espaço

Com atuação bizarra Nicolas Cage ataca novamente, e torna adaptação de conto clássico em obra medíocre. 

Sinopse

Os Gardners são uma família que se muda para uma fazenda remota na zona rural da Nova Inglaterra para escapar da agitação do século XXI. Eles estão ocupados se adaptando à sua nova vida quando um meteorito cai no seu quintal da frente. O misterioso aerólito parece fundir-se com a terra, infectando tanto a terra quanto as propriedades do espaço-tempo com uma estranha cor sobrenatural. Para seu horror, a família Gardner descobre que essa força alienígena está gradualmente transformando todas as formas de vida que ela toca… incluindo-as

Pressuposto e problemas da adaptação

Acredito que um filme sempre deva ser entendido e resolvido dentro de si mesmo, por mais que seja adaptação de outra mídia. Mas nesse caso creio que seja importante tocar no que diz respeito à  adaptação. A Cor Que Caiu do Espaço/Céu, originalmente publicado em 1927, é um dos contos mais célebres do escritor Howard Phillips Lovecraft (1890 – 1937). É uma história bem simples, mas extremamente poética e tensa, potencialmente terrificante.
A obra de Lovecraft é muito complexa de ser adaptada, pois grande parte de seu texto são descrições poéticas sobre coisas, sentimentos e situações. E essa descrição é algo muito dada a nossa imaginação. Tomemos por exemplo um trecho desse conto, onde é relatado que a mãe da família, algum tempo depois da queda do meteoro, sente que está “cintilando no escuro”, “cintilando no escuro”, como colocar uma descrição dessas em tela?   Esse é o grande desafio quando pensamos em transpor as obras desse autor para outra mídia onde a imagem é mais importante que o texto. O filme até tenta resolver isso, colocando uma narração de fundo lendo alguns trechos específicos do conto. Até fica legal como homenagem, mas em termos práticos não fazem o filme melhor. 
Além dessa dificuldade na adaptação do texto, outra coisa que me desagradou foram as opções narrativas e criativas que os realizadores deste filme escolheram. Eles deslocam a trama no tempo. A história original se passa no final do século XIX, e aqui se passa nos dias atuais. No conto original, acompanhamos o ponto de vista de um geólogo, que está na região fazendo um estudo sobre o solo, e vamos descobrindo junto com ele o que aconteceu naquele lugar, desnudando e se horrorizando com uma história passada. E aqui no filme esse geólogo é contemporâneo da família Gardner, ele está lá enquanto as coisas acontecem. Isso não seria um problema se fizesse algum sentido narrativo, mas não faz, é um personagem que fica solto na trama, e para quem não conhece o conto, a presença dele ali não fará sentido algum.
Aqui no filme o geólogo (Elliot Knight) não é mais o protagonista, mas sim a filha  da família (Madeleine Arthur). A gente vê as coisas do ponto de vista dela, o que não é ruim, mas reforça a sensação de que o geólogo não deveria estar alí, ficando sem lugar na história.
Outras questão importante é o clima da história. O conto é um suspense muito tenso, carregado de horror, é algo que vai se revelando aos poucos. Aqui no filme toda a questão do suspense e medo que vão escalonando até chegar no ápice de loucura, somem, e vai muito rápido do suspense para um horror de gore e impacto visual, trash mesmo. 
Ainda sobre opções criativas, conversando com outras pessoas que já leram o conto, é praticamente consenso de que a forma como Lovecraft descreve o ambiente nos cria a imagem mental de que é tudo em preto e branco, e aqui no filme é colorido. Mas aí é só leitor rabugento reclamando.

O problema Nicolas Cage

Nicolas Cage é um bom ator. Na verdade ele pode ser um ator espetacular, já nos mostrou isso em outras oportunidades. Inclusive, seu último filme antes deste, Mandy (2018) é uma obra incrível, onde ele entrega uma atuação sensacional. Mandy é uma obra da mesma produtora do filme que estamos comentando aqui, SpectreVision. Depois do sucesso criativo do filme de 2018,  Cage teria ficado muito feliz e animado, e questionou a produtora sobre possíveis projetos. Então eles desengavetaram a ideia de Richard Stanley de adaptar esse conto de Lovecraft. Mas isso é só curiosidade, sigamos ao problema Nicolas Cage.
A atuação dele aqui é muito descolada da realidade do próprio filme (ele faz o pai da família). A mudança na personalidade do personagem é muito rápida e pouco sutil. Ele passa de um pai amoroso e meio desajeitado à um cara maluco e ensandecido em poucas cenas.  O overacting dele é ridículo, cômico, engraçado de tão bizarro. Ele grita muito, faz caras e bocas sem sentido algum. O roteiro justifica isso com a contaminação do local que vai mudando também as pessoas, mas mesmo assim fica uma atuação fora de tom, vai além do que é justificado pela narrativa.
Não sei o quanto isso é só culpa do Cage. Acho que o diretor forçou essa atuação para que o filme abraçasse a trasheira de uma vez por todas. Em meu entendimento não ficou legal, é uma coisa que tira o espectador de dentro da história, você para tudo para ver Nicolas Cage maluco. 

Pontos fortes do filme!

Madeleine Arthur, melhor atuação e personagem do filme.

A cinematografia de Steve Annis é belíssima. Embora eu acredite que esse filme em PB fosse mais legal, o trabalho de fotografia aqui é muito bom. Desde a paisagem bucólica verde-acinzentada, até a fantasia colorida do meteoro que cai do céu, a imagem é sempre muito lúdica e representativa para o que está em tela, o trabalho de iluminação aqui é lindo. Essa fotografia cumpre o papel que o roteiro não faz, temos a percepção de que a coisa está se transformando ao redor justamente pela forma como as cores vão se modificando.

Fotografia certamente é o aspecto técnico mais célebre dessa obra. Tomemos esse plano como exemplo: Aqui o quadro é dividido em duas partes, a natureza e a casa, com o casal no limite entre os dois, mas ainda dentro do lar. Repare que o lado esquerdo do quadro mostra uma natureza fria, nebulosa, com alguns pontos de luz tentando quebrar a rigidez do ambiente. No lado direito temos a casa, ambiente aconchegante e acolhedor, temos essa percepção pela cor, luz, as lâmpadas são quentes, calorosas. A cadeira de balanço reforça a noção de que esse é um lugar de acolhimento e descanso. Enquanto no lado esquerdo temos as lâmpadas tentando inserir um pouco de humanidade/controle na natureza, do lado direito temos uma pequena planta, um contraponto visual, inserindo a natureza dentro do ambiente, e controle, humano. Além disso muito interessante reparar no casal no centro da imagem, outro contraponto visual.  Tendo estabelecido estes dois espectros de mundo nessa imagem, a natureza gelada, e a casa aconchegante e quente, temos a divisão do casal, o marido no lado direito do quadro, vestindo cores escuras e geladas, e a esposa na esquerda, vestindo uma cor clara, exatamente a mesma cor da casa. A disposição das cores compõe e forma perfeita e equilibrada esse quadro, frio/quente/frio/quente. Dentro dessa divisão de cores, associamos a esposa à casa aconchegante e calorosa, e o marido à natureza fria e misteriosa. 

A protagonista Lavinia, a filha da família, é a melhor personagem da história. Ela é a mais inteligente e centrada de todos, embora lá pro final o roteiro também “passe a perna” na personagem. 

E a piada de o geólogo ser um ator negro é outra coisa muito divertida desse filme. Pois, caso você não saiba, Howard Phillips Lovecraft, além de escritor brilhante, também era um escrotaço, racistão de carteirinha. Então me dá satisfação ver que o protagonista de seu conto, aqui é um negro. Descanse com essa Lovecraft. 

Por fim

A Cor que Caiu do Espaço, segundo dados do IMDB, teve custo de produção de  6 milhões de dólares, e faturou 942 mil de bilheteria mundial. É possível que o filme ainda seja vendido para algum serviço de streaming, mas até o momento é um fracasso total em termos de investimento financeiro. 
Até agora não consegui ter o entendimento de que esse  filme seja ruim ou bom. Acho que medíocre seja a qualificação mais adequada para essa obra. Ele tem coisas boas, mas também falha muito.  A escolha de tornar um suspense em trash me parece muito desacertada. Dentre as adaptações de obras de Lovecraft, essa possivelmente é uma das melhores, mas isso não é muito significativo. Em termos de conceito, Aniquilação é um filme que faz um trabalho mais eficiente de adaptação. Claro que é de uma outra obra literária, mas ainda assim, a obra fonte do filme de Alex Garland também é uma grande homenagem ao conto de Lovecraft.
Se você conhece o conto original vá ver esse filme sabendo que ele preserva o enredo básico da obra literária, mas em termos de construção de mundo e clima é bem diferente. Se você gosta de trasheira, provavelmente esse filme vai lhe agradar. Se você não conhece o conto, será mais fácil gostar desse filme.
Para encerrar, vale dizer que a cena final é muito boa, e tem um pouco da poesia do texto de Lovecraft.  

https://www.youtube.com/watch?v=oqcuvuK-M6M




Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

1 Comentário
  1. Responder Rogerio 30 de abril de 2021

    Filme ruim. horrivel.O Nicolas Cage canastrao como sempre mas fiquei com pena dele pois os dialogos e o roteiro sao muito ruins.Lovecraft como escritor ja e ruim imagina adaptado pro cinema.Lovecraft so tem carisma mas talento nao tem nenhum.Seus amigos Clark Ashton Smith e Robert Howard esses sim eram bons autores.

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