Rafiki – Amar é agridoce.

Rafiki – Amar é agridoce.

Amor, liberdade e sexualidade, Rafiki vem para nos mostrar o olhar feminino sobre a realidade LGBT no Quênia.

Enredo de Rafiki

Rafiki, que em Swahili(idioma Queniano significa amigo) conta a história de Kena e Ziki, filhas de rivais políticos, que acabam por formar uma amizade improvável, no entanto sólida. A amizade se torna amor e as meninas acabam desafiando a sociedade preconceituosa em que estão inseridas, colocando sua própria segurança em risco. 

É preciso entender o Quênia

Antes de falar sobre Rafiki é necessário falar primeiro sobre o país no qual o filme se passa. O Quênia é um país mergulhado em leis constitucionais extremamente rígidas, baseadas em valores familiares tradicionais. O que isso significa? Significa que boa parte do conteúdo veiculado no Quênia é duramente restrito e censurado. Anúncios com camisinhas, que insinuam sexo, consumo de álcool ou drogas e conteúdo LGBT é duramente cerceado pelo Órgão responsável pelo monitoramento, o Quênia Film Classification Board (KFCB).

Kena e Ziki sentadas na missa.
Kena e Ziki.

Por essa razão, o Quênia não veicula conteúdo LGBT, tanto que Rafiki, apesar de ser um filme queniano foi banido, podendo ser assistido em outros países. Esta não é a primeira vez que isso acontece no país, em 2016 um videoclipe musical da banda Art Attack chamado Same Love também foi retirado do ar. No vídeo, além de  personalidades abertamente LGBTs do País, casais LGBTs, manchetes homofóbicas, repressão policial e ataques a Paradas de Orgulho LGBT são mostradas.

O que Rafiki tenta fazer, de maneira sutil é uma clara crítica ao sistema político e legal no qual o Quênia está submerso. O atual presidente queniano Uhuru Kenyatta é vocalmente contrário a causa LGBT, tendo inclusive chegado a dizer que a causa LGBT “era um assunto sem importância para o povo queniano” e que os direitos LGBT não eram “direitos humanos”. O Quênia é um dos 70 países no qual ser LGBT é ilegal.

Destaques em Rafiki

Agora que você já sabe o contexto da produção, imagine o quão ousada é essa produção. Junte a isso o fato de que Rafiki é uma produção feminina do começo ao fim. O filme é inspirado no conto Jambula Tree da autora ugandense Monica Arac de Nyeko. O roteiro foi adaptado por  Wanuri Kahiu, que tem em seu portfólio outros 6 filmes e um livro infantil, alternando temas afrofuturistas, documentários, e a realidade queniana.  

Apesar do banimento no Quênia, Wanuri conseguiu na justiça que o filme fosse exibido por 7 dias nos cinemas quenianos, na esperança do filme ser indicado ao Oscar na categoria filme estrangeiro, todavia o país não indicou o filme. Apesar da contra corrente, Rafiki estreou no Festival de Cannes em 2018, sendo o primeiro filme queniano a ser exibido no festival, competindo na mostra Um Certo Olhar, a segunda mais importante do festival.

Wanuri, Samantha e Sheila  abraçadas tirando fotos no tapete vermelho de Cannes.
Wanuri, Samantha e Sheila em Cannes.

As atrizes principais de Rafiki não possuíam muita experiência em atuação, Samantha Mugatsia, que interpreta Kena, trabalhava como artista visual e nunca havia atuado, sua co protagonista, Sheila Munyiva que retrata Ziki estudou cinema como formação, entretanto atuou pouco, tendo trabalhado na direção de comerciais e curta metragens. A inexperiência das atrizes não chega a impactar negativamente no filme, pelo contrário, transforma a narrativa em crível e suave.

Muito da suavidade e calor que Rafiki vem do olhar feminino por trás das câmeras. Ouso dizer que enquanto a história de amor é contada, Rafiki é o que Azul é a cor mais quente tentou ser e nunca conseguiu. Doce, intimista, cálido, e apaixonante, Rafiki conta uma história que se desenrola tão ingenuamente e verdadeira, que por um momento, parece atender todas as expectativas de filme romântico, mas infelizmente o mundo real não são só flores e cenas bonitas.

Eu não posso mudar, mesmo que eu tentasse 

Previsível, porém necessário, o confronto com a realidade acontece em Rafiki de forma crua. A homofobia que é denotada desde o começo do filme, aparece de forma violenta e dolorosa, trazendo consigo o preconceito imbuído pelas crenças católicas de que ser parte da comunidade LGBT é ser possuído por demônios, e desviar-se do caminho familiar e tradicional. Confesso que ainda que esperado, o confronto com a realidade me atingiu como um murro no estômago, e me fez chorar como criança. 

Apenas fazendo parte de uma minoria social rejeitada você consegue compreender por completo a profundidade de certas dores, e nada dói mais do que a rejeição por ser algo que você não escolheu. Seja a cor da sua pele, seja sua orientação sexual, ou seu gênero, ser rejeitado pelo que você é, é uma das maiores dores que se pode experienciar, e Rafiki demonstra a maldade e ignorância humana diante da diferença de forma crua.  

Kena e Ziki conversam no muro do prédio, olhando a vista da cidade de Nairobi.
A exuberância colorida abrilhanta Rafiki.

Eu gostaria de escolher uma comédia romântica LGBT bonita e falar sobre ela neste mês tão importante, apenas celebrar ser LGBT, respirar, e amar, porque nós desejamos e merecemos. Entretanto, infelizmente esse não é o mundo em que nós vivemos e não posso deixar de me ater a realidade. Não no Brasil onde uma pessoa LGBT morre a cada 23 horas, tão pouco no Quênia onde você pode ser preso por 14 anos apenas por ter relações sexuais com alguém do mesmo gênero. 

Escolhi Rafiki pela luta, luta para desenvolver o filme, que demorou 6 anos para  veicula-lo em um país no qual pessoas como eu são proibidas de existirem, pela visibilidade à juventude negra queniana que lotou os cinemas e pediu que outras telas fossem abertas para poder assistir o filme. O que indica que há sim um clamor social para que as legislações sejam mudadas, e que para que estas pessoas possam ser representadas, em grandes e pequenas telas.

Escolhi Rafiki para me informar um pouco mais sobre a condição de pessoas como eu, que moram em outros lugares, pois educação e informação são as maiores ferramentas na nossa luta diária contra a ignorância e o preconceito. Entender um pouco sobre a realidade africana, por olhos africanos, sem conceitos pré concebidos e pasteurizados. Escolhi Rafiki, e não me arrependo, ainda que tenha doído demais.

O amor é paciente, o amor é gentil.

Durante as uma hora e vinte de filme, me peguei pensando que Rafiki poderia facilmente ter sido filmado no Brasil. Mais ainda, poderia ter sido feito no subúrbio em Salvador, ou até em Cajazeiras. Digo isso não só pela semblância das locações, mas também pelas semelhanças em algumas narrativas, os contrapontos com a igreja e a visão preconceituosa de algumas pessoas. Isso me proporciona medo e esperança em partes iguais, medo pela minha seguranças e pelos meus, mas também esperança.

Kena e Ziki andando de pedalinho no rio em seu primeiro encontro.
Kena e Ziki em seu primeiro encontro.

Porque no final, Rafiki é uma obra sobre esperança. Esperança por dias melhores, para brasileiros, quenianos, e outros membros da sigla LGBT ao redor do mundo. Esperança de que um dia nós seremos aceitos, respeitados, amados e livres. Nenhum ser humano deveria ser ilegal em sua existência, e Rafiki me dá a esperança de que um dia, num futuro não tão distante nós não seremos. 

Ainda que agridoce, Rafiki possui tantas qualidades que é quase como um final feliz. O olhar feminino no roteiro, na direção, e até na trilha sonora (que é toda composta por mulheres e você pode ouvir aqui), nos mostra que há muito que se esperar, do cinema Africano, principalmente das mulheres nele inseridas. A diretora Wanuri Kahiu, logo logo estreará em Hollywood, e eu espero que ela leve consigo a beleza melancólica e singela presente em Rafiki. O filme está disponível na plataforma Telecine Play, e eu super recomendo que você o assista com uma caixinha de lenços do lado. 

Existe uma frase de um escritor americano chamado David Viscott que diz: “Amar e ser amado é sentir o sol dos dois lados.” eu desejo que você se sinta assim, cercado de amor por todos os lados, sempre. Espero que você esteja bem, se cuidando durante a quarentena, celebrando caso seja LGBT nesse mês que é todinho nosso. Um beijo imenso e até a próxima!

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

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