Saiu. Depois de 7 anos do primeiro jogo, que marcou toda uma geração e influenciou outros estúdios. 4 anos depois do seu anúncio inicial, temos em mãos The Last of Us Parte 2 (TLOU2). Foco de bastante discussão e discórdia nas últimas semanas, TLOU2 parece um jogo talvez complicado, ou uma obra de arte ou a maior ofensa jamais feita nessa indústria.
Aviso: essa crítica contém spoilers. Por favor, jogue TLOU2 antes de ler esta análise!
4 anos após os acontecimentos do jogo anterior, Parte 2 nos joga em Jackson. Tanto Ellie quanto Joel vivem bem numa cidade bastante povoada, longe da destruição e ruína que víamos no primeiro jogo. Chega a parecer uma cidade como qualquer outra do mundo real, sem uma pandemia de zumbis (apesar de meio que estamos passando por uma, né? *chora*). Ambos, entretanto, estão distantes um do outro. Podemos supor o motivo, dada a mentira contada por joel no final do jogo anterior, mas nada fica muito claro.
Acompanhamos Ellie e seu interesse romântico, Dina, até que um evento traumático acontece, dando partida para toda a história do jogo, sua reviravolta no meio, e seu divisivo final: Joel é morto por uma mulher chamada Abby, juntamente de outros companheiros, em papéis mais coadjuvantes. Pouco sabemos dela ainda, apesar de termos controlado ela um pouco no início do jogo. Um dos seus amigos, Owen, a convence a deixar Ellie e Tommy, irmão de Joel, vivos.
Ódio e raiva
Nós jogadores, juntamente da Ellie, somos possuídos por raiva. Dias depois Ellie parte em busca de vingança, junto de Dina, em direção a Seattle. Estraçalhamos nossos inimigos, centenas dele, somente pra chegar no objetivo final: Abby.
Ellie, entretanto, não é Joel. Ellie não viveu vinte anos cometendo atos atrozes, desumanizados. Conforme chega perto do seu objetivo, e vai matando um por um dos amigos da Abby, essas mortes vão pesando na sua consciência, lhe tirando pouco a pouco a sua humanidade. ela mesma dá um basta na matança que está causando ao matar os 2 últimos amigos de Abby.

Finalmente nos é revelado, por meio de flashbacks, que Ellie descobriu, sim, a grande mentira de Joel. O futuro distanciamento ganha sentido.
Ellie percebe ,talvez, que vingança nunca vale a pena, e quer voltar pra casa. Nada poderia ser tão simples assim. Abby dá de novo suas caras, e o jogo mostra a sua mão. Transição para o preto, voltamos ao primeiro dia, mas agora controlamos Abby. Vivemos com ela, durante 3 dias após matar Joel, o que a realização dessa vingança trouxe.
O Outro, e a nossa falta de empatia
Nessa sua reviravolta, penso que a Naughty Dog tomou um risco incrível. É uma mudança de ponto de vista, de uma reflexão do que o jogador, e mais especificamente a Ellie, estavam fazendo até então. Jogos, de maneira geral, tem sua moral bastante definida e fácil de colocar numa caixinha de bom ou mau. Há nuance aqui. Há uma reflexão do que é o Outro. Como posto por Lacan, ‘’o Outro é todos aqueles que não se assemelham a nós, a negatividade lhe é própria.’’
Há uma recontextualização das suas atitudes até então. Abby, até então o Outro, vai se tornando nós, conforme a segunda metade do jogo progride. Vemos nela, intencionalmente, um paralelo ao Joel durante o primeiro jogo. Traumas levam ambos a um caminho ruim. Com Joel, foi a perda de sua filha Sarah no início da pandemia. Com Abby, trata-se da morte do seu pai, pelas mãos do Joel no final de The Last of Us 1. Ambos encontram redenção e crescimento moral (o que é discutível no caso do Joel) ao salvarem e interagirem com crianças.

No caso da dela, trata-se de Lev. Um dos primeiros personagens transgênero masculino no contexto de jogos AAA, ele é a bússola moral de jogo, e reforça ainda mais esse discurso do Outro, e sua subsequente superação. Lev e sua irmã salvam Abby em um determinado momento, desafiando a visão que Abby tinha da facção deles até o momento. Enquanto fazia parte da Frente de liberação de Washington (WLF), os Seraphite eram somente os errados. Alguém para matar.
O Outro lado
Nós somos martelados a todo tempo desta campanha, a reflexão daqueles que antes chamávamos de vilões, de inimigos. É claro, certamente não é sutil. As pessoas são mais que rótulos, por mais complicadas que elas sejam. O exercício mental proposto por alguns na internet, de imaginar como teriam sido nossas reações caso The Last of Us 1 fosse sobre Abby primeiro, e não Joel e Ellie, é fascinante pelo choque inicial que isso passa. Tudo uma questão de ponto de vista.
Voltamos então ao ponto de divisa das duas personagens. Vemos aqui, apesar de um confronto, Abby novamente deixando Ellie ir embora. Abby já passou dos estágios de vingança (mesmo que com ajuda de Lev). Entende o custo que se vingar de Joel lhe custou: seus amigos. Este ciclo tem que ser quebrado de alguma forma. Entretanto Ellie, como iremos ver adiante, não chegou neste estágio ainda.

No epílogo, temos uma Ellie que, apesar de parecer levar uma vida perfeita na superfície, a melhor possível neste mundo, numa fazenda com Dina e seu bebê, ela está até o talo de Estresse pós-traumático. Seu trauma com a morte de Joel ainda não foi superado. Ela vai novamente em busca da Abby.
Ellie a encontra. Completamente machucada, tanto ela quanto Lev crucificados. Ellie salva-os, mas um flash do Joel sendo torturado por Abby passa pela sua mente. A superação ainda não aconteceu. Ellie força Abby a brigar com ela. Momentos antes de afogá-la, outro flash. Joel tocando um violão feliz. Ellie deixa ela, então, ir embora.
Vemos do que se trata essa lembrança. Na noite anterior a tudo, Ellie iniciou o seu processo de perdoo do Joel. Portanto, sua decisão final não poderia ser diferente. O seu luto, sua raiva, perecem. É possível, mesmo diante de perdas como Dina, que agora possivelmente voltou a Jackson, que Ellie vá para frente.
Pequenos ruídos
Você pode perceber que até agora não falei sobre a jogabilidade. Isso é intencional. Sobre ela posso falar de outros aspectos maravilhosos do jogo, mas que também cria dissonância com a história contada.
Entretanto, acho importante antes notar o imenso valor que são as opções de acessibilidade ofertadas aqui. Mais de 60 opções aqui presentes tornam possível que qualquer um, independente das suas deficiências, possam usufruir do jogo da forma que lhe convém. Avanços vinham ocorrendo na indústria, mas sinto que TLOU2 é um marco, e espero que se torne referência. Jogos deveriam ser para todos.
Se visto puramente sob um olhar de jogabilidade — o que não vejo viável para The Last of Us 2 — é um avanço tecnológico e estético com inúmeros refinamentos na fluidez de movimentação ou conjunto de ações oferecida ao jogador. Entretanto, há um aspecto que entra em conflito com a sua história.

Durante as arenas de combate do jogo, soldados inimigos gritam pelos nomes de outros que o jogador venha a matar. Na primeira vez que isso acontece, é realista, é chocante. O jogo certamente busca humanizar todos os personagens com os quais o jogador e a Ellie ou Abby trespassam.
Do ponto de vista narrativo, funciona, especialmente se distanciarmos o jogador dos personagens. É vital que essa jornada se torne algo emocionalmente custoso a Ellie. Entretanto, ao nos posicionarmos nesta equação, o efeito é contrário. Torna-se risível, forçado, até possivelmente uma manipulação emocional. Apesar disso, não chega a se tornar uma dissonância ludonarrativa. É no máximo, um ruído contraproducente.
Enfim, empatia
The Last of Us Parte 2 é um longo exercício de empatia e auto análise do jogador. Os nossos vieses são confrontados momento após momento. Talvez o ritmo seja um pouco desigual, algumas partes poderiam ser encurtadas, mas é de extrema importância que as jornadas de ambas as personagens, aconteçam da forma ali posta. Cada uma num andar diferente, no que tange ao processo de vingança e à reflexão do seu custo. Precisamos nos cansar da sede de vingança da Ellie na primeira metade, e precisamos de 12h para humanizar e empatizar com a Abby, seus medos e suas inseguranças.
O marketing posicionou TLOU 2 como um jogo sobre ódio, mas isso é redutivo para descrevê-lo correta e completamente. Ele não é somente sobre ódio, mas sobre amor, e o que este pode nos levar a praticar. É um jogo sobre o poder do perdão, e da possível dificuldade de adquiri-lo. The Last of Us Parte 2 é definitivamente um jogo que não irei esquecer tão cedo, e a cada dia que passo, o amo cada vez mais.
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