American Son – Diversas percepções deste filho americano

American Son – Diversas percepções deste filho americano

American Son nos permite enxergar olhares diversos sobre o homem negro.

E TEM SPOILER.

Sinopse

American Son é um filme estrelado por Kerry Washington (nossa icônica Olívia Pope de Scandal) no papel de Kendra Ellis-Connor, uma mãe que espera numa delegacia por notícias de seu filho desaparecido.

Dirigido por Kenny Leon, o filme é baseado numa peça homônima da Broadway escrita por Christopher Demos-Brown. Steven Pasquale, Jeremy Jordan e Eugene Lee completam o elenco.

Kendra é uma psicóloga que se vê dentro de seu maior pesadelo quando espera numa delegacia por notícias de seu filho Jamal, que não havia voltado pra casa na noite anterior. Sendo madrugada, Kendra conta somente com as informações que o policial do turno pode lhe dar. Infelizmente para Kendra, o oficial novato Paul Larkin (Jeremy Jordan) não dá a atenção que Kendra esperava para a situação.

O oficial Larkin diz para Kendra que o carro de Jamal somente consta no sistema, sem dar maiores explicações.
O carro de Jamal consta no sistema. Não sei, só consta.

Na primeira cena de Paul já é visível a percepção que ele tem daquela mulher negra desesperada: o estereótipo americano da negra furiosa. Kendra está inconformada com a pouca informação que recebe do oficial. Pelo fato de não ter as 48 horas do desaparecimento do jovem, o oficial Larkin interpreta o desespero daquela mulher como exagerado. Além disso, apenas o tenente poderia fornecer quaisquer informações, caso houvesse. A primeira tentativa de Kendra para convencer o policial a buscar por mais informações é tentar fazê-lo enxergar além do sumiço de um jovem negro. 

Kendra está dizendo para o policial Larkin que seu filho é responsável.
“Responsável, estagiário de prestígio e compromissado” são os adjetivos que Kendra usa para convencer o policial a ficar e ajudá-la, mesmo que contra a própria vontade.

Meu filho negro / Um negro que sumiu

Larkins recolhe informações sobre Jamal. Kendra o observa.

O policial então faz perguntas de protocolo para Kendra. Nome, sobrenome, data de nascimento, altura… e perguntas que, pela naturalidade do Oficial Larkin, são perguntas de protocolo quando se trata de pessoas negras: antecedentes criminais, apelido de gangue, cicatriz adquirida… Kendra claramente percebe o tipo de homem negro que o policial enxerga. Um membro de gangue, um marginal, como qualquer outro negro.

Kendra descreve novamente seu filho, desta vez características ainda mais abstratas como seu signo, seus medos, gosto musical, aspirações… O novato acha tudo aquilo inútil e se retira, retornando com uma única informação de que houve um incidente e que há uma investigação, levando Kendra ao desespero por acreditar que o policial pode conseguir mais informações, só não quer. Para tentar controlar a “negra irritada”, Larkin tenta mostrar (falsa) empatia.

 “Eu entendo sua preocupação, também tenho filhos.”
Categoricamente Kendra responde:
“Quantos anos eles tem? Algum deles é negro?”
Medindo com a mão acima da cabeça ela continua
“Dessa altura e que possa estar sob custódia da polícia às 4h da manhã?”
O policial tenta tirar o corpo fora, mas Kendra insiste. Ele finalmente responde que tem duas filhas brancas.
“Então não me venha de falsa empatia, está bem? Porque acredite, você não tem ideia”

É irritante que a insistência de Kendra, o claro desespero, não desperta em momento nenhum qualquer tipo de comoção no policial branco. O exemplo é que logo após esse diálogo ele confunde o nome do jovem desaparecido.

O policial Larkin troca o nome de Jamal por Jerome
Preciso falar de novo que ele não tá nem aí?

Enrolando ainda mais para exercer seu único propósito, Larkin ainda tenta cativar Kendra ao falar sobre como conhece intelectuais negros… Lembra aquela pessoa branca que puxa qualquer negro na mente para tentar provar que admitia a cultura negra e definitivamente não é racista. Chega até oferecer um tour segregacionista pela delegacia quando ela pergunta onde fica o bebedouro.

Na ausência de Kendra, um homem branco de terno, com um distintivo na cintura chega à sala de espera da delegacia. Oficial Larkin o encontra e começa a tagarelar como está sendo uma noite difícil presumindo que aquele homem é o tenente enviado para o caso. Ele conta que Jamal estava em um carro com outros dois jovens.

Larkin diz para Scott que "A moreninha está doida"
“Bitch is totally out of control”

Ledo engano. O encontro dele com Kendra revela que na verdade ele é o pai de Jamal, o jovem desaparecido.

O choque entre as visões de Kendra e do Oficial me leva a analisar em qual momento nós, como sociedade, enxergamos uma pessoa negra que corre riscos como alguém que poderíamos ser, alguém que poderia ser nosso conhecido, e quando enxergamos simplesmente aquela pessoa como mais um negro. Não é novidade os olhos que a polícia coloca sobre nós. Somos criminosos em potencial, sempre suspeitos. Para mim, homem negro, avistar uma viatura policial na rua sempre é desconcertante, afinal, para aquele policial, existe um pressuposto de suspeito.. Então eu evito contato visual, tento agir normalmente e evito qualquer movimento brusco. Tudo isso na rua, simplesmente caminhando na calçada. A todo tempo estou preparado para ser abordado e revistado, pronto para o “sim, senhor”, “não, senhor”. Recentemente li uma cartilha sobre meus direitos durante uma abordagem policial. Posso perguntar o motivo da abordagem, pedir a identificação do policial, me manter em silêncio se assim eu preferir, não permitir que façam busca em meus itens pessoais… Eu particularmente não me sinto seguro para exigir nenhum desses meus direitos. Infelizmente, é o caso. Todas as abordagens que enfrentei tinham 5 ou mais policiais presentes, com exceção das que aconteciam nos ônibus, onde o número era muito maior. Para aquele policial, eu sou mais um negro que se não for responder “sim, senhor”, “não senhor”, provavelmente não tem boa índole.

Para minha mãe, assim como para meu pai, quanto menos “favelado” você agir e menos características você carregar, melhor. Lembro que meu pai veio conversar comigo só pelo fato de eu ter deixado meu cabelo crescer, pontuando que as chances de policiais me notarem aumentaram exponencialmente. Nos jornais essas duas visões sempre estão em foco. A mãe que chora a morte ou o desaparecimento de seu filho, e a polícia genocida sempre apática justificando suas ações, tratando o homem negro como indigente.

Nosso filho miscigenado

A chegada de Scott (Steven Pasquale) surte efeito no comportamento do oficial Larkin. Afinal, o pai do jovem desaparecido é agente do FBI. Nos primeiros trinta segundos parece até que os pais vão colocar pressão no policial, mas a decisão de Scott de esconder de Kendra o fato do policial tê-la chamado de vadia mostra a cumplicidade entre homens cis agentes da lei. A sós, Kendra e Scott nos revelam que o casal já não está mais junto, e sua relação atual não é muito amigável. Scott tenta fazer Kendra entender a burocracia que Larkin deve estar enfrentando, mas Kendra está impaciente. Ambos ainda discutem rapidamente sobre a educação que Kendra deu a Jamal, nos revelando que graças a ela, Jamal não faz uso do idioma dos descendentes de escravizados – ebonics. Scott não chama o filho pelo nome, sempre se referindo a ele como J. Kendra analisa isso e diz que Scott acredita que o nome do filho o torna vulnerável e o afasta dele, por ser negro demais. É como se um cabo de guerra se estendesse na sala. O choque entre as duas percepções de quem Jamal é. Para Scott, a trança embutida, o andar de “maloqueiro” de Jamal são pontos negativos que ele desenvolveu por má influência, visto que o filho teve acesso aos melhores cursinhos, morou em lugares privilegiados. Para Kendra, Scott não entende que Jamal e tudo o que está acontecendo com ele é parte do desenvolvimento de sua identidade. Os dois tentam puxar Jamal para seus próprios mundos.

É a batalha entre duas perspectivas a todo tempo. Scott e Kendra se vêem refletidos em seu filho, o que a todo momento os levará a discutir questões de cultura, educação e moral. Scott conta a Kendra as informações que tinha adquirido com o Oficial assim que havia chegado, deixando-a revoltada por estar lá a uma hora sem saber de praticamente nada.

Kendra nos entrega um dos pontos mais marcantes do filme quando conta que não consegue dormir de madrugada por medo do mundo que Jamal terá de enfrentar apenas pela cor de sua pele. Seu maior pesadelo havia se tornado realidade: Jamal estava sujeito à vontade da polícia. 

Policiais espancando com cassetetes um jovem deitado no asfalto
“Mas o pior de todos, o que sempre tenho, é o que vejo ele sendo parado por um policial sem motivo aparente. E eu vejo coturnos, distintivos e cassetetes.”

Sabemos bem o que têm acontecido a pessoas negras nos Estados Unidos. George Floyd, sufocado pelo policial Derek Chauvin até a morte. Sandra Bland, agredida pelo policial Brian Encinia durante uma abordagem, presa e assassinada ainda sob custódia. Tamir Rice, brincava com uma arma de brinquedo quando foi assassinado pelo policial Timothy Loehmann. Aqui no Brasil, João Pedro, foi morto e teve seu corpo levado pela polícia do Rio de Janeiro. E a lista só cresce.

Um jovem negro na América racista

Aparentemente a presença de alguém com mais poder corporativo que Larkin o faz trabalhar direito, porque ele retorna com mais informações sobre o caso. Sua expressão corporal desleixada e confortável revela a despreocupação e total antipatia com o caso. Ele revela que um dos garotos com quem Jamal estava já teve passagem pela polícia, e que havia um adesivo de parachoque que dizia “Shoot cops with your camera phone whenever they make a bust”, que pode ser traduzido como “Dispare em policiais com sua câmera de celular sempre que tiver uma blitz”. 

Scott segura uma impressão de uma imagem que mostra o para-choque de um carro prata, onde está adesivado "Shoot Cops! with your camera phone whenever they make a bust" (Dispare em policiais com a câmera do seu celular sempre que fizerem uma abordagem)
“Dispare em policiais” em letras garrafais e o restante da frase em letras menores.

Filmar abordagens policiais tem sido uma forma de denunciar abusos de autoridade. Passo um bom tempo vendo vídeos de abordagens policiais em pessoas negras e em alguns vídeos noto como os policiais se contém sob a mira de uma câmera, mas os abusos ainda são presentes, como invasão de domicílio sem mandato, racial profiling (o ato de parar para questionar alguém embasado apenas na cor da pele), e os vídeos que viram evidência de investigação, como o do assassinato de George Floyd, que foi o estopim para os protestos que estão acontecendo nos EUA.

Acredito que a partir daqui pode-se ver Jamal à partir do ambiente que ele vive. Ele é uma das três pessoas negras de seu colégio. Filho de um pai branco com uma mãe negra, vindo de dois mundos diferentes, e a julgar pelas diversas discussões que eles tiveram no decorrer do filme, é de se considerar que Jamal esteja atravessando uma crise de identidade. Com todas as mortes de pessoas negras que aconteceram nos últimos anos, Jamal sente-se encurralado a cada momento, como se o próximo alvo pudesse ser ele. Ele sente como se fosse o representante da raça, uma vez que ele é aquele “amigo negro”, e em todas as questões ele tem que falar por toda a comunidade, sem ter nenhum outro amigo negro para se apoiar. Jamal perdeu sua bússola moral e a figura paterna que embasava sua identidade quando seu pai foi embora. O adesivo, as tranças, o abraçar da cultura negra foi para se desvencilhar dos modelos ensinados pelo pai.

Para uma pessoa negra, observar e abraçar sua negritude é abrir os olhos para perceber sistemas racistas em diversos âmbitos, seja através da informação ou da vivência.

Kendra, furiosa, diz a Scott que pela primeira vez Jamal odeia ser metade branco.
Kendra jogando a verdade na cara de Scott

Relativização

Kendra menciona um ponto importante. A questão do carro de Jamal ter sido parado por causa do adesivo no para-choque é mais uma desculpa da polícia racista. Afinal, adesivos racistas que endeusam o ex-presidente americano e supremacista branco Jefferson Davis não causam abordagens policiais.

Se para Scott o adesivo “Shoot Cops” é um absurdo, o adesivo acima não é tão grave quanto. O pai de Jamal vai e volta nessa preocupação. É muito mais fácil para ele criar empatia com policiais que são filmados em suas abordagens do que com seu filho durante uma abordagem.

Adesivo de para-choque que diz "Não me culpe, votei em Jeff Davis" ao lado da bandeira dos Estados Confederados da América atualmente usada por supremacistas brancos.
“Não me culpe, votei em Jeff Davis”. Frase mencionada por Kendra.

Scott recebe de seu irmão um vídeo de uma abordagem policial. Kendra e Scott vêem o vídeo, mas só podemos ouvir o áudio. Tiros, passos, dois homens mandando alguém abaixar. Os pais entram em desespero por não saber se é o filho no vídeo. 

Oficial Larkin retorna com toda sua lerdeza para agora ser confrontado por ambos os pais, furiosos e impacientes com a falta de informação. A possibilidade de Jamal ter se ferido acaba com o coleguismo entre os policiais. Tenente Stokes (Eugene Lee) chega para tentar acalmar a situação, mas Scott está incontrolável. Tenente Stokes anuncia a prisão de Scott por agressão e resistência à prisão. 

Um negro procurando encrenca

O tenente Stokes senta para contar as informações que tem sobre o caso. O carro de Jamal foi abordado e três homens negros foram levados sob custódia. Afirma também que o adesivo do carro levantava suspeitas. Tenente Stokes defende que os policiais também temem por suas vidas.

Tenente Stokes usa o termo "bandidinho" para se referir a Jamal
Kendra acusa o policial que fez abordagem de ser racista. O Tenente diz a ela que o policial que parou o carro é negro.

Aparentemente com essa fala a ideia é passar que pessoas negras, por serem negras, não podem ter atitudes racistas. No entanto, numa sociedade onde há racismo estrutural, qualquer pessoa que não tenha conhecimento sobre tal forma de racismo está sujeita a cometê-lo, principalmente dentro da corporação policial genocida contra negros.

Para o Tenente Stokes, hip-hop, protestos e expressões como “Shoot Cops” são o que causa assassinato de policiais. Ele repudia o questionamento aos policiais. 

“Quando eu te abordo, não tem nada de ‘reivindicar seus direitos’. Sabe qual é o seu direito? De calar a boca e obedecer” – Tenente Stokes

O Tenente supõe que Kendra criou Jamal para não ter medo e viver “o sonho americano” e a critica por isso. Para ele, homens negros devem ser criadas para ter medo, manter a boca fechada pois, em sua visão, para pessoas negras não existe sonho americano. O que Kendra define como ser um “Uncle Tom”.

Tenente Stokes diz que em dois minutos conhece a vida toda de Kendra
Tenente Stokes para Kendra

Stokes pressupõe que Scott usa da imagem de Kendra para se defender de qualquer acusação de racismo, que a dor que Kendra sente pelo ambiente racista que vive, e que Jamal vive, Scott nunca saberá como é, e por isso o criou orgulhoso e para viver o sonho americano em vez de criá-lo para sobreviver como um homem negro nos Estados Unidos. Por fim volta a supor que se os jovens negros tivessem ficado calados e fizessem o que lhes foi mandado pelo policial na abordagem toda aquela situação teria sido evitada.

Pouca coisa parece certa nas falas do Tenente, no meu ponto de vista. Policiais negros tem 2.5 vezes mais chances de morrer nos EUA, e aqui no Brasil, entre 2017 e 2018 mais da metade dos policiais mortos eram negros. No entanto, sua posição naturaliza e até atribui a culpa da violência e genocídio do povo negro a ele mesmo, acreditando que se o indivíduo agir, como ele diz, quieto e obediente, nada vai lhe acontecer. Sequer questionando tal comportamento ou problematizando-o. Eu agi quieto e obediente em todas abordagens que enfrentei e posso até dizer que foi o que fez toda a situação seguir tranquila, mas eu não posso generalizar tal comportamento quando a polícia age de forma truculenta e abusiva com tantos outros jovens ao redor do país por nenhum motivo.

O Tenente se retira e em seguida Scott retorna, revoltado por ter sido fichado. Juntos lembram de momentos com Jamal quando criança, o que leva Kendra a lembrar de ter discutido sério com Jamal na noite anterior. Saudade, agonia, revolta, arrependimento…

Tenente Stokes retorna dessa vez para finalmente revelar o que havia acontecido naquela noite com Jamal. 

O policial havia visto Bell, jovem que estava com Jamal, adquirindo maconha e abordou o veículo, recolheu as identidades e voltou para sua viatura para fazer uma pesquisa. Bell saiu do carro e acaba sendo rendido pelo policial. DeShawn, outro presente, saiu em seguida.. O policial apontou sua arma para DeShawn e Jamal numa tentativa de colocar as mãos no capô, escorregando no asfalto molhado de chuva. Bell tenta fugir e o policial efetua três disparos e uma das balas atinge Jamal na cabeça, o matando na hora.

Por fim

O filme perpassa diversos temas que podem ser analisados. A escolha da análise das diferentes perspectivas sobre quem é esse jovem negro se dá pela constância desse tema no decorrer da obra. Cada personagem representa um olhar sobre o homem negro na sociedade. A análise feita por Kendra da psique do jovem negro miscigenado confuso com a própria identidade; a análise comportamental, apagamento de negritude para aceitação social na visão do homem branco de Scott; o racismo estrutural exercido pelo Oficial Larkin e o repúdio do Tenente Stokes a jovens negros que questionam e criticam a polícia.

Não são leituras sobre quem está certo ou errado, mas perspectivas que interferem no desenvolvimento do homem negro na sociedade em geral somados com a crise identitária que atravessava o rapaz.

Nós sobrevivemos a algo que não deveria exigir sobrevivência.

Falando de algum lugar no universo - Marleson Moura

Preto, gay, nordestino. Designer gráfico, ator, amante de cinema e música. Canceriano, ponho paixão em tudo.

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