‘Sócrates’ é um desabafo gay e preto

‘Sócrates’ é um desabafo gay e preto

Neste Mês Negro aqui no Maratona eu não poderia de deixar de falar de uma obra negra e gay. Nesse sentido, hoje falo de Sócrates, uma representação de um gay periférico que pode servir de abertura para desabafo gay e preto.

Sinopse

Logo após a morte repentina de sua mãe, Sócrates (Christian Malheiros), um jovem de 15 anos que vive nas margens do litoral de São Paulo, deve sobreviver por conta própria. Enquanto enfrenta o isolamento por causa de sua sexualidade, sua busca por uma vida digna e decente chega ao limite. O filme foi lançado em 2019. Alexandre Moratto é quem dirige. O filme foi nomeado ao GLAAD Awards, importante premiação LGBTQ americana.

Imersão

Sócrates olha para a comunidade. "Sócrates é um desabafo gay e preto"
Sócrates é um desabafo gay e preto.

A depender do público, assistir Sócrates é ver novidade na perspectiva de um jovem negro, gay, LGBT, porém para mim é a representação cinematográfica mais próxima da minha realidade que eu já vi num filme.

Em entrevista, o diretor afirma que escolheu que a câmera sempre estivesse seguindo o protagonista e que destacasse seu rosto por diversos momentos, para colocar o espectador dentro do filme de forma intensa. Durante o filme a trilha sonora também é sutil, assim mantendo as emoções de Sócrates mais evidentes e cruas.

Sexualidade, raça e classe

Sócrates e Maicon se beijam. "Sócrates é um desabafo gay e preto"
Sócrates e Maicon

Se bell hooks, teórica feminista, negra e norte-americana, explica que raça vem antes de gênero, podemos então assumir que raça também vem antes de sexualidade. Sendo assim, enquanto filmes LGBTQA+ protagonizado a por pessoas brancas vai abordar a questão da LGBTQA+fobia, Sócrates – assim como Moonlight – mostra que o racismo é um enfrentamento mais constante e que a sexualidade entra em plano secundário, mas não menos importante.

O filme inteiro é de se assistir ofegante, mas os momentos iniciais estabelecem o tom que correrá o filme. O menor corre para garantir alguma renda, brevemente sorrindo sempre que recebe um “talvez” para uma vaga de emprego. É num bico em um ferro velho que ele conhece Maicon.

Um relacionamento – ou o mais próximo disso – com Maicon (Tales Ordakji), é o que parece manter a sanidade emocional de Sócrates existindo, uma vez que está extremamente abalado pela perda da mãe, pela necessidade de obter renda enquanto foge da assistente social que acha que está o ajudando.

Sócrates tem quinze anos, provavelmente a mesma idade de Leonardo e Gabriel em Hoje Eu Quero Voltar Sozinho. Enquanto esses dois últimos buscam independência e liberdade, vivendo a descoberta sexual e os prazeres, Sócrates tem a independência imposta a ele com a morte de sua mãe. Do mesmo modo sua liberdade é como uma condenação.

À esquerda poster de Sócrates, tenso e cru. Á direita, poster de Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, alegre e ensolarado. "Sócrates é um desabafo gay e preto"
Os posteres já mostram a discrepância entre realidades.

Em determinado momento do filme é de se duvidar que Sócrates tenha 15 anos. É como se fosse um homem negro calejado das grandes barreiras que o Brasil pode oferecer, mas existe o sorriso adolescente e o coração jovem apaixonado ali. Existe a criança que sofre pela perda da mãe e o homem que sabe que não há tempo para lamentar, forçado a se adaptar.

Reflexo

Sócrates me fez repensar sobre a minha trajetória até aqui. Como eu falei lá no podcast de Lovecraft Country, as representações negras podem me mostrar uma realidade que eu poderia enfrentar, racismo e homofobia que eu posso sofrer e que certamente fere vários pretos e pobres nas favelas do país.

É impossível não me ver nas situações que Sócrates enfrenta, como a relação conturbada com o pai, a homofobia, o racismo e a desilusão amorosa. É o que a representatividade também proporciona. Uma visão sobre quem você poderá ser, ou um reflexo sobre quem você é.

O filme representa a muito invisibilizada classe gay e preta da sociedade, sem o glamour e sem o colorido da diversidade. A classe que tem que fazer seus corres para poder comer antes de pensar em qualquer outra coisa. Do mesmo modo o filme se despe do confete da diversidade e dá protagonismo a essa voz que ainda é pouco ouvida.

Sòcrates olha para o horizonte, suado. Há casas em desfoque ao fundo. "Sócrates é um desabafo gay e preto"
‘Sócrates’ é um desabafo gay e preto.

Em síntese, a jornada de Sócrates explicita a realidade de muitos gays negros favelados, que são atirados à propria sorte. Ao final do longa não sabemos o que será de Sócrates. Moratto afirma que não fechar a história convida o espectador a inserir suas experiências para determinar qual o futuro de Sócrates. Sem saber disso, foi exatamente o que eu fiz durante todo o filme. Me relacionei com Sócrates. Ele trilhará seu caminho enquanto outros Sócrates ao redor do Brasil trilham os seus. O filme dá luz à mais uma peça que constrói favelas.

Falando de algum lugar no universo - Marleson Moura

Preto, gay, nordestino. Designer gráfico, ator, amante de cinema e música. Canceriano, ponho paixão em tudo.

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