Guava Island – lição, ação e um pouquinho de indireta.

Guava Island – lição, ação e um pouquinho de indireta.

Em abril de 2019 algumas pessoas foram pegas de surpresa com o lançamento de Guava Island. Mas só quem não estava prestando atenção direito, já que o filme vinha sendo divulgado desde novembro do ano anterior e as notícias sobre um “projeto secreto” envolvendo Donald Glover e Rihanna, em Cuba, estavam por todos os cantos antes disso. 

Esse hype criou alguma ansiedade a respeito do que se trataria esse tal projeto. Glover estava na crista da onda: vencera o Emmy de melhor ator principal de comédia em 2017 pelo seu papel em Atlanta (série que ele também criou, escreveu e produziu, além de eventualmente dirigir), e há pouco havia chacoalhado o mundo do pop com o clipe de “This is America”, lançado em 2018 alcançando o status de clássico instantâneo graças a genialidade da abordagem sobre as relações raciais e a cultura negra nos EUA, com milhões de referências. Um projeto secreto produzido em Cuba e com Rihanna prometia no mínimo mais uma pancada no queixo do supremacismo branco. 

Rihanna e Donaldo Glover se abraçam à beira-mar em cena do filme.
Apenas uma história de “boy meets girl”? Acho que não.

No lugar da bomba, a brisa.

Daí quando Guava Island saiu, houve quem terminou o filme com um gosto de decepção na boca. A história parecia boba para alguns: um artista e sua namorada vivem em uma ilha paradisíaca e o sonho dele é compor uma música que una todo seu povo, que a cante em um festival. Deni Maroon não parecia o suficiente. Kofi, a namorada que não canta, nem dança, apenas trabalha na única fábrica explorando o recurso natural que é exportado dali, também causou insatisfações. “Cadê o peso das críticas de Atlanta?”, eu li numa rede social na época que o filme ficou disponível no Prime Video. 

Obviamente, houve quem terminou o filme extasiado. A fábula tropical dirigida por Hiro Murai é evocada por algumas pessoas como uma grande metáfora sobre política latino-americana, ditaduras e denúncia social – leitura que atribui um peso diferente à presença de Rihanna na obra, já que a artista nasceu e cresceu em Barbados, ilha mais oriental do Caribe.

Com tamanha distância entre as leituras, esse texto aqui não se propõe a resenhar o filme, elogiar a direção de Hiro Murai, as atuações, as várias referências ao cinema negro (inclusive ao clássico “Orfeu Negro”, produção franco-ítalo-brasileira de 1959 baseado em uma peça de Vinícius de Moraes) e às culturas afrodiaspóricas, nem o roteiro, ou fazer qualquer crítica estilística. Meu ponto aqui é perguntar: importa mesmo o quão “verossímil” ou “coerente” com seu perímetro de produção a obra é?

Guava não existe, mas é como se existisse.

Estamos falando de uma produção majoritariamente negra, com elenco exclusivamente negro, a contar uma fábula sobre um lugar fictício para passar uma mensagem que chega em qualquer lugar. 

Ou qualquer América. Como Deni diz em uma das cenas a um colega que sonha em juntar dinheiro e sair da ilha rumo à América: “América é um conceito. Todo lugar onde, pra ficar rico, você tem que deixar outra pessoa mais rica, é América”.  

Então, na boa, importa mesmo o quanto a obra está de fato falando sobre o espaço geográfico em que foi filmada? Será mesmo que por não se passar em uma cidade real, com uma abordagem direta como a de Atlanta, o média-metragem perde potência? Pra mim, não. 

Pelo contrário: é ao se posicionar tão distante da realidade que Guava Island toca em temas tão próximos da gente. Quando aborda esse lugar imaginário onde pessoas trabalham 7 dias por semana na fábrica do grupo que controla toda a região, Guava Island fala sobre o poder alienante do trabalho em nossas vidas, tão imenso e cruel que nos impede de “realmente viver” nos lugares onde moramos, assim como os habitantes de Guava. 

Quando fala de um lugar onde todas as personagens são negras, Guava Island consegue fazer algo que não recebe a digna menção: uma obra do cinema negro, cheia de referências a outras obras cinematográficas negras e diversas outras manifestações culturais afro-americanas, que se nega a ser pautada pelo racismo.

Você percebe o quanto isso é singular? Desde a escola, a maior parte dos espaços só lembra da cultura e da vida das pessoas negras a partir da experiência de inferiorização e violência do racismo. Ainda hoje diversos materiais didáticos ainda trazem os reinos africanos antigos não lá no comecinho, quando falam do desenvolvimento da humanidade em espaços geográficos diferentes, mas sim como preâmbulo da história da escravidão colonial. É a introdução para o capítulo “que importa”, que é o da dominação racial. 

Guava Island rompe com isso. Ao ser uma produção completamente racializada (ou seja, consciente das dinâmicas de raça na sociedade em que é feita, e partir daí escolher ter um elenco exclusivamente negro), o filme conseguiu desracializar a sua história (isto é, excluir a ideia de que existem valores e competências exclusivas a determinadas cores de pele). O filme me lembra a reflexão do revolucionário e intelectual marxista e pan-africanista Frantz Fanon (já abordado aqui no site), quando disse “minha pele negra não é depositária de valores específicos”. E, ao ser específico, o enredo tornou-se universal como nenhuma obra branca pretensamente universal costuma conseguir ser.

Deni Maroon não é o “malandro” do estereótipo racista (recentemente até evocado por nosso infame vice-presidente), ele é um artista popular que ama seu povo. Kofi não é a “negra trabalhadeira cobiçada pelo senhor” rotineira na teledramaturgia brasileira, ela é uma mulher que trabalha e vive sua vida e seu amor. Pode ser difícil de alcançar pelo olhar comum que orienta a crítica nos principais sites de cultura pop do país, mas certamente faz diferença pra quem não aguenta mais séculos de perpetuação acrítica desses estereótipos detratórios construídos a partir da cor de sua pele.

Deni (Donaldo Glover) conversa com garotos que prepararam uma emboscada para ele, numa das melhores cenas do filme.
Deni não é um “malandro”, ele é um artista popular. O fato de alguém pensar em descrevê-lo como “malandro” fala mais sobre estereótipos racistas do que sobre o personagem de Glover.

A ilha que fica

Me pareceu curioso que, contando a história do cantor que arrisca sua vida por um show, o filme de 55 minutos parecia já trazer resposta a quem o achou “mais bobo” do que gostaria. Afinal, Deni não planejou um show pra cantar músicas de protesto e incitar uma revolução que tomasse Guava do controle dos Reds. O objetivo do violeiro mais querido da ilha era apenas alcançar uma noite de celebração para ele e os seus, um momento para espairecer e fruir com a música. E, como vemos, consegue muito mais que isso.

Assim como Deni, Guava Island tem seus objetivos nobres e sua mensagem a ser cantada. E persegue seu caminho com a leveza e despretensão que pode enganar os mais apressados. Certamente ninguém vai desligar a TV e sair para fazer uma revolução armada após ver o filme. Mas a possibilidade de navegar por uma história contada de maneira delicada sobre amor, arte, comunidade, exploração e liberdade é água pra regar muitas sementes promissoras. Quem sabe um dia desses não nos vemos na copa de uma dessas que germine e cresça árvore?

Falando de algum lugar no universo - Júlio Sandes

Historiador, professor, comunista. E chato de galochas, essa parte também é muito importante.

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