David Lynch #03 – Duna

David Lynch #03 – Duna

Dando continuidade a nossa série de textos sobre a filmografia de David Lynch, chegamos em sua obra mais infame e controversa: Duna de 1984. 

Sinopse

A ascensão messiânica do guerreiro intergaláctico Paul Atreides (Kyle MacLachlan) a líder de seu povo e a sua luta pela sobrevivência. O jovem herói lidera seus guerreiros contra um barão perverso e tenta destruir em toda a galáxia o comércio da especiaria, que é uma droga alucinógena produzida no planeta deserto.

Esse não é um filme de David Lynch

O primeiro crédito do filme dá conta de espressar a natureza de sua realização

A afirmação desse subtítulo é uma percepção muito pessoal, mas que se sustenta na realidade da obra.  David Lynch escreve o roteiro e dirige o filme, e certamente tem grande responsabilidade no resultado final. Mas em essência esse não é um filme do diretor, mas sim do produtor. Tanto que o primeiro crédito do filme é “Dino de Laurentiis apresenta”. 

Um válido parenteses

E aqui é importante recomendar o ótimo documentário Duna de Jodorowsky, que mostra a primeira tentativa de adaptação para o cinema. Os direitos da adaptação foram comprados em 1970 por uma produtora francesa. O projeto liderado criativamente Alejandro Jodorowsky tramitou por quase uma década, em meio a grande conflito entre artistas e produtores. Jodorowsky abandonou o produção, que foi assumida por Ridley Scott. Scott também desistiu e já não havia mais tempo para realizar o filme. Os direitos de adaptação expiraram no início dos anos 80 e foram adquiridos pelo produtor italiano Dino de Laurentiis. Laurentiis não perdeu tempo, e logo contratou Lynch, jovem diretor que havia sido aclamado pela crítica por O Homem Elefante.

Um erro consciente

Lynch assinou contrato onde estava bem claro que não teria o corte final da obra. Ele sabia disso mas financeiramente era uma proposta irrecusável. Disso o diretor se arrepende, e diz ser maior erro de sua carreira. Tem várias entrevistas no Youtube onde Lynch conta isso, recomendo a entrevista no Roda Viva onde ele toca nesse tema. Esse é o único filme onde ele não teve total controle sobre todas as etapas da produção. Lynch já disse que seu roteiro inicial teria quase 4 horas duração, mas que Laurentiis exigiu que o corte final tivesse no máximo 130 min.

Outro elemento que reforça minha percepção de que esse não é um filme de David Lynch é que o próprio diretor abdicou de seus créditos na obra. Quando o filme foi lançado em DVD a direção foi creditada a Alan Smithee, um pseudônimo que era usado por cineastas que não queriam seus nomes vinculado a determinadas obras.

O problema da adaptação

Com fala de 2 min, e power point, Lynch tenta contextualizar um dos mais complexos mundos já criados na ficção

Sempre defendo que quando tratamos de adaptação para outra mídia, a obra analisada sempre deve ser pensada dentro dela mesma, independente da obra fonte. Mas nesse caso é muito difícil desassociar os problemas de Duna do fato de ser uma adaptação.
Eu não li Duna então não tenho como falar dos detalhes da obra e como isso foi adaptado. Mas sei que existe um consenso entre leitores, e aqueles que legitimam  o meio da literatura de ficção científica, de que esse é uma das maiores, mais significativas e influentes obras do gênero. Claramente é um épico extremamente grandioso e narrativamente complexo, cheio de subtramas que movem a história principal. Isso é possível perceber pelo filme. Mas a forma como os acontecimentos se desenrolam em tela dá a clara sensação de que faltam peças para que tudo se encaixe de forma perfeita. As coisas acontecem muito rápido. E a contextualização é péssima.

Muita História para pouco tempo

O filme começa com uma personagem olhando pro espectador e contando o que aconteceu. E o que essa personagem conta rapidamente é uma trama geopolítica complexa, falando de planetas, casas reais, guerras, profecia…Tudo isso é jogado nos espectador com 2 minutos de fala, e depois disso temos que ir desvendando o que está acontecendo, quem são os personagens, quais as motivações. A sensação que tenho, mesmo sem ter lido o livro, é de que Duna é uma obra grande e complexa demais para ser contada em um filme de 130 min.

Escolhas questionáveis

As sequências de ação são algumas das mais ridÍculas já realisadas

Acredito que a primeira escolha questionável foi da produção, que escolheu David Lynch para direção. Entendo que Lynch estava badalado no momento, mas esse é um filme com muitas cenas de ação, com batalhas, lutas, e o Lynch não havia feito nada que justificasse sua escolha para dirigir esse tipo de cenas. As sequências de ação desse filme são patéticas, chegam a causar vergonha alheia. Eles poderiam ter contratado um segundo diretor, só pra filmar a ação.
Outra escolha de muito mal gosto foi a de mostrar os personagens pensando. É um close no rosto do personagem, para mostrar que ele não está falando, seguido de uma narração em off, onde a voz do personagem narra seus pensamentos. Isso causa uma estranheza muito grande, pois sempre é preciso focar no rosto da pessoa, para vermos que ela está de boca fechada, e entendermos que são seus pensamentos. É tosco e caricato, pois os atores tentam expressar no rosto o que estão pensando.

Uma construção raza e caricata dos vilões

Outro elemento que me incomoda é o caráter maniqueísta do filme. Os vilões são claramente os vilões, nojentos, decrépitos, que fazem o mal pelo mal. Me incomoda o filme se esforçar tanto para que o espectador tenha tanta repulsa do vilão, principalmente se valendo da caracterização visual dos mesmos. Eu tenho mais nojo dos Harkonnen pela aparência deles, do que por seus atos em si. E por mais que no livro eles sejam assim, aí entraria o trabalho de adaptação, de construir o vilão melhor do que ele originalmente é. 

Por fim

Essa obra não faz sentido algum dentro da filmografia de David Lynch. Não existe praticamente nada característico do diretor aqui. Claramente um trabalho para pagar contas.
Esse filme é um claro potencial desperdiçado, pois tinham um bom diretor, um elenco estrelado, com obra fonte que é uma das melhores já feitas, e um orçamento razoável.
Outro problema é a tecnologia da época, os feitos especiais envelheceram muito mal. Tem coisas que são muito toscas quando olhamos com nossa percepção de hoje. Nesse sentido me reconforta saber que Duna terá mais uma chance no cinema, pela mãos de Denis Villeneuve, que é um dos grande cineastas de nosso tempo. E também me reconforta saber que David Lynch nunca mais fez um filme onde não tivesse total controle criativo. 

Minha reação ao filme:

Aqui vale confessar que tirei isso, de uma imagem que simbolize a reação, do ótimo canal de cinema Super Oito.

Falando de algum lugar no universo - Natiel Silveira

Gaúcho, cozinheiro e ciclista. Dois amores na vida, Chelsea FC e Cinema.

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