Já tem algumas voltas que eu não falo de jogo BR, e essas distâncias não podem ser longas já que precisamos privilegiar sim o que fazemos aqui na terrinha. Os textos sobre Dandara, Árida, Horizon são testemunhos que faço do que se produz aqui e tive algum contato, mas sinto que era necessário expandir um pouco mais meu contato com a produção local e estive fazendo essas conexões nas redes. Eis que conheci o jogo que será objeto desse texto, o Bem-feito! E desde a primeira tela que vi, gostei muito da proposta! Mas vamos falar um pouco mais sobre o jogo, sobre minha experiência com ele, e também informações de um papo com uma das autoras do jogo!
Pra fazer BEM-FEITO tem que ter disposição!

Meu contato direto com a oiCabie, (Carla) responsável pela arte conceitual, sprites/assets gráficos e programação do jogo, permitiu que eu soubesse um pouco mais desse time de desenvolvedores de esquerda formado por 4 integrantes, contando ainda com o Yukohhh (Yuri) no texto e roteiro, o Kazemyers (Casemiro) nas trilhas e o nonamefornowsoft (Pedro) também na programação. A equipe se reúne pela vontade de fazer diferente numa indústria que é muitas vezes nociva aos grupos minoritários, e oferece más condições de trabalho, e resolveu através de uma construção cooperativa produzir jogos com a forma e a qualidade que se sentem identificados. Ao passo que, em meados de Março, a ideia surgiu de discussões vindas do Peteca Nacional:
“(…) o Bem Feito nasceu de um papo com o Yukohhh, na frente de sua casa. Um papo despreocupado e talvez sem intenção de virar um jogo. A ideia foi só um debate crítico meio que impelido por discussões fomentadas pelo Peteca Nacional e da conversa veio a ideia de traduzir as conclusões da mesma em jogo. Meio que tudo que eu crio surge desse formato conversa haha, gosto de dar essas viajadas. E meio que a maioria das criações são conversas mais malucas misturando debates e lembranças (e às vezes sonhos)”
Oicabie, Carla
O Peteca Nacional, pra quem não sabe é um coletivo de desenvolvedores de esquerda que discute os jogos e os métodos de produção, e buscar evidenciar, dividir e coletivizar práticas entre seus participantes, além de serem antifascistas e promover discursos políticos de resistência em suas produções. Então fica a dica pra você acompanhar também!
Mas voltando ao Bem-feito, é partindo dessa soma de interesses, e vontade de integrar um debate que o jogo nasce. E uma vez que ele existe (e está disponível no Itch.io a preço de lanche), falemos agora de como é JOGAR.
Pra jogar BEM-FEITO tem que ter habilidade!

O primeiro aspecto é que o jogo Bem-Feito vem como um emulador (Garotron) de um minigame chamado Jogaroto. Além disso, um destaque importante é que vem TAMBÉM com um manual digital ilustrado, e que é MUITO bonitinho! Assim, já fica aqui o primeiro elogio! Mas é bastante engenhoso quando você constrói essa relação distinta de acesso ao jogo que passa por uma interface pra carregar o mesmo propriamente dito. Observo que tive um pequeno problema pra acessar a janela carregada (que teimava em carregar por trás da janela ativa), mas com alguma paciência sempre consegui acessá-la. E chegamos então à tela de interface inicial, e especificamente nossos primeiros momentos de gameplay.
No jogo você controla Reginaldo, e possui sua listinha de tarefas diárias a cumprir em sua casa, sozinho no mundo. O controle consiste em movimentar o personagem, pegar e interagir com objetos. Isso dá margem pra você ir se habituando a esse mundo, e as relações de interação são bastante satisfatórias (ainda que limitadas). Alguns amigos chegam nos dias que seguem e você vai lidando com as atividades, os amigos, e conforme o jogo avança você lida com uma série de acontecimentos correspondentes às suas escolhas de ação. Falaremos disso mais à frente, mas primeiro vamos considerar o aspecto estético.
BEM-FEITO e bonito!

Eu absolutamente adoro as decisões de arte. Destaque-se que não é sobre uma arte detalhista, ou rebuscada. Na maior parte do jogo lidamos com uma paleta bastante reduzida de cores, e monocromática. E afinal, estamos simulando um jogo que estaria carregado no GAROTRON™, mas o cenário 3D renderizado em 2D, e mesmo que seja basicamente trabalhado apenas em linhas, é muito charmoso. Eu passei boa parte do jogo admirando as decisões de direção de arte. Mas é claro que o jogo não é apenas isso.

E falando brevemente sobre a parte sonora, é preciso dizer que não tem nada absurdamente icônico, mas são bastante gostosinhos os loops musicais e complementa bastante bem a estética no geral. Quando quer trazer tensão traz com propriedade! Mas em geral é bastante agradável. Tá aqui o link pra você poder pirar um pouquinho na estética sonora.
BEM-FEITO pra mim, né?

Aviso aos leitores que falarei de maneira superficial sobre o que se trata o jogo, mas mesmo assim acredito que a experiência de jogo é muito melhor se você tiver evitado ao máximo ter informações sobre ele (e se quiser evitar, pule esta seção). De toda forma, preciso falar sobre minha experiência, então aos interessados seguem minhas impressões. O que fica posto no jogo Bem-feito é uma discussão moral. E existe um paralelo rápido que pode ser (e normalmente é) feito com Undertale. Se você jogou, sabe que existe uma discussão sobre uso de violência em um jogo, e caminhos que o jogador pode escolher seguir. O jogo busca efetivamente fazer o jogador refletir sobre suas ações, e sua intenção atravessa a própria mídia que serve de suporte para o discurso. E tudo isso é verdade nos dois casos.
Se por um lado a reflexão e o debate que o jogo Bem-Feito pode provocar reflexões, pode ser que sua mão pese na punição e fica a questão se é ou não. Se existe um jogo que me fez me sentir culpado, foi o Jogo Bem-Feito. E a incapacidade de defesa faz do jogo um exercício incômodo de compreensão sobre limites, (tanto do jogo, quanto pessoais) e sobre reparação. O mais incrível é como um jogo curto (e eu pude experimentar também narrativas muito potentes e curtas na série de jogos LGBT que joguei) tem tamanha potência narrativa. E isso é tudo que eu posso falar sem dar muitos detalhes.
BEM-FEITO pra você também!

Eu concluí uma primeira vez o Bem-Feito com cerca de 1h30 de jogo, talvez 2h00, e foi um excelente investimento que me fez ter uma miríade de reflexões e me trouxe um desconforto que eu julgo bastante positivo. É preciso sair sim de nossa zona de conforto pra apreciar até as decisões que tomamos partindo de uma perspectiva mais ampla. E é preciso valorizar (eu repito) a cena local! É com muita alegria que eu trago esse texto, e essas impressões sobre o Bem-Feito. Destaco que não há previsões de continuação para o jogo e deixo com vocês uma mensagem final dos desenvolvedores que agradecem imensamente o apoio de todos, dos que jogam, dos que se envolveram, dos amigos feitos:
“é a galera que faz valer muito a pena continuem nos acompanhando e nos apoiando <3”
Oicabie, Carla
Apoiem, e venham aqui dizer o que cês mais curtiram do jogo!

