O cantor escocês Dereck William Dick, mais conhecido pelo seu nome artístico Fish, está lançando seu mais novo álbum “Weltschmerz”. Decerto, Fish afirma que este poderá ser seu último disco, pois ele está cogitando se aposentar da música para dedicar-se a outras atividades, como a jardinagem e escrita de roteiros.
Fish é mais conhecido por ter sido o vocalista da banda de rock progressivo britânica Marillion, entre 1981 e 1988, cujo maior sucesso é a música Kayleigh. Embora sua carreira solo não tenha tido o mesmo sucesso que ele teve com o Marillion, ele tem um pequeno público que o acompanha desde então, inclusive no Brasil. Ele já deu as caras por aqui quatro vezes em turnês de sua carreira solo.
Letras pessoais
Fish sempre teve como maior trunfo a criação de letras extremamente profundas e poéticas. Resultado de uma paixão por literatura e poesia, com influências que vão do escritor beat Jack Kerouac ao poeta Dylan Thomas. O cantor é dono de uma voz marcante e poderosa e presença de palco marcante em seus 1,95 m de altura.
Antes de entrar na música, Fish trabalhou como frentista, agente florestal e jardineiro. Fish inicialmente era bastante comparado ao cantor Peter Gabriel por seu estilo de voz e por usar maquiagem no rosto em apresentações. Fish já disse que as usava por timidez de subir ao palco e por isso se escondia atrás de uma máscara. Em 1985 ele abandonou a máscara e nunca mais voltou a usá-la novamente.
Seus discos solo costumam seguir a ideia de um álbum conceitual. As músicas giram em torno de um tema como uma história narrada através das letras das músicas e arte da capa Embora atualmente a identidade visual de um álbum tenha perdido muito de sua força devido a popularização das formas digitais de venda de música, alguns artistas, como Fish, ainda dão importância para a identidade visual de suas músicas. Essa identidade visual pode aparecer também na forma de videoclipes.
Letras poéticas
Fish escreve letras que são bastante pessoais, mas que têm ressonância universal. Ele escreve de forma profunda e sincera sobre amores rompidos, desilusões, alcoolismo, amadurecimento, solidão, fraquezas humanas, dentre diversos problemas que praticamente a maioria das pessoas vive, viveu ou viverá neste mundo moderno e cada vez mais sufocante. Fish nunca escreveu sobre temas “fáceis”. Ele é quase como um poeta que transforma seus poemas em música.
Durante o processo de aprender a língua inglesa na escola, sempre gostei de treinar vendo letras de músicas nos discos. Porém sempre achei a maioria das letras em inglês de uma poesia bem simples se comparado a letras de músicas em português. Mas as letras de Fish eram diferentes. Pareciam quase pequenos livros.
Letras universais
Quando tive contato com a música do Marillion, Fish já havia deixado a banda. Passei a ter contato com sua obra solo, o qual gostava de ouvir suas músicas que contavam histórias como um andamento de um filme. Muitas vezes longas, cheias de momentos dramáticos e finais arrebatadores. Eu também me encantava com a arte das capas.

Ele também costuma abordar em suas letras questões políticas como conflitos bélicos, problemas sociais e econômicos. Ele também costuma abordar a independência da Escócia e seu amor por sua terra natal. Suas letras abordam estes temas de uma forma que apresenta como as injustiças no mundo afetam diretamente a vida das pessoas. Podemos dizer frequentemente que política é um assunto chato e que todos as discussões, reuniões, alianças e desafetos entre políticos no país e ao redor do mundo são um aborrecimento. Nossas vidas são muitas vezes afetadas diretamente por decisões guiadas por interesses desonestos. Podemos citar como exemplo, a recente reforma trabalhista no Brasil.
Apesar de Fish já vir planejando seu novo álbum desde fins de 2016, a morte de seu pai e alguns problemas de saúde atrapalharam seus planos de fazer música nova. Depois que engatou, tudo fluiu bem. Para ele, as letras precisam dar o ritmo e a identidade das músicas e do disco. Ele apresenta assim mais um disco conceitual cujo tema central é o tormento atual que o mundo se encontra.
Novo álbum: Weltschmerz
O nome do disco é uma palavra alemã, que entre alguns significados refere-se a um grande sofrimento no mundo. Fish diz que teve a ideia para este título ao ver os noticiários e pensar em como os problemas globais afetavam as pessoas de forma particular. Fish escreve sobre corporações, corrupção e políticos. Mas ele escreve com um foco em como as pessoas são afetadas por isso. Como as pessoas lidam com os problemas do mundo no seu dia a dia.

Apesar da melancolia presente nas letras de seu novo álbum, suas músicas como em toda sua carreira não são feitas para deprimir, mas para refletir-se sobre o que ele canta e o que vivemos. Existe uma melancolia bonita de ser apreciada e boa para ponderações. Vemos cada vez mais intolerância, violência, miséria, fome, crimes ambientais e injustiças sociais no mundo, porém ele não deixa de enxergar uma luz de esperança.
Na música de mesmo nome do novo álbum, ele diz: “Nos céus os trovões rolam. Eu levanto meu rosto para a chuva. Com meus pés sobre cinzas frias de tudo o que resta. Se nós tivéssemos ouvido as crianças e atendido seu chamado. Nos ergueríamos para o desafio mais cedo”.
Pode-se perceber que embora ele veja com tristeza tudo que vem acontecendo e se transformando, ele ainda vê com otimismo o futuro. Porém talvez esteja cansado demais de falar sobre essas coisas e talvez deseje despedir-se desta função com sua obra mais importante: um disco duplo de quase 90 minutos, com 10 belas canções.
Velhice
O primeiro single do novo álbum já havia sido lançado em 2018: “Man with a stick”, cuja letra foi inspirada na morte de seu pai e seu processo de envelhecimento que o levou a depender de uma bengala em seus últimos meses de vida. Logo, Fish pensa na relação que temos durante a vida com bastões ou varas como diversão na infância até a dependência de uma bengala na velhice (na lingua inglesa, ‘bastão’, ‘vara’ ou ‘bengala’ pode ser traduzidas pela palavra ‘stick’).

Fish pondera sobre o processo de envelhecimento, baseado talvez em seu próprio. O cantor, que está com 62 anos, já não tem mais a mesma potência vocal de outrora, que foi se perdendo aos poucos com excesso de álcool, cigarro e outras drogas. Sua carreira solo foi gradativamente perdendo o interesse da grande mídia, tendo sido mais reservada a nichos específicos. Ironicamente, ele lança agora um de seus melhores álbuns (se não o melhor) de sua carreira.
Novo álbum com esquema familiar
Para se ter uma ideia da simplicidade da rede por trás do lançamento do álbum, o único site que está vendendo o disco físico é o site oficial do cantor, cujas vendas contam com uma equipe familiar de 6 pessoas na Escócia. Em suma, Fish não faz mais questão de ceder às exigências do mercado, mas apenas as suas próprias como artista e ser humano.
O single seguinte do novo álbum, “Garden Of Remembrance”, é a música mais pessoal para Fish, deste álbum. A letra fala sobre a perda das lembranças por Alzheimer. Sobre como uma pessoa pode ficar perdida entre suas lembranças e não poder mais achá-las. Por vezes podemos também permanecer à sombra dessas lembranças, se não soubermos reconhecer que temos fases distintas em nossas vidas. Cada uma com seu valor específico.
Distanciamento social e lembranças

O vídeo desta música foi filmado já durante a pandemia da COVID-19. Fish foi filmado em casa com a galeria sendo recriada virtualmente no fundo. Nas paredes da galeria estão imagens das artes de sua carreira desde a época do Marillion. Além de fazer alusão às lembranças de sua trajetória, a letra acabou ganhando toda uma nova conotação com a pandemia e consequente distanciamento social.
Muitas pessoas estão há bastante tempo sem ver seus familiares, em especial os pais e avós com idade de risco. Amigos, parentes, eventos, acontecimentos. Tudo isso tem se tornado mais distante no dia a dia das pessoas. Restando apenas lembranças para elas. No fim do vídeo, Fish deixa rolar uma genuína lágrima que reflete a emoção da música e o momento em que vivemos.
Lidando com o distanciamento
Muitas pessoas de mais idade estão vivendo uma angústia de sentirem que estão perdendo precioso tempo que poderiam estar passando com seus entes queridos. Essa tensão em relação a uma eficiência de uma possível vacina nos deixa sempre pensando se nossas vidas poderão a ser como eram antes ou teremos que nos contentar com as lembranças?
O cantor anda lidando com o distanciamento social da seguinte maneira: realiza uma live para falar com os fãs todas as sextas em sua página no Facebook. Ele chama esses encontros de “Fish on fridays” (um trocadilho com o hábito britânico de se comer peixe nas sextas-feiras

Fish sente-se bastante confortável com o rumo que sua carreira solo tomou, afastando-o do mainstream. Segundo palavras do próprio cantor, a fama do sucesso no Marillion estava-o transformando em um “astro do rock babaca”. Realmente, o sucesso e a glamourização excessiva que o mundo do Show Business impõe ao mercado musical pode levar algumas pessoas a perderem sua própria identidade. No entanto, com uma carreira mais low-profile, Fish retomou suas estribeiras, embora nunca mais tenha repetido o mesmo sucesso de antes (nem a banda Marillion, diga-se de passagem).
Aposentadoria?
Sobre sua possível aposentadoria, Fish não gosta de usar esta palavra, mas que quer se dedicar mais a outros interesses como roteiros, livros e jardinagem. Assim, a promoção deste álbum apresenta-o como seu último. A pandemia da COVID-19 deixou as coisas ainda mais incertas, pois ele não sabe como ou quando será sua última turnê para promover o álbum e despedir-se dos palcos. Porém, ele considera este álbum o fim perfeito de sua carreira musical.
Fish também se aventurou em ser ator a partir dos anos 1980, porém não teve muitos papéis de destaque além de filmes e programas de TV britânicos. Devido a seus compromissos musicais ele acabou perdendo papéis nos filmes “Highlander” e “Coração Valente”. Ele diz que tem interesse em escrever roteiros de filmes no momento.
É interessante este planejamento que ele faz, e é impossível não pensar em uma comparação com Renato Russo, que se não tivesse falecido, planejava terminar por volta dos 40 anos sua carreira de músico para se dedicar a uma carreira de cineasta e para seus anos finais planejava se dedicar a carreira de escritor.
Como ouvir?
O novo álbum “Weltschmerz” está a venda apenas no site oficial de Fish e disponível em plataformas digitais como o Spotify e em vídeos no canal oficial do cantor no YouTube.
Percebo que mesmo com um esquema totalmente independente, o disco, que foi lançado dia 25/09, atingiu um segundo lugar “virtual” nas paradas britânicas, pois as estatísticas oficiais apenas permitem a entrada de músicas lançadas por “canais oficiais” como gravadoras e distribuidoras. Fish financiou, produziu e está distribuindo tudo de sua casa.
A força da obra de um artista reside mais na sua sinceridade com seu público e no que ele apresenta do que no investimento pesado de gravadoras e distribuidoras.