É comum o emprego de um suspense nos filmes de terror, de modo que se essa união se mostrar eficiente, maior a probabilidade se tomar uns sustos bons. Quando se agrega uma boa produção musical, uma trilha sonora precisa, xeque-mate!! Annabelle 3: De Volta Para Casa (Annabelle Comes Home, 2019) aparece para tentar salvar a cena de um gênero que vem sendo decepcionante para os fãs. Após participar da produção de A Maldição da Chorona (The Curse of La Llorona, 2019), o australiano James Wan teve uma baixa na reputação, sendo Annabelle a melhor resposta para as críticas recebidas em sua obra anterior.

Sinopse
Após solucionarem uma série de perturbações decorrentes das invocações da boneca Annabelle, o Sr. e Sra. Warren e acreditam se ver livres de forças malignas por um tempo, levando a boneca para o seu porão de artigos sobrenaturais. Quando Ed e Lorraine decidem realizar uma viagem, sua filha Judy fica sob os cuidados de Mary Ellen, a baba. Depois de insistir várias vezes, Daniella, amiga de Mary Ellen, é movida por seu sentimento de perda paterna e curiosidade até a sala de objetos sobrenaturais, sendo que ao cometer o erro de mexer com Annabelle, o mal contido no armário de vidro passa a ser liberado, passando a atormentar a vida das três garotas. Sem a ajuda dos famosos investigadores paranormais, as três garotas passam a ter que encarar e lidar com essa força maligna invocadora de espíritos, tendo a única e árdua missão devolver a boneca o mal para seu armário de contenção.

James Wan e sua inteligência
Um excelente produtor quando se junta com um diretor empolgado – Gary Dauberman – é capaz de gerar surpresas intrigantes. O filme dispõe de um suspense bem elaborado, em que o terror é sempre crescente, fugindo dos padrões de excesso de jogo de câmeras bem como os famosos shows de sangue. Desde Invocação do mal, em que a trilha sonora bem construída resultou numa obra diferenciada, essa sequência não fica para trás, leves oscilações entre uma música medonha em volume baixo e o silêncio recheiam o filme de cenas assustadoras, fugindo do clichê de forma sucinta.
Além de ter conseguido espaço para explorar e abusar das suas técnicas de horror, o diretor Gary deixou uma boa impressão para a tão esperada sequência do filme It – a coisa, no qual aparece como roteirista. Um dos produtores de A Maldição da Chorona, Dauberman conseguiu se redimir, elaborando um filme que apesar de se passar praticamente em um cenário, faz esse detalhe sumir em meio a história bem escrita. Vale ressaltar que o fato da longa ocorrer em apenas um cenário, favoreceu implicitamente a criação de uma esfera claustrofóbica.

Aqueles detalhes que impedem o filme ser melhor…
Nos últimos lançamentos do gênero, diversas vezes se foi falado sobre o papel fundamental das atuações, talvez seja reflexo de pequenos erros de roteiro, mas que fazem diferença para aqueles fãs mais criteriosos. Algumas cenas não são entendíveis, como é possível ser assombrado por uma entidade maligna e na sequência ocorrer um diálogo em que o indivíduo assombrado se mostrar despreocupado, relaxado e/ou neutro? Como três pessoas são atormentadas em uma mesma casa e o sentimento de descrença pessoal é maior do quê o pânico e o desespero que levaria a compartilhar o problema? Talvez essas lacunas passaram desapercebidas em meio a tantas outras compensações que o filme foi capaz de proporcionar, principalmente pelo fato de que não se espera um terror bom quando se fala de uma boneca que serve de canal para coordenar entidades malignas.

Passados e referências importantes
O quarto em que Ed e Lorraine Warren guardam suas relíquias de jornadas de exorcismo e confronto espiritual é extremamente bem construído, de modo que historiais anteriores que foram reproduzidas em filmes não são somente citadas como passam a fazer parte do campo antagonista. As formas com que as forças malignas são combatidas nos filmes quase sempre possuem um padrão, seja através do uso de cruzes ou até mesmo sal grosso e velas. O filme não deixa passar batido esse detalhe, comprovando de certa forma que por se tratarem de métodos religiosos utilizados em sessões/ritos, não haveria possibilidade de discrepância.
Um ponto importante do filme é que nos capítulos anteriores o Sr. e Sra. Warren são responsáveis por estudar, interpretar e confrontar o mal, sendo que dessa vez o papel passa a ser de responsabilidade do trio de garotas, que diga-se de passagem não possuem tantas experiências quanto o casal que sempre trabalhou com isso.
O bullying que Judy sofre na escola retrata uma situação comum, que explora principalmente o campo da intolerância religiosa. O ceticismo de alguns alunos faz com que eles banalizem o trabalho dos Warren, sendo taxados por vezes de feiticeiros ou mágicos. Esse tema introduzido explicitamente revela uma preocupação de Gary Dauberman em abordar e discutir o tema, sendo que esse comportamento é percebido desde A Maldição da Chorona, quando se trouxe um pouco da história do folclore mexicano.

Mas e aí? Vale a pena?
Com certeza esse filme superou as expectativas em diversos quesitos, não conceder a Patrick Wilson e Vera Farmiga o protagonismo foi uma surpresa incontestável, fortalecendo essa linha de filmes que traz crianças para o protagosnimo. Mesmo não sendo um filme 10, Annabelle trouxe uma gama de referências importantes e cenas de horror atreladas a um suspense muito bom, proporcionando sustos esporádicos/ocasionais, mostrando que ainda há esperança para o gênero, principalmente que se fala de James Wan. Annabelle 3: De Volta Para Casa entra como mais um filme para a o subgênero de sobrenaturais, mas dessa vez realmente um filme, rs.