Mahoutsukai no Yome ou Como é bom estar AQUI.

Mahoutsukai no Yome ou Como é bom estar AQUI.

Matutei muito tempo sobre como falar deste anime para vocês, e uma frase acabou me assombrando tanto, que tem que estar aqui. Vem comigo conhecer Mahoutsukai no Yome, um anime sobre magia e o sobrenatural, ou um anime tão bonito que me fez chorar feito uma vagabunda.

Chegou de mansinho

Como boa otaku que (in) felizmente sou, estou sempre procurando indicações do que assistir, e Mahoutsukai no Yome acabou aparecendo assim, lendo, assistindo vídeos, e navegando na minha plataforma de animes favorita. Eu não li uma sinopse antes de começar, apenas soube que era um anime sobre magia, e a nerd em mim não conseguiu se conter. O anime nos conta a história de Chise, que de antemão preciso dizer que é a personagem que mais cai na água de toda a história de todas as produções já feitas no mundo. Não, eu não to brincando.

Chise cai do dragão e acaba sendo arremessada num lago, e os quatro dragões pequenos assistem temerosos. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Lá se vai a Chise de novo!

Ok, estou brincando, mas só um pouco. Chise realmente cai na água tantas vezes que perdi a conta, mas esse não é o ponto mais importante sobre ela. Chise nos é apresentada como uma garota que está voluntariamente, e você não leu isso errado, VOLUNTARIAMENTE, se leiloando. Confesso que quando comecei o Mahoutsukai no Yome o fato dele possuir uma possível relação que se inicia com laços escravocratas, me deixou um tanto temerosa, entretanto, vou adiantar que a “compra” e a relação nunca é de escravo e senhor. Aliás a primeira coisa que o Elias faz após comprar a Chise é mandar ela levantar a cabeça, consertar os ombros e a postura e andar como se não devesse nada a ninguém, de fato ela não deve.

Chise

Chise, em meio a floresta. Em destaque seus olhos verdes tristes. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Você é linda Chise, não importa seu olho de peixe morto

Dito isso, ainda no primeiro episódio, podemos notar que Chise não é um ser humano comum. O salão do leilão por si só é peculiar, vemos inúmeras criaturas mágicas desconhecidas, presas em tubos, e como se isso não fosse bastante, outras criaturas estranhas esgueiram-se, rodeiam e flutuam ao redor da Chise. Por se tratar de um anime de magia e do sobrenatural, Mahoutshukai no Yome nos apresenta várias criaturas mágicas, é inclusive possível dizer que a Kore Yamazaki(escritora) pode criar o próprio bestiário com as criaturas desse anime. Chise é uma “Sleigh Beggy” um tipo raro de humano que pode criar e absorver magia em quantidades imensas, e enxergar outras criaturas mágicas, no entanto sua mágica tem um custo alto, seu tempo de vida é curto.

Ninfas dançam no meio da floresta em uma cena mágica. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Ahhh, a magia…

O que não é de grande importância para Chise, pois a mesma não tem muito interesse pela vida. Aos 15 anos, Chise foi abandonada por toda família, nos é revelado em pequenos flashbacks, que por possuir o dom da visão, ela nunca foi aceita por seus colegas, bullying, sofrimento e perda é tudo que ela conhece. Este é um dos pontos altos de Mahoutsukai no Yome pra mim, Chise é uma personagem com um quadro grave de depressão, e a história não é tímida em nos mostrar o quanto a doença pode destruir nosso senso de nós mesmos, e da importância de estar vivo.

Lindell faz garras com as mãos e mostra as presas para Chise, que assiste embaraçada. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
O Lindão é lindo de qualquer jeito

Por ser alguém que lida com depressão já há alguns anos, eu não senti o estranhamento ou a impaciência que algumas pessoas podem sentir com relação ao comportamento da Chise. Possuir um quadro depressivo não se resume a tentativas de suicídio e automutilação. É também solidão extrema, apatia, desapego a própria vida ao ponto do auto sacrifício pelos outros, valorizar os outros antes de si. Apesar de não possuir cenas gráficas, e a palavra depressão nunca ser mencionada, morte e suicídio são temas presentes em Mahoutsukai no Yome. Por esta razão, nós do Maratona de Sofá recomendamos que você priorize sua saúde mental em primeiro lugar e não assista caso os temas sejam um gatilho para você. Seu bem estar é importante para nós.

Elias – Ainsworth

Elias criança segurando um coelho pelas orelhas. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Olha que demonhozinho lindo de mamain <3

O monstro que compra a Chise (não estou sendo má, ele é mesmo um monstro saído dos contos de fada) é Elias, também conhecido como Ainsworth. Ele é um mago, com um corpo com formato de homem, um rosto que na verdade é a cabeça de um bode, chifres alongados para trás. Apesar de vestir-se e portar-se formalmente é possível ver que Elias é um lobo em pele de cordeiro, ou melhor, uma cabra selvagem em vestes humanas.

Mahoutsukai no Yome não nos explica exatamente o que Elias é, contudo, uma de suas muitas formas possui a semelhança do signo de Capricórnio (meu signo ninguém sai) com a cabeça e metade do corpo da cabra, e metade do seu corpo se alongando como uma cauda de peixe.

Chise que está fora do quadro, vê Elias refletido na água. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Um capirotozinho fofo desse!

Elias leva Chise para casa, e sua primeira atitude é tirar-lhe os grilhões. O momento em si é uma alegoria clara da tentativa do Elias( e todos os personagens na verdade) de libertar a Chise de si. Mahoutsukai no Yome é um anime voltado para o desenvolvimento e amadurecimento dos personagens, e durante seus 24 episódios é mais do que claro que são duas crianças extremamente solitárias tentando aprender uma com a outra e seus amigos sobre como crescer, enquanto se agarram desesperadamente ao sentimento de não estarem mais só, de possuir, de pertencer. Eu sei, sendo algo que começa com uma relação de escravatura, qualquer sentimento que nasce daí só poderia ser uma ligação do sequestrado com o captor. Acredite em mim, não é, ou melhor, assista.

Ruth, Titania, Chise são protegidas por Elias em sua forma gigante, do Carthapilus. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
O bicho é brabo!

Chise pertence ao Elias de corpo e alma porque ela deseja isso. Desde o primeiro momento ela deseja libertar-se da obrigação de ser alguém, por isso se vende, para que sendo algo, alguém lhe dê significado. O que Chise não espera é que Elias precise dela no mesmo tanto ou mais. Por ser um “cruzamento” de dois mundo distintos, dos humanos e o das fadas, por ter vivido por muito, muito tempo em solitude, Elias não sabe ser. Não sabe como demonstrar sentimentos, como portar-se diante deles, nem ao menos experienciou alguns. Nessa jornada eles resolvem mutuamente se usar, ela para obter significado do que é viver; ele para aprender a ser. Em 24 episódios, Mahoutsukai no Yome nos apresenta duas crianças, antes de perceber você as ama como suas.

O que é Mahoutsukai no Yome

Titania, utilizando sua mágica milenar no meio da floresta. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Titania é lindimais bicho

O enredo base do anime é o desenvolvimento dos protagonistas. Como o anime adaptou toda obra que havia sido lançada no Mangá, existem inúmeras perguntas que Mahoutsukai no Yome nos deixa quando nós finalizamos o anime. O que pelo menos para mim não é algo ruim, tendo em vista que existe uma segunda temporada a ser lançada. Não vou dizer que é um anime que todas as pessoas vão assistir e amar pelas razões explicitadas acima, entretanto o que alguns podem ver como entrave, para mim serviu para aumentar a minha curiosidade. Eu quero saber quem o Elias é, eu quero que a autora adentre mais no folclore da obra e detalhe todos aqueles inúmeros personagens de mitologias diversas.

Um selkie e 3 outros bichinhos mágicos não identificados dançando e tocando instrumentos na floresta. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
A Selkie é o Selkie

Durante todo o anime nós somos apresentados a diversos personagens que por ventura já encontramos em inúmeras outras obras. Fadas, centauros, magos, feiticeiros e até vampiros são os personagens mais conhecidos, queira por ter lido e assistido Harry Potter, queira por ter lido e assistido Percy Jackson. Mas a autora de Mahoutsukai não se demora apenas nas mitologias gregas e inglesas, ela se debruça sobre a mitologia nórdica quando nos apresenta a Silky, o espírito da casa, ou quando nos traz o Will o’ the Wisp, presente na mitologia celta, ou em Pokémon. Nas visões Shakespearianas de Titânia e Oberon em Sonhos de uma Noite de Verão, ou a rendição maravilhosa dos Dragões para Khaleesi nenhuma botar defeito, o cuidado com o folclore na obra é perceptível.

As ninfas convidam Chise para dançar enquanto Ruth assiste.
Quem não gosta de dançar com as Ninfas

Assistir Mahoutsukai no Yome é ver magia tomando forma do início ao fim. A direção de arte do anime fez um trabalho deslumbrante, tanto que existe uma cena em especial (várias na verdade) que me fizeram chorar de tão bonita que ela é. Se tratando de magia, as demonstrações não deixam a desejar, seja da beleza nas flores de cristais que a Chise produz, seja nos poderes elementais das Ariels, ou no canto angelical do Lindell (também conhecido como Lindão), Mahoutsukai exala magia na sua tela de uma forma primorosa. A animação é muito bem feita, ainda que eu não seja nenhuma expert no assunto. A arte me incomodou em relação a duas personagens em específico, mas nada imperdoável, pois todo resto é lindo, muito bem colorido e vivo.

Ruth encontra Titania em sua forma infantil e esta usa magia para ajuda-lo, na imagem um lobo assiste a interação. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Combo de criaturas mágicas, Ruth e a Deusa do Solstício

A primeira abertura e a primeira ending são minhas prediletas. Juro que estou obcecada pela abertura, me arrepio e choro quando tocam, por favor leiam a letra. O enredo dos personagens secundários é pouco desenvolvido, sempre servindo de plano de fundo da história dos personagens principais, todavia acredito que não é um erro na obra e sim intencional, pois há espaço para aprofundamento. No que tange os personagens secundários, eu acredito que suas construções são outro acerto em Mahoutsukai no Yome, pois ainda que em sua maioria eles sejam doces e gentis em maior parte do tempo, principalmente com a Chise (quero metade dos cafuné que ela recebe), eles também possuem nuances que merecem destaques.

As Ariels, pequenas fadas verdes, conversam com Chise. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Ariels

Por exemplo, “The Fae Folk” Ou o Povo das Fadas, são mostrados em sua amplitude como seres tridimensionais que possuem características plurais, sem maniqueísmo, todavia sempre voltadas para o ganho pessoal. Que é muito mais próximo do que se encontra sobre as fadas ao estudar folclore, do que a visão que nos é vendida pela Disney. Outro ponto primoroso para mim é que ainda que Overpower, e cheia de “Poderes de Protagonista” a Chise é dolorosamente humana, o mesmo vale para o Elias, e por meio da tentativa, muitos erros, e muito diálogo eles constroem uma relação saudável e muito bonita.

Silky, a fada da casa é abençoada pelo fiel escudeiro de Titania. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Minha amada Silky *-*

Tentativa derradeira e outras informações

Mahoutsukai No Yome é um mangá escrito e ilustrado por Kore Yamazaki, lançado em 2013, atualmente publicado na revista Monthly Comic Garden, e distribuída no Brasil pela editora Devir. O anime é produzido pelo Estúdio Wit, conhecidíssimo por produzir os animes de Shingeki No Kyojin,  e começou a ser exibido em Outubro de 2017, terminando em Maio de 2018. Mais recentemente os episódios foram dublados, o que pode expandir o nicho de consumidores. A segunda temporada já possui trailer e você pode assistir ele aqui.

Chise é resgatada por um dragão ao cair no lago. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
Tem dragão até na água!

Como a maioria dos animes que eu assisto e gosto, Mahoutsukai no Yome não é o anime mais indicado para todas as pessoas, insira a piada do eu tenho um gosto peculiar, vocês não entenderiam, aqui. No entanto, pelo menos para mim, assistir Mahoutsukai foi uma experiência única. Acompanhar Chise recuperar a vontade de viver, aprender a ser, a sentir novamente, episódio a episódio, interação a interação me tocou profundamente. Tanto que poderia escrever outro texto imenso deste, contudo não farei isso. Ainda que meu coração queira lhe contar sobre Ruth, Silky, Angélica, Lindão, Alice, as fadas, a salamandra verde e o inseto de lã, vou me conter. Porém, por favor me permita te contar sobre o Nevin.

Nevin o dragão mais velho vivo e Chise conversam. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.
O Dragão Gigante mais doce do Universo

No terceiro episódio do anime, Chise visita a terra dos dragões, onde ela conhece Nevin, o Dragão mais velho ainda vivo, que está se solidificando. Em Mahoutsukai no Yome os Dragões vivem seus ciclos e quando morrem se transformam em rochas e árvores. Seu conceito de morte é o de passagem, de encerramento de um ciclo para o início de outro, de renovação, um momento feliz e aguardado. Nevin morre no fim do episódio,  passando seus últimos momentos fazendo o que mais gosta, voando com a ajuda dos poderes da Chise. Em uma das cenas mais bonitas e agridoces que eu já assisti, eu e a Chise aprendemos que mesmo algo tão sombrio como a morte pode ter significado, pode ensinar muito sobre nós mesmos, e sobre viver.

Chise e Elias tocam as palmas em dimensões diferentes. Mahoutsukai no Yome, Maratona de Sofá.

Como sempre, espero que vocês estejam sãos e salvos neste mês de orgulho LGBT, mesmo que nossa conjuntura política esteja louca, que estejam assistindo muito anime, séries, filmes e aproveitando essa loucura que é viver. Um beijo enorme, e até a próxima.

Falando de algum lugar no universo - Isabel Barbosa

Estudante de Ciências (sensuais) Sociais na UFBA. Feminista negra e capricorniana impaciente. Louca por séries, super-heróis, gatos, comida e recentemente anime.

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