Enredo e informações técnicas
Caçadoras de Recompensas, no original Teenage Bounty Hunters é uma série da Netflix que estreou dia 14 de Agosto, 2020. Primeiramente aviso que a série foi cancelada. Eu sei, você deve estar pensado: “Cê ta louca que eu vou querer ver uma série cancelada.” Antes de me julgar, faz o seguinte, lê a resenha toda e me conta no final se te interessou.
A série conta a história das gêmeas não idênticas Blair e Starling Wesley. Numa noite, as meninas surrupiam o carro do pai para se encontrarem com seus respectivos namorados. Ao retornarem para casa, elas batem a pick up e conhecem o Bowser, um caçador de recompensas que está perseguindo um criminoso.
Para a surpresa de Bowser, Blair e Starling possuem condicionamento físico e atiram muito bem. As meninas dominam o criminoso, e Bowser acaba acreditando que elas sejam caçadoras de recompensas concorrentes. Eventualmente conbinando de dividir o pagamentos pelo criminoso com elas. Dinheiro esse que elas necessitam para consertar o carro do pai sem que este descubra.

O elenco da série é formado por : Maddie Phillips, Anjelica Bette Fellini, Kadeem Hardison, Virginia Williams, Mackenzie Astin, Wynn Everett, Randy Havens entre outros nomes. Embora boa parte do elenco da série seja composto por atores já conhecidos do público, estes não possuem grandes aparições.
Adolescentes caçando recompensas? Onde já se viu isso gente?
Eu sei, a premissa é maluca. Honestamente eu não imagino como a diretora e criadora Katleen Jordan teve essa ideia, mas sendo bem honesta, que bom que ela teve. Apesar da premissa estranha, Caçadoras de Recompensas é bastante fortuita naquilo que se propõe. Apesar de pensada para ser uma comédia adolescente despretensiosa a série consegue nos ambientar no universo adolescente classe média alta, branco e evangélico de Atlanta.
O humor é leve e bobo, bem adolescente americano boa parte do tempo. A sacada aqui é que a série não é só isso. Blair e Starling – e todos os personagens brancos da série, devo dizer – são inegavelmente estereótipos perfeitos do que é nós imaginamos que um americano branco do Sul é. No entanto, numa jogada magistral, não só as protagonistas da série são multifacetadas, como todo o show é uma grande crítica a comunidade religiosa, branca e rica.
Comecei a série com 0 expectativas. Para ser honesta, enquanto mulher negra, lgbt e de classe baixa, eu estava pronta para odiar a série. Obviamente, não gostei de algumas coisas, como por exemplo: a abertura! Mas ao final de 10 episódios, Caçadoras de Recompensas derrubou a maior parte dos meus preconceitos, vou listar aqui algumas razões:

Autoconsciência:
Os personagens, e mais especificamente as protagonistas, enxergam o ciclo vicioso em que vivem. Não apenas não existem desculpas ou ilusões sobre seus contextos sociais. Bem como elas sabem que são ricas e privilegiadas. Sabem que seus pais, família, comunidade, círculo social são constituídos em cima de preconceitos e aparências. Existe um grau de engajamento e combate a esses preconceitos que ocorre sistematicamente durante os episódios.
Todavia, o fato das protagonistas estarem conscientes das falhas ao seu redor, e em si mesmas, não impede que estas cometam erros ou atitudes que elas criticam. É perceptível que elas também fazem parte do problema. Já que elas não deixam de ser parte do estereótipo de americanas brancas e ricas (e até meio burras, risos). Caçadoras de Recompensas brilha em virtude dos personagens multifacetados, que não são bastiões da verdade e iluminação. São seres humanos com defeitos e qualidades.

Ao quebrar parte dos estereótipos, mas não negá-los por completo, Blair e Starling permitem que você espectador formule a sua própria crítica. Sobre elas, seus círculos sociais, comportamentos. Tudo isso é feito de forma aberta, nada é insinuado. Existem críticas abertas ao racismo, a economia, armamentismo e política americana, ao preconceito LGBT e entre outras. Um ponto alto é: Uma personagem branca faz um comentário claramente racista, disfarçado de elogio. Em resposta, o personagem negro esfrega a verdade na cara dela sem dó.
Comédia do Absurdo
Por ser um dramédia adolescente que não se leva a sério, Caçadora de Recompensas se permite cruzar vários limites. Sabe quando você está acompanhando algo e pensa: “não, é impossível que esse personagem seja BURRO assim?!”. É possível sim, e nessa série ele definitivamente é. Nada faz muito sentido prático no começo, e quando termina, bom, continua sem fazer sentido. E talvez por isso seja engraçado.
Existem vários momentos desconcertantes que você pensa, isso nunca aconteceria no mundo real, tipo pedir conselho amoroso para esposa do criminoso que você acabou de prender. Ou que uma pessoa vá armada para uma delegacia, sem o documento de porte de arma e o policial na entrada não questione isso. Ok, talvez essa até seja possível, afinal estamos falando de uma mulher branca e rica no sul da Geórgia, vai ver isso só é inimaginável para mim.

O absurdo aqui é completamente plausível pelo universo em que os personagens estão inseridos. Como assim é possível que os satanistas da escola defendam igualitarismo, justiça social, arrecadem dinheiro para caridade, lutem pela separação da igreja do estado. Contudo se você pensar direitinho, faz total sentido. Os cristãos defendem sexo após o casamento, quando o bastião da sociedade local é preso por espancar uma prostituta. Pedem o encarceramento de quem pixa, rouba ou destrói seus monumentos, quando construíram seus impérios fazendo o mesmo, e muito pior contra as populações escravizadas e dizimadas.
Desenvolvimento de personagem
No entanto foi no desenvolvimento de personagem que a série realmente me conquistou.
Caçadoras de Recompensas nos apresenta Blair no molde da rebelde sem causa. Uma garota que tem tudo, e ainda sim sempre se envolve em confusões para se destacar. Alguns diriam que Blair é a personificação do meme “descansa militante”. Em alguns momentos, tive medo dela ser só militância esquerdista classe média vazia, entretanto, ela me surpreendeu. Blair é extremamente doce e devotada a sua irmã, está sempre disposta a ouvir e aprender sobre o que não sabe, reconhece seus erros e deseja mudar. Blair não milita para aparecer e ser diferentona, ela realmente acredita no que prega. Desconstrói suas mazelas diariamente na busca de se tornar alguém melhor.

Se Blair surpreende, Starling choca. Uma adolescente loira, de olhos azuis, classe média alta que namora o “bonitão” da escola. Para completar ela tem voz enjoada e é bastante lerda. Claramente um personagem feito para ser detestado por mim. A puxada de tapete vem quando a santa do pau oco usa versículos da bíblia como justificativa para fornicar. Mas isso não é tudo, além de ser praticamente uma sniper, Starling é interessada, atenta, sem malícia e nojentamente doce. Sua força não é agressiva, no entanto é tão poderosa quanto sua irmã.
Minha maior recompensa
Bowser. Quando ele apareceu eu pensei de cara: “ala um personagem token preto para calar a boca da gente”. Ai queridos, eu tava TÃO errada. Bowser é o terceiro protagonista da série. Ele é um personagem independente, interessante e com uma história de background. Suas motivações são latentes e explicadas; seus interesses amorosos e desafetos são mostrados em toda sua grandeza.

Caçadora de Recompensas não utiliza o Bowser como um ‘negro sábio’ ou como um “personagem dúbio” tão pouco ele é um homem negro ligado ao crime. Não, Bowser não é um estereótipo usado e velho. Ele é um homem negro íntegro, respeitoso, inteligente, cheio de recursos, doce, dinâmico, apaixonado, falho e engraçado. Bowser está ciente do seu lugar do mundo, das mazelas e problemas que circundam aquela sociedade e o encara de acordo com seus princípios.
Em menor tempo de tela, mas ainda sim necessário, temos Miles. Até então apenas o vallet do Country Club que a família das protagonistas frequentam, e que acaba se envolvendo com Blair. Miles também é um personagem bem desenvolvido ainda que ele seja apenas um coadjuvante de suporte. Inesperadamente, Caçadoras de Recompensas te apresenta as origens de Miles numa subversão de papéis maravilhosa, que destrói julgamentos prévios.
Foi tão refrescante ver não só um, mas dois homens negros incriveis em cena. E eles não são os únicos personagens negros a aparecerem, ainda que sejam meus favoritos. Fica aqui minha dedicação de amor a Yolanda, e minha solidariedade para April, e sim essa vocês só vão entender assistindo.

Considerações Finais
Dado o exposto, assistir Caçadoras de Recompensas foi uma grata surpresa. As críticas sociais são extremamente pertinentes, realizadas de forma clara e pontual. O fato da série ser em parte baseada nas experiências da própria diretora, a torna ainda mais elaborada, por ser uma crítica feita de dentro, por alguém que fez parte deste universo absurdo. Ademais, foi um bom momento de reflexão para mim, que possuo noções preconcebidas sobre como as pessoas que fazem parte deste círculo social se portam, e são. Prova, que sempre há espaço para crescimento e aprendizagem, de ambos os lados da moeda.

Caçadoras de Recompensas mostra que deve sempre haver espaço para questionamento. Seja sobre quem você é, como você se porta, o contexto que está inserido, no que você acredita. Visto que, quando convencido que se está sempre correto, nos tornamos arrogantes, limitados e pobres de espírito. Se permita aprender um pouquinho sempre, permita que o outro tenha facetas. Em conclusão se abra para novas possibilidades e conexões.
Vixe, todinha um livro de auto-ajuda né? Tudo bem, parei já. Corre lá na Netflix, assiste a série e me conta o que achou depois. Ou então vai lá ler meus outros textos, que tem de tudo um pouco. Espero que você esteja bem e seguro, beba água! Um cheiro!