Consumo de jogos, Mercado Global, Brasil e Pirataria

Consumo de jogos, Mercado Global, Brasil e Pirataria

Amáveis leitores, hoje vamos mergulhar em perspectivas muito pessoais sobre jogos, e espero que a minha experiência possa servir de ponto de partida para discutir coisas muito importantes como acessibilidade e justa distribuição social, mas também indústria de jogos e cadeia produtiva. De forma alguma o assunto encerra aqui, e reforço que esse texto será muito mais um resgate de minha trajetória enquanto jogador e desenvolvedor, e como se formaram minhas opiniões. Ficou curioso? Então vamos falar dos anos 90 e em como foi construída a minha relação com videogames e também a pirataria. (E se você acha que eu já escrevi um texto polêmico, se prepara que esse promete)

OBS. 1.: Assinalo que estaremos falando muito mais da grande indústria, mas que de forma alguma os produtores independentes são irrelevantes. Foi apenas necessário um recorte para falar dos impactos sentidos e gerados pelas produtoras AAA. 

OBS. 2: Eu estarei me referindo principalmente a jogos enquanto softwares e um pouco menos aos aparelhos (plataformas) e seus valores.

Master System e a teoria do Irmão Mais Novo

Imagem de um Master System 2 com sua caixa ao fundo, e armazenado em seu container de isopor
Parça, essa MÁQUINA de diversão foi meu primeiro sistema de entretenimento!

Minha mãe costuma dizer que antes dos 3 anos eu tive a possibilidade de jogar num Atari. Pra ser honesto, tenho memórias de usar um alguns anos depois na casa de um parente. Aos 4 anos lembro de ter ganhado um Master System, e disso me recordo muito bem. Foi um presente dividido, já que era meu e de meu irmão mais velho. Era natal de 1991. O mega drive tinha sido lançado no ano anterior, mas minha mãe teve que empenhar o seu 13º inteiro no brinquedo da geração anterior. Ela sempre gostou da novidade (video games) porque era um brinquedo que me permitia ficar “em segurança”. E aquele presente mudaria minha vida. Eu morava em um pequeno condomínio de 2 prédios e tinha um grupo de amigos, mas certamente eu passei mais tempo com o Master System do que com eles. Na época eu alugava jogos na locadora (coisa que a maioria dos garotos de hoje nem deve sonhar em como é a experiência) e em poucos anos eu já tinha meus favoritos, e uma noção de senso estético que me permitiu escolher jogos que ainda não tinha experimentado. Corria por trás uma disputa de mercado intensa entre vários aparelhos que pirateavam o nintendinho (NES) como turbo game, Phantom e outros, que mais conheci de “ouvir falar” do que de jogar, e eu tive contato também com alguns jogos de PC graças a um amigo do condomínio cujo pai tinha um computador pessoal na época (algo completamente inédito na Salvador desse tempo).

Propaganda de Phantasy Star para Master System onde se pode ler "Este jogo tem 3 meses de duração, legendas em português e um vilão que acha que você não é nada."
Esse vilão não me conhece. Se conhecesse SABERIA.

Alguns anos mais tarde (1993 mais ou menos) eu pude jogar na casa de amigos o Mega-drive e entender o quanto eu já estava defasado. A curiosidade é que não era algo que era exclusivo a mim. Ao que me consta, o Brasil era um mercado secundário de jogos e o que acontecia era que existia pouca “expertise” no assunto, e como para os pais havia uma consideração muito grande sobre o quanto valia a pena investir em um “brinquedo”, era comum que gerações passadas fossem mais populares. É como se o Brasil fosse um lugar onde se pudesse ser descartado o que os outros não mais tinham tanto interesse, já que a gente tava “atrasado” na velocidade do consumo. Sabe o irmão mais novo que herda as roupas do mais velho? Mais ou menos isso.

Voltando para minha experiência, eu preciso pontuar que eu tive a felicidade de ter muito acesso, ou seja muitos videogames, mas foram anos entre cada um deles. O meu próximo videogame seria um Sega Saturno, comprado de segunda mão aos 10 anos (um péssimo negócio, mas eu tinha 10 anos). Nessa época eu passei a morar no interior e me distanciei um pouco dos jogos de PC (já não tinha um vizinho com uma máquina disponível), e me aproximei das locadoras que agora tinham um formato distinto. Não só você poderia “alugar” os jogos pra jogar em casa, como você tinha várias TVs instaladas com videogames que pagávamos pelo período de uso (em geral dividido em meia-hora). Foi quando pude jogar Playstation, Super Nintendo e Nintendo 64. Pra minha sorte havia uma locadora com jogos de Saturno, o que eu imagino que poderia ser muito difícil no Brasil. Mas considerando a representação da TECTOY e como o Master System e Mega Drive foram consoles com grande popularidade, havia reconhecimento de marca suficiente pra ser um videogame conhecido (e reconhecido) no BR.

Locadoras e Pirataria, um novo universo

Recorte com propagandas de videogames e seus preços em 3 colunas, constando:
Na primeira coluna um Sega Saturn (por 395 reais) e seus jogos (por 99,90 cada);
Na segunda coluna Gameboys colors (por 79,00) e jogos (49,90);
E na terceira coluna um Panasonic 3DO (por 550 reais
APENAS 99,90 CADA!!!!11! (Hoje, aproximadamente 510 reais em valores corrigidos)

Depois de poucos anos ficou claro que o Saturno seria sempre muito limitado em ofertas de jogos, e foi quando pedi um Playstation. Aos 13 eu tive um Playstation e foi a primeira vez que comprei um jogo à 10 reais. Antes disso os jogos que eu tive foram comprados uma vez por ano, às vezes ganhava de natal ou aniversário. Com o dinheiro que eu juntava do lanche só dava para um por ano. Quando eu finalmente tive um Playstation eu já conhecia diversos jogos (graças às locadoras e revistas que agora comprava) e podia comprar tanto em lojas como em vendedores informais jogos de 10 reais. O mais incrível é que existia uma indústria de produção pirata tão proeminente que para uma criança que não tinha acesso a informação, era difícil entender que aquele jogo que vinha com a arte gravada no disco não era original. Só anos mais tarde eu descobri que os jogos originais eram gravados em discos com fundo preto (e se você não sabia dessa, agora tá sabendo), mas a qualidade da produção paralela obviamente variava de acordo com o fornecedor de jogos. Aos poucos o aparelho de gravar CDs começou a se popularizar, e foi na mesma época que a pirataria de CDs de música cresceu bastante. E podemos discutir os aspectos morais da coisa, mas o que eu gostaria de destacar é o quanto foi importante e absolutamente transformador o acesso aos jogos que tive, e que jamais teria se o valor praticado fosse o mesmo que eu paguei nos anos anteriores.

Capa da revista "Gamers" Ano V - Número 38
Se a revista GAMERS tá chamando de “Obra de arte” quem sou EU pra dizer o contrário?

Os meus primeiros jogos no Playstation foram GEX 3: Enter the Gecko e Final Fantasy 8 (em japonês). Eu adorava platformers, e Gex foi uma diversão, mas Final Fantasy 8 explodiu meus miolos de 12 anos. E eu jamais teria comprado um jogo de 50 ou 100 reais naquele período (1999), mas 10 reais em um jogo de 4 discos era uma barganha! Em um ano eu acumulei mais de 10 jogos, e ainda pude jogar de amigos. Todos se beneficiavam do fato de que podíamos comprar esses jogos com pouco dinheiro, e isso ajudava a identificar gêneros que jamais teríamos conhecido sem essas possibilidades. A experimentar muita coisa (boa e ruim) em um período que a produção de última linha poderia ser comparada (guardadas as proporções) à quantidade de produção que vemos em uma Steam ou um Google Play. E isso me leva ao ponto chave que eu gostaria de trazer que é: Eu considero que a pirataria é uma forma legítima de disputa política. 

Quanto de dinheiro você tem no bolso?

Imagem de uma carteira aberta com "KKKKKKKK" escrito sobre ela
Eu abri a carteira e ela achou engraçado

Vou tentar elaborar isso com cuidado porque eu não acho que seja tão produtivo brandir minhas impressões como uma espada que precisa cortar o mal. Para isso eu preciso que a gente reconheça que existe uma enorme desigualdade social no mundo. Uma das principais fontes disto vem de uma exploração desigual de diferentes países em diferentes períodos históricos, de diferentes formas. O que significa que de um lado temos países com uma renda média muito baixa em comparação a outros.

Dito isso, avancemos para questões na outra ponta dessa relação que é como a indústria opera. A indústria precisa fazer dinheiro porque funciona dentro de uma lógica de operação capitalista, naturalmente, e portanto precisa produzir lucro. Isso significa que ela vai precificar a produção de acordo com o consumo médio dos maiores países consumidores dessa produção, e considerar estratégias de produzir dinheiro das mais diversas formas, uma vez que o capital precisa ser feito. Não estou sequer entrando em juízo de valor sobre práticas predatórias nem nada disso, apenas estabelecendo o básico de como funcionam as relações comerciais e as estratégias de precificação. 

Agora, juntando os dois lados dessa conta, naturalmente ela não fecha. Ainda que você possa considerar necessário que o entretenimento precisa ser pago, e os desenvolvedores precisam receber o dinheiro necessário por sua produção (concordo com ambas as afirmações, considerado o sistema vigente), a maneira como o produto é precificado gera uma exclusão enorme de potencial consumidor. Mais ainda, se hoje o Brasil é reconhecido como um dos maiores mercados consumidores da indústria (13º mercado do mundo, movimentando 1,5 bilhão de dólares), como você acha que foi construído esse mercado consumidor? Eu diria que boa parte nasce justamente de um período que comprar jogos na feira, em mercados paralelos, era a norma. É claro que com o passar do tempo, aqueles mais jovens que foram encantados pelas produções que tiveram acesso no passado, AQUELES que têm a possibilidade de pagar hoje, pagam o valor pedido pelos jogos. O que atualmente gira em torno de 280 reais por jogo lançado.

É claro que existe um outro ponto do argumento. Hoje temos uma oferta muito maior de jogos gratuitos, e alguns jogos antigos são oferecidos como gratuitos nas mais diversas plataformas. Não se pode dizer que há uma completa exclusão já que é possível acessar, mesmo sem MUITO recurso. Mas objetivamente falando a gente volta à uma prática muito semelhante à que mencionei alguns parágrafos atrás, do “irmão mais velho” e “irmão mais novo”. Só que dessa vez numa estratégia um pouco menos compartimentada em mercados de países, e focada em divisão de categorias de consumidor (que podem estar em qualquer país). E quando você considera que esses “280 reais” valem os “10 reais de lanche” para alguns países, você entende que há uma profunda desigualdade e diferença no acesso aos jogos.

Imagem de tela do jogo GTA 5 gratuito
Quem tem uma coleção de jogos gratuitos da EPIC levanta a mão!

“Mas você tem que considerar a carga tributária que faz o valor do jogo triplicar”, dirá o(a) leitor(a) mais inclinado ao liberalismo que conseguiu chegar até esse ponto da leitura. Olha, eu acredito que o imposto cobrado sobre videogames poderia ser reconsiderado até certo ponto, mas isso não muda a questão principal do meu argumento. Ainda que descontemos 2/3 do valor (o que eu não acho que corresponda necessariamente ao valor incidido de imposto) vamos ter um preço de algo em torno de 100 reais por jogo. Você acha que num país em que se calcula o custo de vida gira em torno de 4439 reais pra uma pessoa (fonte Expatistan) e com o trabalhador ganhando uma média mensal de 2398 reais, sobra 100 reais por mês pra entretenimento? Imagine então aqueles que vivem com um salário mínimo de 1045 reais. É claro que nessa discussão a gente percebe que o buraco é muito mais embaixo, e de forma alguma eu considero que cobrar um valor mais módico vai salvar o mundo, mas não deixa de ser uma prática de acessibilidade com possibilidades interessantes de reverberações.

“No final o que é que você quer?”

Duas crianças na cama deitadas com controles de videogame, sorrindo
É tão difícil assim entender?

Se pudermos reconhecer tudo o que foi dito, é possível compreender que as práticas “paralelas” vêm como uma forma de alcançar o entretenimento que deveria ser popularizado, mas acaba sendo elitizado, transformando o que deveria ser fonte de diversão em mais uma forma de ridicularizar e perverter aqueles que não têm condições de acessar determinada prática. Claro que não é exclusividade do campo dos jogos, mas a gente tá se reservando ao tema da redação aqui. E mais, nesse texto consideramos os aspectos comerciais e de formadores de mercado dessas que são práticas ilegais, o que demonstra que a longo prazo os efeitos podem ser muito positivos quando se adotam práticas de acesso, mesmo que essas práticas tenham nascido da comunidade de consumidores e não da cadeia produtiva. Ou seja, na minha opinião, o elitismo é só uma opção burra, mesmo dentro do próprio sistema.

Bem aqui, do alto da minha ignorância, eu posso afirmar que o mercado seria muito distinto se houvessem práticas de valor de produto moduladas para considerar o quanto a média da população de um determinado lugar pode pagar. Porque era essa a sensação que eu tinha quando podia comprar os jogos em minhas viagens à Camelot. Mas eu sei que isso é uma idealização absurda, e é claro que existem outras possibilidades de consumo e de resistência. De minha parte eu só gostaria de garantir que os jogos fossem todos acessíveis, nos mais diversos aspectos da palavra, e que o entendimento sobre pirataria fosse um pouco mais atravessado por outras considerações. Acredito que via de regra ficamos presos em argumentos que são repetidos anos a fio, e tenho visto poucas vezes o assunto ser abordado de forma discursiva. E talvez eu tenha ainda um entendimento muito enviesado do assunto. Mas é nesse ponto que eu convido você, leitor(a), a manifestar o que você acha do assunto. Você já comprou jogos em Camelot? Baixou um torrentzim? Você concorda que a prática de preços e a baixa renda influencia nessas decisões? Quem gostou bate palma, quem não gostou pode reclamar aí embaixo. Grande abraço, e até a próxima!

Falando de algum lugar no universo - Felipe Barros de Sousa

Um coringa no baralho. Eu falo e filmo, sou bichão mesmo. Falou de jogos, filmes, música, animação, mangá, e o que mais vier, tamo junto.

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