Me permito fazer uma introdução desconectada do filme e do resto do texto: no dia 03/02, um jovem de Salvador foi agredido por um policial militar com motivações claramente racistas. No dia 04, uma mulher grávida foi agredida também por um policial militar. Isso não é uma dedicatória. É uma expressão do mais puro nojo que eu estou sentindo neste dia.
Mas enfim, vamos falar de coisa boa. Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa (Birds of Prey: And the Fantabulous Emancipation of One Harley Quinn, 2020).

SINOPSE
Harley (Margot Robbie) se separou do namorado – ou melhor, o pudinzinho deu um pé nela. Agora, ela tem que aprender a parar de depender emocionalmente dele. Além de se tornar caçadora de recompensas, e dona de uma hiena.

MILITÂNCIA
Começar logo pelo assunto que tá na boca do jovem, e a população brasileira só fala disso: militância social. Aves de Rapina é continuação direta de Esquadrão Suicida, que foi… bem, aquela beleza, né? Só que, mais relevante que isso, ficava muito claro no filme a relação abusiva entre o Coringa (personagem do Jared Leto) e a Harley. (O Coringa ruim, não o bom) E era muito evidente que o lado mais fraco era, justamente, o dela. Ela era a mais dependente, a que mais sofria abusos, a que mais sofreu fisicamente em nome da relação… Enfim. Vocês viram o filme. Ou não. Tomara que não.
Aves de Rapina já começa com um grande acerto, este casal está separado. E este tema vai nortear todo o enredo: as etapas de superação desse relacionamento abusivo para a independência emocional. O filme não é inteiro focado nisso (ufa, ninguém aguentaria), mas as motivações estão lá, e são muito claras.
Uma coisa importantíssima: Direção e roteiro por mulheres, Cathy Yan e Christina Hodson.

MULHERES
Não apenas a Harley passa por esse tipo de situação: todas as mulheres (adultas) do elenco principal estão passando por algum tipo de abuso causado por homens: chefe abusivo, colega de trabalho que rouba o protagonismo, motivadores de vingança. Todas tem que se livrar desses fantasmas (reais ou passados) e, metaforicamente, “mate um homem”.

RASAS?
Uma crítica que eu li de uma influencer é que as outras personagens, fora a Quinn, não tem personalidade. Eu discordo: fora a Caçadora (Mary Elizabeth Winstead), todas têm suas narrativas bem construídas e contextualizadas. Obviamente, a personagem com maiores curvas de crescimento e multidimensionalidade é a própria Arlequina (afinal, é a protagonista).
Cabe massificar esse ponto: o personagem raso de Esquadrão Suicida se torna um personagem complexo, e isso é mostrado nos primeiros frames de Aves de Rapina (bem melhor que aqueles flashbacks bizarros).
Independente, todas as mulheres (e aí já dá pra incluir a Cassandra (Ella Jay Basco) são extremamente competentes no que fazem. Não é que elas “não deixam a desejar para os homens”. É que elas humilham os caras, mesmo.

ANIMAÇÕES E GRÁFICOS
Falando do primeiro minuto de Aves de Rapina, ele já vem mostrando uma parada que vai ser muito legal no decorrer do longa: as interferências gráficas. São muito divertidas, e trazem ótimas piadas. E se você não entende inglês, fique tranquila: a versão do cinema é toda adaptada para o português. Quase todo texto em tela é traduzido. Experiência excelente.
Curiosamente, um filme bem reconhecido por essas intervenções é Scott Pilgrim, que a Mary Elizabeth Winstead também participa.

ATORES
Aves de Rapina traz atores grandes e bem conhecidos, como Margot Robbie, e Ewan McGregor. Tem atores já conhecidos mas não são primeira linha, como a Mary Elizabeth Winstead, Rosie Perez, Jurnee Smollett-Bell. E tem atores que nem aparecem e, com isso, abrilhantam o filme, como o Leto.

STUNTS
Já que estamos nos atores, Aves de Rapina é um filme muito bom, e um dos fatores de sucesso é que a coreografia de ação está impecável. A Harley consegue ser “doidinha” e engraçada mesmo sob fogo cerrado, então muitos parabéns à equipe de preparo. Em particular à equipe de dublês. Se consegui achar todos os nomes, as dublês da Margot foram Renae Moneymaker, Michelle Steilen, Hayley Wright e Hayley Wright. E confiram esse vídeo de coletânea de stunts do filme
MÚSICAS
Só pra fechar, a trilha sonora é muito legal, com direito a um videoclipe dentro do filme. É meio maluco, mas funciona.
FINALIZANDO
Seguindo a linha “DC está se encontrando nos cinemas”, Aves de Rapina é um passo bom nessa construção, apesar de ser bem distinto dos demais – e faz questão de frisar isso. É um filme muito legal, muito VIOLENTO, mas muito divertido. Você não vai se cansar nem ficar entediado hora nenhuma.
Em tempo: Não tem cena pós créditos. Só a Arlequina fazendo uma piadinha que nem é tão engraçada. Não precisa ficar até o fim.

MOMENTO P.S.:
Outro acerto de Aves de Rapina, no contexto do bloco Militância: o Jared Leto nem aparece nesse filme. No máximo, num frame que ele é visto de costas.
